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SÃO PAULO – Não fosse o bastante ter que se preocupar com o ambiente interno do país, como os rumos que a política econômica vai tomar, o que acontecerá se mudar de governo etc., o brasileiro ainda tem que ficar de olho no que está acontecendo no mercado internacional: guerras, crises, fatos políticos etc. Mera questão de informação ou há algo a mais por trás disso?
Nos últimos dias, por exemplo, uma onda de maior cautela vem tomando conta dos mercados norte-americano e europeu, fazendo despertar, também no mercado brasileiro, uma maior apreensão. Tal apreensão se fez refletir, no caso do cenário doméstico, por uma recuperação do dólar frente ao real, acompanhada por uma queda dos títulos da dívida externa brasileira e, conseqüentemente, alta do risco país. Mas qual a lógica que explica tais fatos?
As crises externas e o “efeito repercussão”
Para entendermos como todo este processo é desencadeado, torna-se necessário, antes de tudo, lembrar que, pelo fato de as economias mundiais estarem cada vez mais interrelacionadas, um determinado acontecimento dificilmente terá efeitos isolados, tendendo-se a se espalhar pelas demais economias. O canal utilizado para a “propagação” destes efeitos situa-se, geralmente, nas relações comerciais guardadas entre os diversos países.
Se a expectativa dos investidores, por exemplo, é de que um determinado país importará menos, haverá uma expectativa recíproca de queda das exportações de seus parceiros comerciais, pois se há agentes comprando menos, certamente haverá agentes reduzindo suas vendas. Com menores exportações, estes últimos tendem a encontrar maiores dificuldades para o crescimento de sua atividade econômica.
Em termos práticos, podemos citar o desaquecimento econômico dos Estados Unidos, acelerado a partir do ataque terrorista ao World Trade Center, em Nova York. Com a queda no consumo e investimentos internos no país, o volume de importações dos Estados Unidos passou a registrar quedas gradativas, prejudicando, neste sentido, países da União Européia e Japão, que possuem grandes vínculos comerciais com os norte-americanos. Temos, dessa maneira, o que os economistas costumam chamar de efeito repercussão.
E o Brasil, onde entra nesta história?
Explicado o mecanismo de transmissão dos fatos econômicos mundiais, passaremos, agora, a entender como o Brasil é afetado por tais acontecimentos. Fazendo parte dos ditos países emergentes, o Brasil sofre o efeito repercussão tanto pelo lado comercial quanto pelo lado dos investimentos financeiros, fato que amplia, ainda mais, sua exposição aos acontecimentos globais. Dessa forma, vejamos como esta cadeia de eventos macroeconômicos podem refletir no seu bolso.
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Partindo de um exemplo prático, podemos analisar a trajetória recente dos principais indicadores da economia brasileira a partir das perspectivas para a as principais economias do mundo. Há algumas semanas, por exemplo, quando a Rússia teve sua classificação de risco melhorada por uma agência internacional, as perspectivas para a economia brasileira apresentaram expressiva melhora, gerando um grande otimismo no mercado.
Com tal otimismo, os investidores passaram a diminuir a procura por dólares, acreditando que uma possível elevação na classificação de risco do Brasil poderia atrair mais capital externo e pressionar ainda mais a moeda norte-americana. Dessa maneira, o dólar registrava significativa queda, ao passo que os títulos da dívida externa brasileira, especialmente o C-Bond, confirmavam sua trajetória de ganhos, uma vez que os investidores apostavam em um maior potencial de valorização.
O desaquecimento global e a reversão das expectativas
Contudo, na semana anterior, o que se viu foi uma reversão das expectativas dos agentes, à medida que as incertezas do mercado internacional a respeito do reaquecimento da economia norte-americana foram ainda mais ampliadas. Com o maior pessimismo dos investidores em relação à conjuntura econômica norte-americana, as principais moedas mundiais, dentre elas o euro e o iene, apresentaram trajetória de alta frente à moeda dos Estados Unidos.
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No Brasil, entretanto, as dúvidas quanto ao reaquecimento da economia mundial levaram os investidores a ampliarem a cautela com relação a aplicações em países emergentes, o que diminuiu a demanda pelos títulos da dívida externa brasileira no período. Dessa maneira, o C-Bond voltou a registrar queda, fechando a semana cotado a 92,88 centavos de dólar, levando, assim, o risco país a subir acima dos 600 pontos base.
No mercado de câmbio, o que se verificou foi uma tendência de alta do dólar frente ao real, refletindo a maior procura por hedges por parte dos investidores e empresas. E é justamente neste ponto que reside o perigo para o seu bolso: caso as expectativas de uma maior morosidade no reaquecimento das principais economias mundiais continuem, possivelmente o dólar registrará novas altas na próxima semana, o que, sem dúvida, é algo desagradável para os consumidores.
As expectativas e o seu bolso
Isso decorre, basicamente, do fato de as altas do dólar significarem maior reajuste de preços, levando a uma aceleração inflacionária, que é temida, até mesmo, pela própria equipe econômica. Deve-se salientar, contudo, que, caso os agentes acreditem que a alta do dólar é transitória, então não haverá uma tendência de maior alta dos preços. Há também que se considerar o fato de que muitos contratos, como boa parte dos contratos de aluguel, por exemplo, que são reajustados com base em algum índice de preço, como o IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercado).
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Dessa maneira, além de pagar mais caro por determinados itens de consumo, como os alimentos e os transportes, o consumidor acabará tendo que desembolsar mais também com as despesas de habitação. Percebe-se, dessa maneira, que o mercado internacional tem amplas influências sobre a economia do país e, por conseguinte, sobre o orçamento da população. Assim, acompanhar as tendências do mercado externo e entender o que está em jogo é importante não só para se manter informado, mas principalmente para o seu bolso.