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SÃO PAULO – A falta de realismo dos investidores sobre a recuperação do mercado parece estar atrapalhando a melhora da economia. Segundo David Rosenberg, da área de wealth management da gestora de investimentos canadense Gluskin Cheff, esse otimismo não só oculta os dados reais, que mostram que a economia não se recupera tanto quanto aparenta, mas também prejudica a precificação dos ativos, o que pode levar a economia a uma segunda fase da crise.
Para o analista, a economia norte-americana verá um resultado relativamente positivo no terceiro trimestre – o que pode ser a única boa notícia do período, já que os programas de incentivo fiscal parecem estar perto do fim.
O analista compartilha da opinião do professor de economia de Harvard, Martin Feldstein, de que o risco de uma recessão em W é bastante real, e é possível que em seis meses as más notícias voltem a aparecer.
Precificação
Assim como Roubini, Rosenberg acredita que a esperança dos investidores em uma recuperação do mercado está atrapalhando a real melhora da economia quanto à precificação dos ativos.
Rosenberg diz que historicamente após uma boa recuperação, acontece um crescimento de pouco mais de 3% no PIB (Produto Interno Bruto) real do país. Para o avanço visto no último trimestre no índice S&P 500, o aumento precificado do PIB real dos Estados Unidos seria de mais de 5% – número muito distante do previsto por analistas e, na opinião da Gluskin Cheff, “com probabilidade perto de zero de ocorrer”.
Estes dados indicam que, provavelmente, o mercado de ações permanecerá instável e pode voltar a cair até o final do ano, frustrando as expectativas de precificação atuais. “Muito crescimento está precificado neste momento”, completa Rosenberg.
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Expectativas dos investidores
As boas impressões passadas à primeira vista pelos números nem sempre significam notícias positivas. O custo do crédito melhorou nos Estados Unidos – mas o acesso ao crédito parece piorar, com 40% das pequenas empresas com dificuldades em conseguir financiamentos. “Só porque não estamos mais no nível ‘fim do mundo’ em que estávamos, não quer dizer que as condições realmente estão melhores”, diz o analista.
Nem mesmo o Leading Indicators, que teve resultados acima do esperado em junho, com crescimento de 0,7%, é motivo para acreditar numa recuperação econômica.
Do mesmo modo, os balanços surpreendentes das empresas apresentados no segundo trimestre não necessariamente são bons.
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Temporada de resultados
Apenas 62% das empresas listadas no S&P conseguiram superar suas já baixas estimativas – o que, para o analista, não é um resultado impressionante a ponto de justificar o rali de Wall Street nas últimas semanas.
Aqui novamente as altas expectativas dos investidores, ao ver de Rosenberg, parcialmente provocadas pelo “desespero por uma melhora do mercado”, fazem as notícias parecerem melhores do que realmente são. Para comprovar, basta analisar os números além das manchetes.
O analista cita exemplos como a Apple, que teve resultados muito bem recebidos, mas cujo balanço apresenta uma queda de 11% nas vendas de Ipod, e 18% em vendas de computadores Mac. O bom desempenho da empresa foi devido ao iPhone, que teve 303% de avanço nas vendas.
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Além da Apple, há casos de empresas que ganharam market share devido a perdas de seus concorrentes, não necessariamente uma melhora na própria empresa (como a Intel), e companhias que foram muito bem em alguns mercados, mas mal nos Estados Unidos (a Coca-Cola foi bem na China e Índia, e teve queda de 4% nos Estados Unidos).
O setor de saúde – menos cíclico do que o de tecnologia e financeiro, por exemplo – parece ser uma exceção. Eli Lilly e Pfizer superaram as expectativas e aumentaram o guidance para o próximo trimestre.
Recuperação?
Nos Estados Unidos, a taxa de arrecadação de impostos dos estados despencou 11,7% no primeiro trimestre em comparação com os três primeiros meses de 2008, a maior queda de que se tem registro. Esse recorde deve ser quebrado em breve, com analistas prevendo uma queda de mais 20% no próximo trimestre.
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Apenas 5 dos 50 estados norte-americanos não tiveram diminuição nas arrecadações, e há um déficit cumulativo de quase US$ 146 bilhões tem que ser resolvido até 2010. Esses são dados que colocam em questão por quanto tempo mais os incentivos do governo podem carregar a economia.
A redução líquida de salários também ganha espaço nos país, assim como o corte de benefícios para funcionários.
Mercado Imobiliário
Os preços de moradias nos Estados Unidos parecem, finalmente, ter dado um passo a caminho da recuperação. A Federal Housing Finance Agency anunciou que após dois meses de queda, o índice de preços aumentou 0,9% em maio. Vale lembrar que estes números são calculados tomando como base transações recorrentes em casas usadas com hipotecas da Fannie Mae e Freddie Mac.
O mercado ainda aguarda a confirmação dessa tendência com a divulgação no final de julho do índice S&P/Case-Shiller Home Price, que é mais abrangente. Entretanto, analisando os resultados na passagem anual, os preços de moradia continuam em queda. Mesmo que diminuam seu ritmo de perdas, os preços continuam caindo.
Estratégia de saída
Ao invés de o Federal Reserve estar programando a chamada estratégia de saída – aos estímulos monetário e fiscal implementados durante a crise – Rosenberg sugere que o chairman do banco central norte-americano, Ben Bernanke, pode estar preparando a sua própria estratégia de saída. “Ele apoiou o último plano de estímulo fiscal, e foi enfático em seu discurso no Congresso ao dizer que o próximo passo deveria ser a redução do déficit”.
Essa posição serviu como argumento para o partido republicano atacar o plano de incentivo à economia de Barack Obama. Por isso, o analista acredita que se Bernanke não concordar com os planos de Obama, o presidente norte-americano encontrará alguém que o faça, monetizando o débito.
Vale lembrar que em janeiro de 2010 vence o mandato de Bernanke e há no mercado quem especule que a renovação de sua nomeação ao cargo está ameaçada.