Frigorífico em queda

JBS ganha novo problema com investigação nos EUA, mas analistas seguem otimistas com ação

Nos últimos dias, ela teve que passar por decisões da Justiça e pedidos do MPT sobre interdição de unidades; expectativa é de volatilidade no curto prazo

JBS
(Shutterstock)

SÃO PAULO – Em uma semana bastante positiva para o Ibovespa em meio aos sinais de reabertura econômica em alguns países desenvolvidos e com dados econômicos melhores do que o esperado, as poucas quedas do índice são de ações que tiveram alta recente ou que apresentaram maior resiliência durante o pico dos temores do mercado com o coronavírus, caso de varejistas de e-commerce e frigoríficos.

Contudo, no caso do setor de proteínas, uma série de notícias negativas também vem pesando contra o segmento de proteínas, como pedidos de interdição de operações por conta do coronavírus e acusações de cartel nos EUA.

No acumulado da semana até a tarde desta sexta-feira, enquanto o Ibovespa subia cerca de 8,5%, JBS (JBSS3) teve queda de 4,64%, Minerva (BEEF3) tinha baixa de 2,84%,  enquanto BRF (BRFS3) tinha queda de 1,86% e Marfrig (MRFG3) viu seus papéis desvalorizarem 2,69%.

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Vale ressaltar que, só na última quarta-feira, as ações dos frigoríficos registraram queda significativa, com JBS (-5,5%) em baixa de mais de 5%, sendo seguidas de BRF (-3%) e Marfrig (-2%).

Os papéis foram pressionados pela apreciação do real frente ao dólar e, especificamente no caso de JBS, pela notícia que a Pilgrim’s Pride, subsidiária americana do grupo brasileiro, teria sido acusada de cartel nos EUA.

A sua subsidiária Pilgrim’s Pride viu suas ações caírem 12% na mesma data após seu CEO, Jayson Penn, ter sido indiciado pelo Departamento de Justiça americano, sob acusação de formação de cartel junto com um grupo de executivos da indústria de carne frango, conforme reportado pelo Wall Street Journal.

A empresa afirmou em comentário oficial que está cooperando com as autoridades nas investigações e é comprometida com altos padrões éticos, de governança e livre competição no mercado.

No dia seguinte, quem informou sobre o caso foi a Bloomberg, destacando que o Departamento de Justiça dos EUA está exigindo formalmente informações dos quatro maiores frigoríficos do país sobre possíveis violações antitruste. A investigação antitruste começou antes do surto de coronavírus, mas mais detalhes sobre a investigação ainda não foram divulgados.

O setor é altamente consolidado no país, destaca a agência. Quatro empresas – Tyson Foods Inc., JBS SA, Cargill Inc. e National Beef Inc. – controlam cerca de 80% do mercado de processamento de carne bovina dos EUA. A concentração cria preocupações sobre seu poder de precificação com produtores.

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A National Beef, que pertence à brasileira Marfrig Global Foods, confirmou o recebimento de uma demanda de investigação civil do Departamento de Justiça. “A solicitação era de escopo muito restrito, o que nos leva a acreditar que o Departamento de Justiça não necessariamente acredita que haja uma questão antitruste”, afirmou a empresa em nota por e-mail. Tyson, JBS e Cargill não responderam a pedidos de comentário feitos pela agência.

Conforme destaca o Morgan Stanley, não é a primeira vez que acontecem investigações desse tipo. Em 2016, a Maplevale Farms (empresa de serviços alimentícios de NY) alegou que a Tyson Foods, a PPC, a Sanderson Farms e outras empresas haviam conspirado para fixar preços mais altos (alterando a produtividade dos rebanhos reprodutores). Em janeiro de 2018, também houve ações semelhantes. Em maio de 2019, o Walmart processou vários fornecedores de frango por fixação de preços.

Contudo, o envolvimento do Departamento de Justiça poderia ser mais preocupante para os investidores. Em junho de 2019, o Departamento de Justiça dos EUA lançou uma investigação criminal contra processadores de aves dos EUA com a mesma alegação: conluio de preços.

Com relação ao impacto para a JBS, a equipe destaca gostar do momento operacional da companhia, mas aponta que o fluxo de notícias relacionadas à governança corporativa pode continuar afetando as ações.

“Estamos particularmente otimistas com as perspectivas de ganhos a curto prazo e esperamos uma temporada de lucros muito sólida no segundo trimestre pela frente. No entanto, a dinâmica dos lucros pode ser ofuscada pela narrativa de investimento por um tempo, já que as preocupações levantadas podem prejudicar o sentimento dos investidores”, avalia. Os analistas mantêm recomendação overweight (exposição acima da média do mercado) para os ativos, com preço-alvo de R$ 32.

Vale destacar que a investigação vem à tona no momento em que os EUA estão enfrentando uma crise no setor de proteínas após a pandemia do novo coronavírus adoecer milhares de trabalhadores em matadouros e obrigou as fábricas a fechar. A queda da produção criou gargalos que se espalham por toda a cadeia de suprimentos.

As interrupções levaram à escassez de carne e a preços mais altos. “Sem ter para onde enviar animais prontos para o mercado, os criadores de suínos devem sacrificar milhões de porcos, enquanto os criadores de gado retêm animais ou os enviam para pastagens”, destaca a Bloomberg.

E as paralisações não ocorrem somente nos EUA. O Brasil, que assumiu a triste segunda posição no número de casos do novo coronavírus e a terceira posição no número de mortes, também vê a sua produção ser afetada pela Covid-19.

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Nesta semana, o Ministério Público do Trabalho ajuizou ação civil pedindo a interdição da unidade de abate de frango da JBS em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. A unidade teve um surto de covid-19 confirmado  pela Secretaria Municipal da Saúde.

Em nota, a companhia informou que não comenta processos judiciais em andamento. “A companhia reitera que tem como objetivo prioritário a saúde de seus colaboradores e ressalta que desde o início dessa pandemia tem adotado um rígido protocolo de prevenção contra a Covid-19 na sua unidade de Caxias Sul (RS) e em todas as suas plantas no Brasil, conforme as orientações dos órgãos de saúde e do Hospital Albert Einstein, além de especialistas médicos contratados pela companhia para apoiar na implantação rigorosa de medidas para a proteção de seus colaboradores”, disse em nota.

Durante a pandemia, tem sido comum decisões da Justiça para interdição de unidades de frigoríficos por conta do coronavírus.

Segundo avaliação do Bradesco BBI, não se espera um impacto relevante para as operações no momento, mas que todos os frigoríficos adotem protocolos de saúde mais rigorosos, por conta da pandemia, o que pode afetar a taxa de abate.

“Dito isso, continuamos mais preocupados com os possíveis impactos de possíveis reduções forçadas na produção para negócios integrados (por exemplo, de frango) versus negócios não integrados (por exemplo, de carne bovina), já que os frigoríficos precisam pagar pelas estruturas dos pecuaristas integrados, mesmo em um cenário de abate reduzido”, avaliam os analistas do banco.

Mais polêmicas

Também nessa semana, a Justiça do Trabalho de Concórdia (SC) concedeu liminar determinando a reintegração imediata de 40 trabalhadores indígenas demitidos de um frigorífico da JBS em Seara, acatando um pedido do Ministério Público do Trabalho. O MPT alegou atitude discriminatória da empresa em relação aos funcionários incluídos no grupo de risco por uma portaria da Secretaria Estadual de Saúde.

Em nota, a JBS disse que as demissões foram pela descontinuidade, em razão da pandemia, da linha de ônibus que fazia o transporte deles até a unidade, percurso de cerca de 600 km, ida e volta. Ainda apontou que as demissões foram sem justa causa, com pagamento integral de todas as verbas indenizatórias.

Em recente entrevista ao Estadão, contudo, o presidente global da companhia, Gilberto Tomazoni, apontou que a empresa continuou a contratar mesmo depois do início da pandemia de coronavírus. “Não só assumimos o compromisso de não demitir, mas também já contratamos mais 3 mil pessoas (nos últimos meses)”.

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Sobre os protocolos em meio ao coronavírus, Tomazoni afirmou: “a pandemia fez com que nós aprendêssemos bastante, embora não tenhamos respostas para tudo. Começamos as reuniões da empresa com o (tema) segurança e saúde do trabalhador. Buscamos ajuda de especialistas na questão dos protocolos no Brasil e no exterior. Temos um comitê de gestão na crise, que se reúne três vezes por semana”.

Em relação às demandas por produtos do grupo, ele ainda ressaltou que o consumo mudou do food service (fornecimento para restaurantes) para o varejo. “Mas, é claro, que na soma a demanda ficou menor. Mas isso não muda os fundamentos do negócio. Até 2050, o mundo vai precisar de 70% a mais de proteína animal. Isso não vai mudar”.

Nem tudo é ruim…

Contudo, nem tudo é notícia negativa. Em nota o Bradesco BBI destacou que a Agência de Serviços Agrícolas dos EUA já aprovou mais de US $ 545 milhões em pagamentos a produtores que se inscreveram no Programa de Assistência Alimentar durante o Coronavírus. Por meio do programa, a agência está disponibilizando US$ 16 bilhões em assistência financeira a produtores de commodities agrícolas que sofreram com uma queda de 5% ou mais nos preços devido ao COVID-19, entre outros impactos.

Na avaliação dos analistas do banco, este programa pode ajudar a sustentar os preços da soja e do milho a um nível mais baixo em um prazo mais longo, pois pode ajudar os agricultores a manter a produção nos EUA. Isso seria negativo para a SLC (SLCE3), produtora brasileira de grãos.

Por outro lado, seria positivo para BRF, uma vez que os grãos representam cerca de 30% do custo dos produtos vendidos e para a JBS, com os grãos representando cerca de 12% do CPV.

Além disso, pode ajudar a manter os preços do gado em um nível mais baixo nos EUA, pois contribui para impedir que os fazendeiros diminuam o ritmo de reconstituição dos rebanhos, o que seria benéfico no geral para as margens dos players não integrados, caso da Marfrig (um player totalmente não integrado) e JBS (com uma estimativa de 65 a 70% da receita de negócios não integrados).

Apesar do baixo desempenho nessa semana, as ações do setor seguem com visão positiva majoritariamente positiva dos analistas. De 16 casas que cobrem a JBS, segundo consenso Bloomberg, 14 recomendam compra dos ativos, enquanto apenas 1 recomenda manutenção e outra recomenda venda dos ativos. No caso da Marfrig, 12 recomendam compra e 3 manutenção, enquanto que, para a BRF, 12 recomendam compra e 4 neutralidade. Novata no Ibovespa, a Minerva tem 8 recomendações de compra e 4 de manutenção.

Contudo, conforme destaca o Morgan Stanley, em meio ao cenário de notícias negativas, principalmente com relação à investigação do Departamento de Justiça, é possível ver alguma volatilidade nas ações no curto prazo, notoriamente para a JBS.

(Com Agência Estado)

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