Primeiras leituras

Lula recua e defende de novo o ajuste fiscal; Dilma também reage

Diante da crise, o ex-presidente abandonou as críticas à política econômica e à presidente e instou o PT a reagir às histórias do Lava-Jato e partir para o “enfrentamento” político com a oposição. A presidente também quebrou o silêncio sobre o assunto nos EUA

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A passagem de Lula ontem por Brasília, com a presidente Dilma Rousseff ausente, em viagem aos Estados Unidos, que era vista com alguma apreensão nos meios governistas e mesmo entre os petistas, por causa das mais recentes críticas do ex-presidente ao partido do qual é presidente de honra e à política econômica, acabou sendo positiva para o governo: Lula deixou os ataques de lado e pediu para o PT virar a página, esquecer o discurso contra o ajuste fiscal e defender o governo.

Não é difícil entender a “guinada” de Lula, de crítico quase radical a defensor quase inconteste, mesmo diante de suas insatisfações e de parte dos petistas com os rumos do governo e as ações de Dilma: as novas revelações sobre a Operação Lava-Jato, com a divulgação de trechos da delação premiada do presidente da UTC e da Constran, Ricardo Pessoa, aproximaram perigosamente o escândalo do Palácio do Planalto, da campanha de Dilma, um pouco mais dele Lula e jogam ainda mais problemas nas costas do PT.

A situação ficou de fato delicada para todos. A análise do quadro político no fim de semana – há informações de uma pesquisa informal via telefone – mostrou ao próprio governo e ao PT o tamanho dos riscos que estavam correndo. A opinião pública tende a considerar fato tudo que está saindo das investigações da Polícia Federal e do Ministério Público do Paraná. Daí, inclusive, a interpretação de alguns analistas de que a tentativa de desqualificar o processo não deve funcionar.

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Por isso, está explicado, Lula, em uma reunião com os parlamentares federais petistas com duração de mais de quatro horas, ter instado o partido a reagir, sair da acomodação, partir para o “enfrentamento” político da questão, atacar a oposição. Responder à oposição com radicalismo. As informações sobre o que foi dito são ainda precárias, não se sabe se Lula apresentou alguma estratégia para a defesa que quer que o PT faça do governo e sobre como fazer esse “enfrentamento” – mas a ordem é não ficar quieto, não ficar na defensiva.

Uma campanha de marketing?

 De toda forma, alguma campanha marketing deve estar vindo por aí, pois o presidente encontrou-se também com o marqueteiro João Santana, que andava sumido do mundo político de Brasília, envolvido em campanha eleitoral na Argentina.

Lula permanece em Brasília e hoje tem encontros com os insatisfeitos peemedebistas, entre eles o presidente do Senado, Renan Calheiros. Lula pode estar assumindo informalmente a coordenação política de Dilma, reagrupando a tropa governista. Michel Temer tem feito um trabalho considerado bom, porém não penetra no coração petista.

Segundo alguns analistas, o ex-presidente pode estar procurando ficar novamente mais próximo da presidente. Lula poupou Dilma ontem, mas é sabido que Lula tem feito críticas à apatia da presidente e à falta de ações positivas e proativas do governo. Pode estar pensando em influir mais diretamente. Há no petismo grupos que acham que ele deve assumir essa posição.

Dilma também resolveu reagir pessoalmente às revelações de Ricardo Pessoa envolvendo sua campanha eleitoral. Em Brasília ela havia deixado a questão para os ministros Aloizio Mercadante, Edinho Silva e José Eduardo Cardozo. Passou dois dias nos Estados Unidos evitando ser abordada pela imprensa sobre o assunto. É praxe da presidente não falar de assuntos externos quando está no exterior.

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Ontem, porém, em razão do desenrolar dos acontecimentos, Dilma atacou dizendo que não aceita nenhuma insinuação sobre a lisura dos financiamentos à sua campanha e, numa frase de efeito, dizendo que não respeita delatores e comparando Ricardo Pessoa a Joaquim Silvério dos Reis. Como Lula, a presidente parece querer passar à ofensiva – cobrou inclusive porque não se fala a mesma coisa das doações para Aécio Neves.

ATENÇÃO 1– A Câmara começará a votar hoje o projeto que reduz a maioridade penal no Brasil de 18 anos para 16 anos. É uma questão que divide os partidos e a sociedade, o que torna quase impossível prever o que acontecerá no Legislativo com essa votação. O governo é contra, parte da oposição também. Teme-se agitação hoje no prédio do Congresso.

ATENÇÃO 2 – Há grande expectativa sobre se a Grécia pagará hoje quatro parcelas de sua dívida com o Fundo Monetário Internacional com vencimento nesta terça-feira. A chamada “troica” recusou-se a adiar o prazo. A decisão do governo grego parece definitiva: não pagará em entrará em default. Novo dia de agitação no mercado.

ATENÇÃO 3 – O presidente do Senado poderá colocar em votação nesta terça-feira a proposta do senador José Serra (PSDB) estabelecendo limites para a participação obrigatória de 30% da Petrobrás nos projetos do pré-sal e prevendo o fim da obrigatoriedade da estatal ser a operadora única dos campos. O governo é radicalmente contra as mudanças, embora elas já tenham sido defendidas até pela Agência Nacional de Petróleo. 

Outras notícias dos

jornais do dia

– PETROBRAS INVESTIRÁ MENOS US$ 90 BI ATÉ 2019 – A Petrobras reduzirá seus investimentos em 37% até 2019. O plano de negócios foi encolhido em US$ 90 bilhões, para US$ 130,3 bilhões, o menor dos últimos sete anos. O objetivo é diminuir a dívida da companhia. A estatal cortou suas metas de produção de petróleo, mas pretende elevar a capacidade de refino. O novo plano de negócios para o período de 2015 a 2019 prevê o menor nível de investimentos da estatal desde 2008. Para reduzir o endividamento, a estatal buscou um “plano realista”, de acordo com Aldemir Bendine, presidente da estatal. Por isso, a companhia decidiu postergar a construção de oito plataformas, resultando numa queda de 33,3% em sua meta de produção no país para 2020: passou de 4,2 milhões para 2,8 milhões de barris diários de petróleo e gás. Não dá para medir o baque dessa decisão sobre a economia nacional, mas os analistas dizem que será significativo, ainda mais porque as operações da empresa estão prejudicadas pelas investigações da Operação Lava-Jato. A empresa prevê venda de US$ 57 bilhões em ativos. O plano foi considerado mais realista pelos analistas. 
– CONFIANÇA DO COMÉRCIO CAI – O índice de confiança do comércio recuou 1,4% entre maio e junho, segundo a pesquisa da FGV. Com isso, atingiu o menor nível da série histórica, iniciada em março de 2010, após ficar praticamente estável entre março e maio. Essa queda resultou tanto do comportamento das expectativas como a da situação atuação, cujos índices recuaram 1,0% e 2,4%, respectivamente. A sondagem reforça nossa expectativa de contração de 1,2% do PIB neste trimestre (Análise do Departamento Econômico do Bradesco).
– INFLAÇÃO DO ALUGUEL SOBE – O IGP-M avançou 0,67% em junho, ficando ligeiramente acima da mediana das projeções do mercado, de 0,65%. O índice voltou a acelerar em relação a maio, quando a elevação chegou a 0,41%. Esse movimento é reflexo dos preços agrícolas, que registraram deflação menor neste mês do que em maio, assim como apontado pela coleta diária. Com isso, o índice ficou negativo em 0,23%, ante deflação de 1,51% no mês anterior. O IPA industrial, por sua vez, avançou 0,66%, mostrando descompressão frente à alta de 1,01% exibida em maio. Os preços industriais se mantiveram pressionados como reflexo do repasse da depreciação da taxa de câmbio. Vale destacar a aceleração dos preços ao consumidor, que passaram de uma alta de 0,68% para outra de 0,83% entre maio e junho, e dos preços na construção civil, com o INCC saindo de uma alta de 0,45% para 1,87% no mesmo período, sendo este último pressionado por reajustes na mão de obra. 
 
E MAIS:

– “Brasil terá meta de desmatamento zero” (Globo/Estadão/Folha)

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– [Lava-Jato:] STF autoriza prorrogação das investigações [contra políticos]” (Estadão)

 

– “Governo tenta opção a projeto que muda partilha do pré-sal” (Estadão)

 

– “Indústrias de SP e MG pedem direito à energia barata concedida ao Nordeste” (Estadão)

 

– “Setor calçadista reduz investimentos e perde 200 empresas em um ano” (Valor)

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– “Combustíveis vão seguir preços internacionais” (Valor)

 

– “Diferença de vendas das montadoras no primeiro semestre de 2015 para 2015 chegou a menos 335 mil carros” (Valor)

 

– “Não há risco de virada de 180 graus na política monetária [diz diretor do BC]” (Valor)

 

LEITURAS SUGERIDAS

 

  1. Editorial – “O PT e suas falácias” (comenta a nova estratégia petista e diz que o princípio de que a defesa é o melhor ataque se torna mais falacioso à medida que a pressão cresce) – Estadão
  2. Paulo Sotero – “Visita é chance do Brasil ser proativo na área ambiental, avaliam EUA” (comenta o acordo sobre clima que Dilma e Barack Obama devem assinar) – Estadão
  3. Delfim Netto – “O futuro está mais opaco” (comenta a crise mundial, diz que podemos estar mais perto de uma “estagnação secular” e diz que com as atitudes do Congresso o Brasil parece querer flertar com ela) – Valor