Maré começa a virar no mercado e Brasil é principal aposta, aponta Bradesco BBI

Relatório do banco aponta melhora no humor de investidores locais, fim dos resgates em fundos e mercado brasileiro descontado; banco mantém Brasil como principal aposta na América Latina diante das eleições de 2026 e da perspectiva de queda dos juros

Lara Rizério

Homem aponta para um painel de cotações eletrônico no centro de São Paulo, Brasil, 7 de janeiro de 2016 REUTERS/Paulo Whitaker
Homem aponta para um painel de cotações eletrônico no centro de São Paulo, Brasil, 7 de janeiro de 2016 REUTERS/Paulo Whitaker

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Após meses marcados por cautela com o cenário fiscal e político brasileiro, o Bradesco BBI vê sinais de que a percepção dos investidores sobre os ativos locais começa a melhorar. Em relatório intitulado The Tide Turning on Faria Lima (“A maré virando na Faria Lima”), a equipe de estratégia para América Latina afirma que as conversas realizadas ao longo de dez dias com investidores no Brasil e no Chile indicam um ambiente menos pessimista para os mercados da região.

Segundo a equipe de estratégia do banco, liderada por Ben Laidler, o sentimento dos investidores brasileiros tornou-se menos negativo, o posicionamento dos portfólios está mais equilibrado e os fluxos de saída dos fundos locais parecem ter chegado ao fim. Na avaliação dos estrategistas, isso deixa a Bolsa brasileira mais sensível a notícias positivas e, principalmente, a uma eventual retomada dos investimentos estrangeiros.

“O consenso entre investidores é que as ações, os juros e os títulos públicos brasileiros continuam baratos e bastante sensíveis a notícias menos negativas”, destaca o relatório.

Para o BBI, o Brasil segue sendo a principal recomendação (overweight, ou exposição acima da média) na América Latina. A visão positiva está baseada em dois fatores considerados mal precificados pelo mercado: o ciclo de juros doméstico e o ciclo eleitoral.

A equipe argumenta que a atenção dos investidores vem migrando do atual ciclo monetário para as eleições presidenciais de 2026 e para os sinais fiscais que serão dados pelos candidatos e pelo próximo governo. Nesse contexto, o banco avalia que tanto os rendimentos dos títulos públicos indexados à inflação (NTN-Bs) quanto a curva futura da Selic incorporam um cenário excessivamente pessimista.

Mercado ainda defensivo

Apesar da melhora da percepção, o posicionamento dos investidores permanece conservador. As discussões realizadas pelo BBI indicaram preferência por setores defensivos, especialmente empresas de utilidade pública, enquanto segmentos mais ligados ao ciclo econômico continuam subalocados.

O banco observa que investidores seguem com exposição reduzida a ações de consumo, empresas mais sensíveis aos juros e companhias ligadas a commodities, refletindo preocupações com o crescimento econômico e com os riscos para 2027.

Ao mesmo tempo, o BBI afirma que a recente temporada de resultados corporativos trouxe algum alívio para o mercado, ao mostrar resiliência dos lucros de diversas companhias. Ainda assim, os investidores demonstraram preocupação com a trajetória da economia e da política fiscal após as eleições.

Estrangeiro pode ser o gatilho

Um dos temas centrais das reuniões foi a possibilidade de retorno do fluxo internacional para os mercados latino-americanos.

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Os estrategistas avaliam que uma eventual redução dos ventos contrários vindos do setor de tecnologia nos Estados Unidos e do fortalecimento do dólar poderia estimular investidores globais a aumentar a exposição à América Latina.

No caso brasileiro, o impacto seria potencializado pelo fato de que os investidores domésticos já não estariam promovendo grandes saídas de recursos. Na prática, isso significa que um fluxo relativamente modesto de capital estrangeiro poderia gerar efeitos relevantes sobre os preços dos ativos.

“O mercado acionário está muito mais sensível ao retorno dos influxos estrangeiros, que podem já estar começando lentamente”, afirma o relatório.

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Menores mercados chamam atenção

Embora o Brasil permaneça como principal aposta, o banco também identificou interesse crescente dos investidores por mercados menores da região, especialmente Argentina e Peru.

Ainda assim, o BBI considera que o Chile oferece atualmente a melhor relação entre risco e retorno da América Latina. A recomendação de compra para o país está baseada na expectativa de aprovação das chamadas “megareformas”, que poderiam destravar investimentos e fortalecer o peso chileno.

Já o Peru é visto de forma neutra, beneficiado por uma possível recuperação dos investimentos impulsionada pela política, mas com riscos ligados a questões sociais e aos efeitos climáticos do El Niño.

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No México, também com recomendação neutra, o banco vê potencial de valorização caso um acordo comercial USMCA seja fechado antes do esperado. Além disso, o país poderia receber parte dos fluxos destinados hoje ao Brasil à medida que se aproximam eventos políticos locais.

Por outro lado, o BBI mantém visão cautelosa para Argentina e Colômbia. No caso argentino, a desaceleração do crescimento econômico preocupa pelo impacto sobre lucros corporativos e perspectivas políticas. Já a Colômbia enfrenta desafios relacionados à implementação de reformas e teria menos espaço para reprecificação após a recente recuperação do mercado.

Onde estão as oportunidades

Diante desse cenário, a carteira recomendada do Bradesco BBI para a América Latina privilegia temas ligados à queda dos juros, ao mercado de capitais e às estatais brasileiras.

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A avaliação é que o mercado ainda precifica de forma excessivamente negativa os riscos eleitorais e fiscais, abrindo espaço para recuperação dos ativos caso o ambiente macroeconômico evolua de forma apenas “menos ruim” do que o esperado.

Para os estrategistas, a combinação de ativos descontados, melhora gradual do sentimento dos investidores e possível retomada dos fluxos estrangeiros cria uma das melhores assimetrias positivas da região atualmente — razão pela qual o Brasil segue ocupando o topo da lista de preferências do banco.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.