Mercado de ações se tornou inevitável, diz XP: há “janela histórica de oportunidades”

Raphael Figueredo, estrategista da casa, avalia que é preciso olhar a renda variável com um pouco mais de "carinho"

Lara Rizério Augusto Diniz

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Uma janela de oportunidades se desenha para os ativos de renda variável brasileiros em um cenário que se vislumbra (ainda que no médio prazo) para queda de juros, aponta Raphael “Rafi” Figueiredo, estrategista de ações da XP Investimentos, em relatório. Para ele, o “mercado de ações se tornou inevitável”. O analista participou do programa Morning Call da XP nesta quarta-feira (25).

Na última terça-feira (24), o BC divulgou a ata do encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) da semana passada, quando a taxa básica Selic foi elevada em 25 pontos-base, para 15% ao ano. No documento, o BC afirmou que o aumento adicional ocorreu por conta da resiliência da atividade, mas ponderou que grande parte do efeito do aperto monetário feito até agora ainda está por vir, reforçando indicação já dada no comunicado da decisão do Copom de que o ciclo de alta será interrompido.

“O mercado aponta para uma janela histórica de oportunidades na Bolsa, onde setores como instituições financeiras e varejo despontam com força. Ignorar esse movimento é perder a chance de surfar a onda certa do ciclo econômico, pois o custo de permanecer superexposto na renda fixa pode ser uma armadilha que limita ganhos e potencializa o custo de oportunidade”, avalia.

Viva do lucro de grandes empresas

Estratégia

Assim, ele aponta que, em tempos de mudanças estruturais nos ciclos econômicos, com a recente transição para um regime de inflação em alta e juros em queda, ignorar a renda variável é mais do que um erro tático — é uma omissão estratégica.

“Está na hora de olhar a renda variável com um pouco mais de carinho. A gente chegou de fato no ciclo final da taxa de juros Selic”, diz. Ele enfatiza que a ata do Copom pontuou várias vezes que a taxa deve permanecer no patamar 15% por um período prolongado.

“Portanto, é uma hora que os investidores começam a reequilibrar o seu portfólio, questionando a sua superexposição em renda fixa e recalibrar para renda variável”, afirma.

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O ambiente à frente é historicamente mais favorável a Bolsa, com 62,5% de probabilidade de retornos positivos para o Ibovespa, segundo os ciclos anteriores. “Não se trata de acertar o timing perfeito. Trata-se de alinhar probabilidade e tendência. Estar posicionado neste momento significa aumentar as chances de estar do lado certo da assimetria”, avalia.

Os ciclos de política monetária antecedem os impactos reais nos ativos de risco, aponta, ressaltando que, quando a taxa de juros começa a cair, mesmo com a inflação ainda pressionada, abre-se a janela mais fértil para valorização dos ativos de risco.

Historicamente, esse regime dura em média 164 dias e, nesse tipo de ambiente:

• Ações de baixo risco superaram o Ibovespa em 85,7% das vezes;

• Ações de valor superaram o índice em 71,4% das ocorrências;

Com a queda dos juros, o custo de capital das empresas diminui, permitindo a expansão dos múltiplos de valuation, como P/L (preço sobre o lucro) e EV/Ebitda (valor da firma/lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações).

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Precificação futura

O estrategista aponta que é um movimento técnico: a reprecificação dos fluxos de caixa futuros acontece antes da melhora visível nos resultados, com setores ligados à atividade interna e companhias com ativos descontados são os primeiros a capturar esse efeito.

“Com a economia real ainda sob os efeitos de um juro real elevado, os ativos de risco já começam a precificar o futuro. É o fluxo que antecipa o fundamento — não o contrário. E para capturar a melhor fase da tendência, não se pode esperar a confirmação nos dados: é preciso agir no sinal”, aponta Rafi.

Para o estrategista, neste cenário, o maior risco não é estar exposto, mas estar de fora. Isso porque, quando a política monetária começa a afrouxar, a simetria do retorno muda de lado. “O risco de errar ao se posicionar cedo demais passa a ser menor do que o custo de perder o movimento. E o mais interessante é que, historicamente, esse regime não concentra desempenho em um único setor — pelo contrário, bancos, varejo e até ações de baixo risco brilham. A dispersão favorável reduz o risco de concentração e favorece o pragmatismo tático”, avalia.

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Cabe ressaltar que alguns grandes bancos estão otimistas com as ações brasileiras, como é o caso do UBS, que nesta semana elevou as ações do Brasil para overweight (exposição acima da média) entre os emergentes. Dentre os pontos, os estrategistas ressaltaram que, depois da última reunião do Copom, os analistas passaram a acreditar que esse foi o último aumento do ano – e que os juros podem começar a cair a partir de abril de 2026, “num ritmo mais rápido do que o consenso projeta”.

O estrategista, no entanto, ressaltou que é sempre importante fazer uma avaliação profunda da exposição do investidor. “É uma classe de ativos que é combinada com renda fixa. A gente está longe de um cenário de euforia. Mas assim a gente se antecipa a queda de juros”, conclui.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.