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SÃO PAULO – No próximo dia 1 de março, será comemorado o aniversário de 20 anos do curso obrigatório da URV (Unidade Real de Valor), instituída através de Medida Provisória de número 434 no dia 27 de fevereiro. Com isso, deu-se mais um passo para a instituição de uma nova moeda, que ficou marcada pela redução da inflação e levou a menor deterioração do poder de compra da população brasileira.
A URV foi lançada no período de transição entre o Cruzeiro Real e o Real e garantia uma estabilidade dos valores dos bens, servindo como uma referência dos preços estabelecidos, mesmo com uma variação diária.
A economia brasileira viveu durante anos sob alta inflação: apenas nos primeiros sete meses de 1994, ela já superava a casa dos 750%. E o contexto inflacionário da época possuía uma característica peculiar, uma vez que a moeda de conta utilizada oficialmente – sendo a última antes da implantação do plano o cruzeiro real – acabava sendo deixada de lado para a realização de contratos, uma vez que a alta volatilidade da inflação e a forte dispersão dos preços relativos levaria a um valor futuro bastante incerto.Além disso, existiam operações com cláusulas específicas de indexação e correção. Porém, apesar da indexação ocorrer, as remunerações reais oscilavam.
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Em meia a tantas incertezas e falta de referências, a URV buscava “diarizar” a economia, reorganizando as demandas e deixando a economia preparada para sofrer uma reforma estabilizadora. Isso porque o cálculo de perdas passadas é suprimido. Diariamente, o Banco Central anunciava o valor da URV, que era divulgado pelos jornais e na televisão.
No primeiro dia em que entrou em vigor, a URV equivalia 647,50 cruzeiros reais. No dia seguinte, o valor passou para 657,50 e a correção mudava diariamente enquanto os preços das mercados e serviços eram fixados em URV. Na equiparação das moedas, em julho de 1994, o valor era 2.750 cruzeiros reais. No dia 1º de julho, a moeda foi equiparada, e os 2.750 cruzeiros reais passaram a valer R$ 1. Dentro do período em que a inflação foi calculada sobre a URV nos meses de vigência da “moeda virtual”, ela ficou em 3% enquanto que, em cruzeiros reais, foi de 190%.
A moeda URV era escritural, ou seja, não existia fisicamente, e sim apenas nos balanços das empresas e documentos durante o seu período de implantação, mas valia para todas as transações econômicas com a conversão obrigatória de valores, promovendo uma desindexação geral da economia.
Um dos méritos do plano foi promover uma transição suave, sem congelamentos de preços e confiscos como os instituídos em planos anteriores, traçando paralelos com as medidas tomadas para conter a inflação na Alemanha de 1923. Assim, se antes da implantação do plano a inflação acumulada até julho superou os três dígitos, a primeira inflação com a nova moeda, o real, foi de 6,08%.
Assim, a URV foi um importante passo para a implantação do Plano Real, sendo a segunda de três etapas para combater a hiperinflação, ajudando preservar o poder de compra dos salários e evitar medidas de choque como confisco de poupança e quebra de contratos. As outras etapas passavam ainda por um maior equilíbrio das contas públicas, menores despesas e maiores receitas, enquanto o terceiro e último passo foi a efetivação do real como moeda nacional.
Os dividendos políticos também foram alcançados através do programa. O ministro da fazenda do governo Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, venceu as eleições presidenciais de 1994 e foi reeleito no outro pleito. E, em meio a turbulências globais, as políticas econômicas foram revistas, modificadas e existiram algumas alterações: porém, a estabilidade relativa da moeda permaneceu, comparado com as décadas de hiperinflação.