Investir em bolsa pode ser boa opção, apesar da crise

Passado o período eleitoral, o mercado acionário, que acumula perdas desde 2000, pode se recuperar; opção só para quem investe no médio-longo prazo

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SÃO PAULO – O mercado financeiro mundial vive um ano bastante negativo. Nesse sentido, as principais bolsas de valores européias, norte-americanas e asiáticas, assim como a Bovespa, mostram fortes perdas e atingem patamares não vistos há muitos anos.

Economia em desaceleração

No âmbito externo, as dúvidas quanto ao ritmo de recuperação da economia norte-americana vêm deixando os investidores apreensivos, já que alguns indicadores sinalizaram nos últimos meses que a economia dos EUA não vêm crescendo às elevadas taxas observadas durante boa parte da década de 90. Além disso, muitas companhias, não somente norte-americanas, obtiveram este ano resultados inferiores aos projetados pelos analistas, o que trouxe pessimismo ao mercado.

Outro fator negativo foi a crise de confiança dos investidores, frente às fraudes contábeis registradas em balanços de empresas norte-americanas, com destaque para a fabricante de energia Enron e a operadora de telecomunicações WorldCom, cujo pedido de concordata constitui-se no maior de toda a história da economia norte-americana, com ativos avaliados em US$ 64 bilhões.

Quadro eleitoral prejudica ainda mais

Como se não bastassem as instabilidades no cenário externo, as incertezas quanto ao quadro sucessório presidencial também trouxeram ainda mais pessimismo aos investidores brasileiros. Isso porque a candidatura de José Serra, preferido pelo mercado por simbolizar a continuidade da atual gestão macroeconômica do governo de FHC, não consegue obter bom desempenho.

Assim, o mercado teme quais medidas poderiam ser tomadas caso um candidato de oposição ao atual governo seja eleito presidente. Nesse sentido, alguns candidatos possuem discurso dúbio com relação a diversos tópicos econômicos, enquanto outros prometem tomar atitudes que parecem pouco factíveis.

Com o investidor externo avesso ao risco, não é de se espantar que muitos preferem se desfazer de ativos considerados menos seguros, como os brasileiros. Assim, a saída líqüida de capital estrangeiro na Bovespa, resultado entre a diferença de compra e venda de ações por investidores externos, chegou a superar R$ 1,8 bilhão desde o início do ano até os vinte primeiros dias do mês de setembro.

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Será que vale a pena investir em ações ?

Com isso, muitas ações estão com preços bastante depreciados frente às sucessivas quedas da Bovespa, cujo principal índice acumula desvalorização superior a 30% apenas em 2002 e atinge níveis próximos àqueles registrados no início de 1999, ano da maxidesvalorização cambial. Então, a pergunta que fica é: frente aos cenários externos e internos tão desfavoráveis, será que vale a pena investir em ações?

Inicialmente, o investidor deve estar ciente que aplicações em renda variável tendem a gerar bons retornos somente no longo prazo. Assim, pode ser uma boa saída investir em ações neste momento, aproveitando o preço baixo de alguns papéis, para o investidor que aceita tomar um
pouco mais de risco e que pode manter o dinheiro investido por um período mais longo.

Preços depreciados

Nesse sentido, existem ações de grandes empresas que, por mais afetadas que possam ser em função das atuais adversidades, provavelmente continuarão registrando altos lucros. Dentre elas, estão as do setor financeiro. Assim, as ações do Bradesco (BBDC4*), Itaú (ITAU4*) e Unibanco (UBBR4*) negociam a 47%, 43% e 45% abaixo do máximo nas últimas cinqüenta e duas semanas, respectivamente, o que representa grande potencial de ganhos.

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Porém, certamente as ações dos grandes bancos brasileiros seriam ainda mais prejudicadas em caso de calote da dívida, já que detêm grande parte da dívida pública brasileira em suas carteiras.

Também negociando próximos de mínimos históricos, encontram-se muitas ações de empresas do setor de telecomunicações. O fraco desempenho dos papéis pode ser atribuído à escassez do mercado no Brasil e em parte ao elevado endividamento de muitas empresas do setor, principalmente as companhias de telefonia móvel.

Outro fator preocupante é que parte desses passivos está atrelada à variação da moeda norte-americana e, frente à alta do dólar em 2002, os resultados foram afetados negativamente. Assim, além de uma provável recuperação dos papéis no longo prazo frente às acentuadas quedas, é possível que o dólar venha a ceder no longo prazo e, com isso, o impacto nos balanços seria menor, beneficiando assim as ações da empresa.

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Falta de liqüidez

Devido às incertezas, muitos investidores têm procurado ativos reais, como os imóveis. A procura por esse tipo de investimento aumentou bastante em 2002, também em função da forte saída de recursos dos fundos de investimentos, devido ao ajuste das carteiras para que se adequassem às novas determinações do Banco Central.

Assustados com as variações negativas das cotas de alguns fundos DI e de Renda Fixa, muitos investidores migraram seus recursos para outras aplicações, como poupança, CDB e imóveis, impulsionando assim o setor imobiliário neste ano.

Porém, diferentemente do mercado acionário, os setor imobiliário possui algumas restrições de liqüidez, ou seja, nem sempre é tão fácil encontrar um comprador quando o proprietário, seja do imóvel propriamente dito, seja de uma cota de um fundo imobiliário, pretende se desfazer do mesmo. Além disso, em épocas de retração econômica associada à diminuição de investimentos externos, é pouco provável que os mercado imobiliário também não seja afetado negativamente.

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Finalmente, vale ressaltar que os investimentos em imóveis, apesar de mais seguros por representarem ativos reais, dificilmente obtêm rendimentos superiores a 1%, rentabilidade próxima obtida em aplicações em fundos DI ou Renda Fixa.

Bovespa está no menor nível em três anos

Para o investidor que está disposto a tomar um pouco mais de risco e que pode investir a longo prazo, a compra de ações neste momento pode gerar grandes lucros. Isso porque muitos papéis estão bastante depreciados e a bolsa paulista encontra-se no menor nível dos últimos três anos.

Porém, o investidor deve estar ciente que a Bovespa deve manter-se pressionada até a definição de quem será o próximo presidente do Brasil. Assim, passado o estresse deste processo, é possível que o mercado acionário vire e comece a se recuperar. Caso seja eleito um presidente de oposição, provavelmente a retomada leve mais tempo, mas é possível que o mercado também se recupere neste caso.