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SÃO PAULO – “Tudo está bem até o momento em que deixa de estar” é a frase que os gestores da Legg Mason usam para definir outubro nos mercados. “As bolsas devolveram em três dias toda a alta acumulada do mês”, apontam. Em novembro, a principal questão continua sendo a força da recuperação dos EUA – que, com isso, também traz a tona a questão cambial, foco do mês.
Segundo os gestores, o retorno da economia norte-americana ao campo positivo foi resultado dos incentivos fiscais e políticas de expansão monetária patrocinada pelo Fed. Prova disso é que a indústria automobilística (impulsionada pelo programa “cash for clunkers”) foi responsável por mais de 1% do crescimento de 3,5% no trimestre. O enfraquecimento do dólar, que ajuda a impulsionar as exportações, também teve papel significativo no avanço da economia dos EUA no período.
Como nenhum desses fatores deve continuar para sempre – afinal, a desvalorização do dólar não deve se sustentar por muito tempo, e os programas de incentivo devem ser encerrados em algum momento – não é possível, ainda, acreditar em uma recuperação consistente dos EUA, afirmam os gestores. Assim, novembro carrega o mesmo cenário-base – uma recuperação gradual e lenta da atividade econômica global, “mesmo com alguns pontos fora da curva, como é o caso da China e, por que não dizer, do Brasil”.
A questão cambial
O real, algumas moedas emergentes e as divisas das economias centrais (iene e euro) têm mantido uma trajetória de valorização significativa frente ao dólar norte-americano em 2009. Isso se deve ao ajuste da maior economia do mundo ao seu desequilíbrio externo, que diminuiu as importações do país, e também ao câmbio da China – que é atrelado ao dólar, de forma que uma parte desse ajuste que deveria ser feito pelo maior exportador para os EUA é compensado pelo resto do mundo.
Entretanto, os gestores colocam uma pergunta importante: é preciso fazer algo para reverter esse movimento? Segundo eles, não. “Como tudo em economia, há ganhadores e perdedores. Os setores perdedores vocalizam com muito mais estridência a sua insatisfação: são os exportadores. Já os ganhadores são muitos, mas esparsos: vão desde os importadores de bugigangas chinesas até a classe média que pode viajar duas vezes ao ano para os EUA ou Europa”.
O principal medo do governo – de que o capital entrando no País seja especulativo -, que tem gerado medidas como cobrança do IOF sobre investimentos estrangeiros na bolsa e em renda fixa e sobre emissões de DRs (depositary receipts) – parece não ter fundamento. “Até setembro, o investimento estrangeiro direto (IED) totalizava US$ 17,7 bilhões, enquanto o investimento em portfólio somava US$ 22,7 bilhões. Desses, 76% eram em ações e o restante em renda fixa, que seria o mais próximo de um investimento entendido como ‘especulativo’. Ou seja, somando-se IED e investimento em portfólio, apenas 13% do total foi em renda fixa”, afirmam.
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Há ainda a possibilidade de que este seja um dinheiro “oportunista”, tentando aproveitar-se das altas taxas de juros. Qual seria a solução para impedir essa movimentação? “Nenhuma”, diz a Legg Mason. “Estamos diante de um fenômeno muito maior que a economia brasileira, que é o ajuste da economia norte-americana. Seria como tentar conter um tsunâmi com sacos de areia na praia”, explicam. A única maneira seria sair do sistema de câmbio flutuante – escolha que se provou sem sucesso no final dos anos 1990.
O temor da desindustrialização brasileira em decorrência da valorização do real também não deve se concretizar, já que historicamente (entre 2003 e 2008), mesmo com uma apreciação substancial do real, a indústria não foi afetada.
Assim, os gestores concluem que o que pode ser feito já está sendo feito. “É uma espécie de ‘flutuação suja’, em que o BC procura agir pontualmente para evitar exageros, mas sem querer mudar o rumo da tendência”, apontam.
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Estratégias
Depois de estabelecer o cenário para o mês, os gestores apontam suas principais estratégias de investimento.
Em renda variável, a Legg Mason afirma que os setores de comércio varejista, construção civil, serviços, tecnologia, transportes e autopeças devem se manter acima do benchmark, já que mesmo com a recuperação, algumas empresas continuam sendo negociadas abaixo de seus preços justos.
Os setores de commodities, por sua vez, devem se manter um pouco abaixo do benchmark – visto que a recuperação da alta dos preços não deve se sustentar, já que a recuperação parece ser mais lenta do que o esperado. “A exceção é o setor de mineração – a ação da Vale pode se beneficiar com o volume de importações de minério de ferro por parte da China e com a recuperação do preço do níquel no mercado internacional”, apontam.
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Passando para renda fixa, os gestores afirmam que a posição de janeiro de 2012 permanece atrativa, e ainda há espaço para apreciação do real. Quanto às posições direcionais em bolsa, a Legg Mason aponta que posições compradas devem ser mantidas com cautela, e posições vendidas podem ser feitas nos exageros do mercado.