Justiça manda governo incluir subsidiária da JBS na “lista suja” do trabalho escravo

Caso tem origem em uma operação federal realizada no ano passado que encontrou 10 pessoas trabalhando em condições análogas à escravidão

Reuters

Funcionários da JBS na cidade de Lapa, no Paraná
21/03/2017
REUTERS/Ueslei Marcelino
Funcionários da JBS na cidade de Lapa, no Paraná 21/03/2017 REUTERS/Ueslei Marcelino

Publicidade

(Reuters) – Uma juíza federal do trabalho ordenou que o governo federal inclua uma unidade de aves da JBS na chamada ‘lista suja’ de empregadores responsáveis por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão, de acordo com uma decisão judicial vista pela Reuters.

O caso tem origem em uma operação federal realizada no ano passado que encontrou 10 pessoas trabalhando em condições análogas à escravidão para uma empresa terceirizada contratada pela JBS Aves para carregar e descarregar cargas para uma unidade no Rio Grande do Sul.

Os auditores descobriram que os trabalhadores da unidade eram submetidos a turnos ilegalmente longos de até 16 horas e alojados sem acesso a água potável, de acordo com um relatório visto pela Reuters. A empresa terceirizada também havia feito deduções ilegais dos salários dos trabalhadores, tornando mais difícil para eles pedirem demissão, segundo os auditores.

No Brasil, a escravidão é definida como trabalho forçado, mas também abrange a servidão por dívida, condições degradantes de trabalho e longas jornadas ilegais que representam um risco à saúde.

A decisão foi tomada no âmbito de um processo movido por procuradores do trabalho contra o governo, e ocorre depois que o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, havia inicialmente impedido que a JBS fosse adicionada à ‘lista suja’ ao realizar uma revisão final incomum da investigação que levou às acusações.

Especialistas em trabalho consideram a lista uma arma importante na luta de décadas do Brasil contra a escravidão moderna, e disseram que a interferência de Marinho poderia enfraquecê-la, abrindo um precedente para que outras empresas solicitem ao ministro que intervenha em seus casos.

Continua depois da publicidade

O Ministério do Trabalho recorrerá da decisão judicial assim que for formalmente notificado, disse a pasta em comunicado.

A JBS suspendeu a empresa terceirizada, rescindiu o contrato e bloqueou a companhia ao tomar conhecimento das alegações, disse a empresa à Reuters nesta quarta-feira.

Quando uma empresa é incluída na ‘lista suja’ ela permanece nela por dois anos. Além dos riscos de reputação associados à inclusão, as empresas também são impedidas de obter certos tipos de empréstimos de bancos brasileiros, o que poderia significar sérias consequências financeiras.

Em sua decisão, com data de terça-feira, a juíza do trabalho Katarina Roberta Mousinho de Matos determinou que a decisão de Marinho era incompatível com a Constituição e não se baseava em considerações legais, mas sim nas repercussões econômicas que a inclusão da empresa na lista poderia ter. Ela também ordenou que o governo adicionasse à lista duas empresas menores que Marinho havia retirado anteriormente usando o mesmo expediente.

A JBS é uma das maiores empregadoras do Brasil, com cerca de 158.000 trabalhadores no país, de acordo com a empresa. Sua divisão Seara, que administra a JBS Aves, registrou receita líquida de US$2,3 bilhões de julho a setembro, cerca de 10% do total da empresa.