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SÃO PAULO – A forte vulnerabilidade da economia brasileira vem sendo apontada como o principal obstáculo para o cumprimento da política de metas inflacionárias em 2002. Uma análise do comportamento do Copom, o Comitê de Política Econômica, revela o lento processo de deterioração das perspectivas econômicas do Brasil.
Fatores exógenos, ou seja, aqueles fora do alcance das autoridades brasileiras, foram sem dúvida alguns dos principais alimentadores da inflação em 2002. A desvalorização do real, em função da crise de confiança com as eleições e o aumento do preço da energia, principalmente com o recrudescimento das tensões no Oriente Médio, são os principais fatores de 2002, deixando o Banco Central sem grande espaço para atuação.
Eficiência do uso das taxas de juros é posta em dúvida
A validade do uso da taxa de juros básica da economia, a Selic, como instrumento para o controle de inflação pode ser colocado em dúvida se questionado os resultados obtidos em 2002 pela política monetária brasileira. A baixa eficiência do uso da Selic como contraponto às pressões inflacionárias advindas da taxa de câmbio e dos custos de energia, preços controlados pelos nuances do setor externo, ficou patente neste ano.
Os efeitos positivos de uma queda dos juros na atividade econômica, bem como nas perspectivas da economia brasileira, com o barateamento do serviço da dívida pública poderiam ter mais do que compensado as eventuais perdas com a redução da Selic.
Além disto, a melhoria das expectativas traria uma menor pressão sobre o câmbio, traduzindo-se também em índices de inflação mais tímidos.
No entanto, a lentidão do Banco Central em reduzir os juros, sem conseguir neutralizar a subida dos preços, abriu espaço para o aparecimento de dúvidas em relação à capacidade do governo brasileiro honrar o pagamento da dívida. Isto acabou diminuindo a confiança do mercado no Brasil, o que, em ano de eleições presidenciais, teve expressivo reflexos sobre o câmbio, definindo a forte depreciação do Real.
Confira a evolução das perspectivas do Copom quanto ao desempenho da inflação no biênio 2002 e 2003.
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| Ata | Meta Selic | Meta Inflação | |
| 2002 | 2003 | ||
| Jan | 19,00% | 4% | 3,25% |
| Fev | 19,00% | 4% | 3,25% |
| Mar | 18,75% | 4,5% | 3,0% |
| Abr | 18,5% | 4,5% | 3,25% |
| Mai | 18,5% | 5,0% | 3,25% |
| Jun | 18,5% | 5,5% | abaixo meta |
| Jul | 18,5% | 5,5% | abaixo meta |
| Ago | 18,0% | 6,0% | 4,0% |
| Set | 18,0% | bem acima | acima meta |
Fonte: Banco Central
Energia e preços administrados são os principais vilões
Uma das principais críticas ao excesso de conservadorismo do Banco Central Brasileiro é a ineficiência da manutenção da Selic em patamares elevados, em torno de 18% ao ano nominais, quando os principais fatores de pressão na inflação possuem certa independência em relação ao nível de atividade interna do país.
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As previsões observadas pelo Copom durante suas reuniões mensais revelam a preocupação do colegiado com o comportamento dos preços de energia. A previsão de aumento anual do gás de cozinha era em março de 20%, girando em torno dos 20% até subir para 42% em julho do ano corrente, recuando para 25% na última reunião do Copom. A própria estimativa de aumento anual dos custos da energia elétrica, importante insumo para toda a economia, oscilou de 12,3% em julho passado para 20,1% em agosto.
Por outro lado, os preços administrados, exatamente os que necessitam da chancela governamental para oscilar, sofreram um aumento persistente ao longo do ano. Em setembro, durante a última reunião do colegiado, a projeção do crescimento dos preços administrados em 2002 chegou a 9,3%, contra 8,1% em junho, 7,2% em abril, 6,8% em março e 5,4% em janeiro.
Pressões impediram trajetória de queda prevista
O aparecimento de pressões inflacionárias, principalmente via câmbio e preços administrados, acabou colocando em cheque a manutenção de uma trajetória de queda da inflação ao longo de 2002.
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A política de metas inflacionárias foi concebida após a desvalorização do real em 1998 para reduzir suavemente a taxa de inflação na economia para níveis muito baixos, a partir do final do governo FHC, concomitantemente como a diminuição da taxa de juros, que de fato chegaram a ceder para 15,25% ao ano, em fevereiro do ano passado.
Crise de confiança é obstáculo para cumprimento de meta
No entanto, o surgimento de complicações do cenário externo, como a crise argentina, os atentados de 11 de setembro e também o recrudescimento das tensões no Oriente Médio, impediram o sucesso por completo da política de metas de inflação, já que se traduziram em fortes pressões no câmbio.
Além disto, a crise de confiança que abala a economia mundial, em especial o Brasil em decorrência das eleições presidenciais, teve conseqüências negativas sobre a dinâmica de preços no Brasil, definindo por vez o insucesso em manter a inflação brasileira em trajetória em queda em 2002.
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Núcleo do IPCA está estabilizado
Contudo, apesar das pressões levando ao aumento do IPCA ao longo de 2002, o comportamento do núcleo do IPCA encontra-se estabilizado em torno de meio por cento ao mês. Desta forma, no acumulado de doze meses, o núcleo da inflação brasileira está oscilando em 7%.
Confira abaixo os dados do IPCA, desde janeiro de 2002:
| Mês | IPCA | Núcleo IPCA | Acumulado 12 meses núcleo |
| Jan | 0,52% | 0,52% | 7,58% |
| Fev | 0,36% | 0,54% | 7,58% |
| Mar | 0,60% | 0,58% | 7,58% |
| Abr | 0,80% | 0,56% | 7,68% |
| Mai | 0,21% | 0,51% | 7,58% |
| Jun | 0,42% | 0,40% | 7,23% |
| Jul | 1,19% | 0,51% | 7,08% |
| Ago | 0,65% | 0,65% | 7,17% |
Fonte: Banco Central
Gargalo externo impede redução das taxas
A grande razão para a manutenção da Selic em patamares elevados, a despeito de sua ação limitada para controlar as atuais pressões inflacionárias, reside no gargalo que as contas externas brasileiras representam para o crescimento econômico do país.
A alta quantia de dólares necessária para fechar as contas externas amplia a necessidade de manter a taxa de juros alta, a fim de atrair capitais para o Brasil. Contudo, mais do que isto, a incapacidade brasileira em promover crescimento econômico simultaneamente a um aumento da capacidade importadora, ou seja, de intensificar as exportações, acaba impedindo uma retomada do desenvolvimento econômico sem desequilíbrios na economia.
O próprio processo de ajuste em andamento das contas externas é baseado justamente na queda das importações e não no aumento da capacidade exportadora. Dados que já incluem o mês de setembro indicam que, apesar da reação das exportações brasileiras, a corrente de comércio brasileira já encolheu neste ano 10,06%. As vendas externas caíram 2,6% enquanto as importações caíram 17,7%. Desta forma, a economia brasileira precisa ficar permanentemente desaquecida em virtude da rapidez com que as contas externas se fragilizam, justificando os altos juros no Brasil.