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SÃO PAULO – As últimas semanas do ano de 2010 parecem ter deixado o mercado numa constante reflexão acerca do futuro econômico para o próximo ano. Tanto no cenário interno como no externo, a preocupação em torno da atividade econômica segue em foco, mas com diretrizes distintas. Diante das mudanças ocorridas ao longo do ano, o consultor da LCA e professor de economia da USP (Universidade de São Paulo), Carlos Eduardo Gonçalves, apresentou suas previsões para 2011.
“Dado que não raramente os economistas acadêmicos erram feio nas suas previsões, faço meu hedge já no título desta última edição do Debates de 2010, substituindo previsões por um termo mais apropriado”. Gonçalves faz referência, neste trecho, ao título do artigo: Palpites para 2011.
Destaques macro
A preocupação do mercado para o cenário doméstico está no fantasma da inflação, que voltou a dar seus sinais, aumentando a cautela do governo em relação à necessidade de um controle mais efetivo.
O câmbio foi uma variável que também chamou a atenção ao longo dos meses, verificando-se uma forte valorização da moeda nacional.
Por outro lado, no cenário internacional, a preocupação ainda está debruçada sobre a capacidade de recuperação da economia norte-americana, além da situação fiscal de alguns países periféricos na Zona do Euro, que enfrentaram graves problemas relacionados à dívida soberana.
Economia Internacional
A visão é otimista para Estados Unidos e China. Nos EUA os juros de longo prazo têm se elevado, em resposta à boa perspectiva para o crescimento da economia do país. Assim, a projeção é de um aumento no PIB (Produto Interno Bruto) de 2,5 pontos percentuais, que poderia ser maior e chegar a 3%, não fosse a taxa de desemprego persistentemente alta no país.
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Na Europa os juros mais longos também seguem em alta, porém a razão para esse aumento é distinta. O principal responsável por essa elevação, na visão do economista, é o risco fiscal, decorrente das dívidas soberanas de muitos países e da dificuldade de muitos em apresentar crescimento satisfatório para superar a crise, com mercados ainda muito voláteis. Dada a rigidez estrutural das economias europeias e a impossibilidade de aplicação das políticas monetárias tradicionais, o crescimento econômico deve ser limitado nesses países.
Ainda em relação à economia internacional, as perspectivas para a China são positivas – o que, segundo o professor da USP, favorece o Brasil -, com previsão de 9,5% de crescimento para 2011, apoiada nos dados de curto prazo e na lógica macroeconômica do país. Além disso, as condições para um crescimento robusto no médio e longo prazo seguem presentes, como o baixo estoque de capital, o crescimento da produtividade, a migração, os investimentos em capital humano e a melhora na qualidade dos empréstimos dos bancos públicos.
Futuro da Selic no Brasil
As preocupações com o Brasil são outras. Segundo Gonçalves, a manutenção da Selic em 2011 é algo pouco provável de ocorrer. Dado o cenário de pressão inflacionária que voltou a preocupar a autoridade monetária e outros fatores, como a taxa de desemprego e o hiato do produto, uma elevação da taxa básica de juros parece inevitável.
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Porém, de acordo com o economista, o ajuste deve ser modesto, com elevação de 100 pontos-base no primeiro trimestre de 2011. Isso porque, na visão dele, a política monetária que vem sendo adotada tem se mostrado eficaz, além de fatores como juro neutro perto dos 5%, mudança nos compulsórios e reversão, ao menos parcial, de choques de oferta.
Real segue valorizado
Ainda segundo o consultor da LCA, o real deve seguir valorizado, contrariando o consenso do mercado. Segundo ele, as medidas de intervenção do governo não são muito eficazes para reverter o quadro, além do fato de que há evidências empíricas que negam o argumento de que déficits em conta corrente crescentes levam, necessariamente, a uma depreciação da moeda.
“Prevejo manutenção da mudança de preços relativos que ocorreu no mundo por um par de anos ao menos, ou seja, commodities caras relativamente a bens industriais (basicamente efeito-China). Conjugue-se a isso um diferencial de juro que tardará muito a se fechar significativamente e uma onda de otimismo – em grande medida justificável, a meu ver – em relação ao Brasil, e não posso concordar com as teses de que o Real perderá valor em 2011” , concluiu.