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SÃO PAULO – Com um enredo digno de Hollywood, as questões de governança corporativa envolvendo os sócios da Inalca JBS – a brasileira JBS (JBSS3) e o grupo italiano Cremonini – chegam ao ápice nesta semana. Depois de exonerações de conselheiros, denúncias à Justiça italiana e à Câmara de Comércio Internacional e investigações policiais, os acionistas da empresa devem se reunir na próxima terça-feira (28) para discutir diversas pautas – entre elas, inclusive a possibilidade de formação de um novo conselho.
“Nós estamos dispostos a criar um novo conselho, desde que eles estejam dispostos também a nomear novos conselheiros”, afirmou o presidente do conselho da Inalca JBS, Marco Bicchieri, à InfoMoney. Caso o respeito às regras de transparência e um novo conselho não sejam acordados, a liquidação judicial da empresa entra na pauta. Dessa forma, a decisão deve ser feita na próxima sessão, na segunda convocação da assembleia de acionistas. A primeira foi realizada na sexta-feira, sem a presença da JBS.
Reunião de emergência
Enquanto isso não acontece, novos fatos entram para a história. Nesta segunda-feira, Bicchieri convocou uma reunião de emergência anunciando a manutenção dos três conselheiros de nacionalidade brasileira indicados pela JBS e destituídos pelo grupo Cremonini, e comunicando uma denúncia de irregularidades nos procedimentos de identificação da carne bovina.
Segundo Bicchieri, nesta reunião foram apresentados os pareceres de três juristas – dois brasileiros e um italiano – alegando a ilegalidade da exoneração dos conselheiros. Os documentos confirmariam as declarações da JBS de que, pela lei italiana e pela reciprocidade, é perfeitamente legal que o conselho de uma empresa seja composto de não-residentes, já que não são cargos executivos. Os pareces também serão apresentados na assembleia dos acionistas, na próxima terça-feira.
Ao mesmo tempo em que a reunião de emergência ocorria, o Cremonini convocou uma outra reunião. O resultado: os conselheiros indicados pelo grupo italiano não compareceram ao encontro convocado por Bicchieri. Porém, o brasileiro defende a validade da reunião, apontando que o presidente do Conselho Fiscal estava presente, concordando com os pareceres dos três juristas apresentados na ocasião.
Falta de transparência
A JBS trouxe a público as questões de governança relativas à Inalca em julho deste ano, quando entrou com uma medida cautelar na Justiça italiana pedindo o acesso a dados financeiros da empresa. Contudo, os problemas remontam ao início da parceria, em 2007, tendo piorado em meados deste ano. Bicchieri conta que após assumir o conselho, foi totalmente barrado pelos sócios da JBS na Inalca em qualquer tipo de informação que pedisse. “Eles blindaram a administração da empresa”, diz o presidente do conselho, informando que todas as reivindicações da JBS e dos conselheiros estão registradas em atas.
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Bicchieri não faz especulações sobre os motivos que o grupo Cremonini tem para não fornecer as informações financeiras, mas declara o porquê do interesse da JBS e dos conselheiros apontados pela brasileira nos números. “O que nós pedimos foram explicações sobre resultados que seriam um tanto quanto difíceis em um ano como esse, onde empresas do mesmo setor na Europa não estão apresentando resultados semelhantes”. Segundo ele, os conselheiros só podem avaliar os balanços diante da certeza de que esses números representam fatos reais.
Problemas diários
A blindagem administrativa não é a única questão que aparece nas declarações do presidente do conselho da Inalca e nem da própria JBS. Um outro fato registrado foi o impedimento de um dos conselheiros apontados pela brasileira, Gilson Aparecido Teixeira, de entrar na filial da empresa em Angola. A ação foi demandada por um conselheiro apontado pelo grupo Cremonini, em carta.
O problema, contudo, não se restringe a esse fato. Para que os conselheiros visitassem as fábricas italianas e se movimentassem dentro da empresa era necessário pedir autorização; “chegamos ao ponto de sermos barrados na portaria da empresa no dia de uma assembleia”, conta Bicchieri. “Esse tipo de entrave, desde que sou membro do conselho, tivemos isso diariamente”.
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Resposta do grupo Cremonini
Procurado pela InfoMoney, o Cremonini não estava imediatamente disponível para comentar os acontecimentos. Entretanto, o grupo comunicou através de notas à imprensa italiana em nome da Inalca JBS que confirma a regularidade das suas operações, tendo apresentado todos os documentos pedidos pela Justiça.
Ao mesmo tempo, a empresa informou que realizou uma denúncia à polícia postal, no dia 14 de setembro, sobre a violação e manipulação do sistema de informações da Inalca, atribuindo a esse fato uma conexão “não de tudo improvável” com a denúncia de irregularidades apresentada por Bicchieri.
Por fim, o grupo italiano afirma que Bicchieri não exerce mais nenhum cargo na Inalca, tendo sido destituído em 15 de setembro, e segue declarando que a JBS tem agido de forma a “desacreditar a Inalca e atrapalhar sua atividade com o único fim de destruir uma realidade na qual a presença consolidada nos mercados em que a JBS não consegue se desenvolver constitui um obstáculo a ser removido”.
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A resposta de Bicchieri a isso é incisiva: além de mencionar os pareceres dos juristas que tornam ilegal a sua exoneração, questiona os motivos que a JBS teria para desacreditar uma empresa que faz parte do próprio grupo.