Livro diz por que o mito de Buffett é um dos “grandes equívocos do mercado”

Conforme aponta o livro de Cullen Roche, Buffett não é só um investidor de ações: ele atua em diversas frentes

Publicidade

SÃO PAULO – Um dos maiores investidores do mundo – e um dos mais glorificados – é também alvo de um dos maiores mitos sobre o mercado financeiro. Pelo menos é o que aponta o livro de Cullen Roche, “Pragmatic Capitalism: What Every Investor Needs to Know About Money and Finance”, (tradução livre: Capitalismo pragmático: o que cada investidor precisa saber sobre dinheiro e finanças), destacado pelo site Business Insider.

Segundo Roche, poucos mitos no mundo das finanças são mais perniciosos do que os que cercam a carreira de Warren Buffett. Isso porque, aponta o escritor, acredita-se que ele se tornou um dos homens mais ricos do mundo por seus investimentos em ações. “Warren Buffett é também extremamente mal interpretado pelo público em geral. Eu pessoalmente acredito que o mito de Warren Buffett é um dos maiores equívocos no mundo financeiro”, afirma.

O escritor diz que, para a maioria das pessoas, Buffett é um folclore, com talento especial para escolher ações. Ele trabalha duro para encontrar “ações de valor”, o que leva a população a persistir com os mitos que você pode comprar os papéis de empresas que você conhece e que verá o seu dinheiro se multiplicar. “Bem, nada poderia estar mais longe da verdade e aqui estamos nós com toda uma geração que acredita que as abordagens simplistas de valor de investimento de ‘buy and hold’ [comprar e manter, principal fundamento da teoria de Buffett] são as melhores maneiras de acumular riqueza no mercado”, explica.

Ao contrário do “mito popular”, Warren Buffett é um empresário extremamente sofisticado e, por isso, é necessário mergulhar fundo na história do megainvestidor para entender o caminho do seu sucesso, completa Roche.

Teoria da conspiração… das corretoras?
Em grande medida, o mito de Buffett tem alimentado um boom do mercado de ações com uma geração de americanos procurando aumentar suas riquezas no campo da renda variável. E quem melhor para vender esta ideia do que as assessorias de investimentos, questiona o escritor. Para ele,
após o público ter acesso a este tipo de investimento de forma simplificada, cria-se a falsa percepção de que a gestão de portfólio é tão fácil que um homem das cavernas pode fazê-lo, o que pode ser feito no seu tempo livre.

“Um exército de americanos derramam dinheiro e taxas para as corretoras que tentam replicar algo que não pode ser replicado. As empresas financeiras querem nos fazer crer o mito de Warren Buffett. Na verdade, muitos de seus modelos de negócios dependem de nossa crença no mito de Warren Buffett”, afirma.

Continua depois da publicidade

Buffett, o empreendedor…
Roche afirma que tem o maior respeito por Buffett e que, quando mais jovem, imprimiu cada uma de suas cartas anuais e as leu de trás para frente. Roche tenta mostrar que o “Oráculo de Omaha” é muito mais do que o folclórico selecionador de ações retratado pela mídia. “O que ele construiu é muito mais complexo do que isso”, diz o autor, que quando jovem confessa que imprimiu e leu cada uma das cartas anuais do megainvestidor. Ele ressalta ainda que Buffett formou um dos “hedge funds” (fundos com estratégia de investimentos arriscadas) mais originais em 1956, a Buffett Partnership, sendo mais empreendedor do que uma pessoa que investe em ações.

“Como a maioria das outras pessoas na lista das pessoas mais ricas da Forbes, Buffett enriqueceu através da criação de sua própria empresa. Ele não acumula a sua riqueza em qualquer coisa que se assemelha o que a maioria de nós, abrindo contas de corretagem e alocar as nossas economias em vários ativos. Não se engane: Buffett é um empreendedor, gestor de hedge funds e empresário altamente sofisticado”, ressalta Roche. Um dos exemplos foi a compra de participação de uma das companhias em que investiu ao longo de sua vida, em que ajudou também a gerir.

… ou Buffett, o empresário?
Roche também destaca o instinto de muitos líderes empresariais de sucesso que Buffett possui. “Basta olhar para o acordo que ele teve com o Goldman Sachs e com a GE em 2008. Ele praticamente pisou em suas gargantas quando precisavam levantar capital nas profundezas da crise financeira, exigiu um acordo mandado de cinco anos, e lucrou”, afirma. 

Para o escritor, Warren Buffett é um grande americano e um grande líder empresarial, mas os investidores comuns devem fazer o seu dever de casa antes de “comprar o mito” de que um dia estes irão se tornar a “pessoa mais rica do mundo”, empregando uma estratégia que, nem de perto é o que a Berkshire e Buffett realmente fazem.

Roche ressalta que o Oráculo muitas vezes se alavancou e se envolveu em seus ativos empresariais. Ele também apontou para apostas complexas – de curto e longo prazo – no mercado de derivativos, mercados de opções e mercados de títulos.

Buffett afirmou ainda que a carteira de ações que se tornou famosa equivale a apenas cerca de 28% do valor da empresa da Berkshire partir de 2013. Suas participações mais famosas – Coca-Cola, American Express e Moody’s Corporation – respondem por cerca de 8% da capitalização total de mercado.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.