Investigações

Investigação no Brasil liga trading americana Freepoint a esquemas de propina, diz Reuters

A PF suspeita que a trading Freepoint, por meio de um intermediário, tenha pago propinas a funcionários da Petrobras por cerca de sete anos

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RIO DE JANEIRO (Reuters) – Autoridades do Brasil estão investigando funcionários de alto escalão da comercializadora de combustíveis Freepoint Commodities, sediada no Estado norte-americano de Connecticut, por um suposto envolvimento em esquema de propina ligado à Petrobras (PETR3; PETR4) que teria funcionado até 2018, apurou a Reuters.

A Polícia Federal suspeita que a trading Freepoint, por meio de um intermediário, tenha pago propinas a funcionários da Petrobras por um período de aproximadamente sete anos.

A Reuters estabeleceu as conexões da operação por meio de três pessoas próximas à investigação, que falaram em condição de anonimato, e centenas de páginas de documentos judiciais que não haviam sido noticiados anteriormente.

Ao menos dois funcionários de alto escalão da Freepoint, incluindo Robert Peck, que comanda os negócios globais da companhia em petróleo, são suspeitos de participação no suposto esquema, segundo as fontes e os documentos judiciais vistos pela Reuters, os quais a Polícia Federal submeteu no ano passado a um juiz federal que supervisiona a investigação.

Entre esses documentos estão registros bancários, faturas, e-mails e mensagens de WhatsApp trocadas entre os supostos coconspiradores, incluindo Peck.

A investigação não havia sido divulgada pela imprensa anteriormente. Nenhuma acusação foi apresentada, e ainda não está claro se virá a ser. Como parte do trabalho, autoridades estão investigando a própria Freepoint, o que poderia resultar em possíveis multas ou outras penas administrativas à empresa, caso seja constatado seu envolvimento em atividades ilícitas.

Em resposta a perguntas enviadas pela Reuters sobre a investigação no Brasil, um porta-voz da Freepoint disse por e-mail que a empresa “está fortemente comprometida a seguir as leis em todos os locais onde fazemos negócios”. A trading preferiu não tecer mais comentários.

A Freepoint recusou pedidos para liberar Peck para uma entrevista. O executivo não respondeu às perguntas enviadas a ele pela Reuters via LinkedIn. Uma mulher que atendeu o telefone em sua residência não quis comentar.

A Petrobras disse por e-mail que tem “tolerância zero em relação a fraude e corrupção”, e que funcionários envolvidos em irregularidades em sua unidade de trading “foram imediatamente demitidos por justa causa em 2018”. A companhia acrescentou que tem colaborado amplamente com as autoridades brasileiras em várias investigações relacionadas à corrupção.

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A Polícia Federal não respondeu a pedidos por comentários. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos se recusou a comentar sobre se está investigando a questão relativa à Freepoint.

A investigação sobre a Freepoint ocorre em meio a uma iniciativa mais ampla para apuração de supostos casos de corrupção envolvendo tradings de commodities, especialmente na América Latina.

Em dezembro, uma subsidiária nos EUA da suíça Vitol, maior trading independente de petróleo do mundo, concordou em pagar 164 milhões de dólares para pôr fim a acusações de autoridades brasileiras e norte-americanas de pagamento de propinas no Brasil e em outros países da América Latina, entre 2005 e 2020, para dar impulso aos seus negócios.

Em novembro, procuradores também acusaram a Trafigura, alegando que a trading sediada em Genebra e ao menos duas subsidiárias pagaram mais de 1,5 milhão de dólares em propinas a funcionários da Petrobras em 2012 e 2013.

Uma porta-voz da Vitol afirmou por e-mail que a empresa está “satisfeita com o fato de o assunto ter sido resolvido”.

A Trafigura, em comunicado enviado também por e-mail, disse que “nega veementemente” as alegações feitas pelas autoridades brasileiras, e que tem uma política de tolerância zero com propinas e corrupção.

A empresa acrescentou que uma assessoria externa contratada para investigar o tema “não encontrou bases para concluir que a atual administração da Trafigura tenha se envolvido ou tivesse conhecimento de supostos pagamentos indevidos à Petrobras”.

A Freepoint é a primeira grande comercializadora de commodities norte-americana a entrar no recente escrutínio promovido pelo Brasil. A companhia, sediada em Stamford, compra e vende todos os tipos de combustíveis por meio de operações em três continentes, empregando mais de 500 pessoas ao redor do mundo.

O suposto esquema

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A investigação da Freepoint faz parte da Operação Lava Jato. Iniciada em 2014, a Lava Jato se manteve focada em casos de corrupção envolvendo a Petrobras.

A operação chegou ao fim oficialmente em fevereiro, mas algumas investigações remanescentes em estágios avançados –incluindo a da Freepoint– continuaram, segundo duas pessoas com conhecimento dos casos.

No centro da investigação da Freepoint está um ex-funcionário da Petrobras chamado Rodrigo Berkowitz, que trabalhou como trader de combustíveis da gigante brasileira do petróleo em Houston.

Em fevereiro de 2019, Berkowitz concordou em se declarar culpado nos EUA de acusações de conspiração para lavagem de dinheiro por aceitar propinas de tradings que faziam negócios com a Petrobras. Como parte do acordo, as identidades dessas empresas não foram reveladas. Berkowitz, que ainda mora em Houston, aguarda sentença.

Ele agora colabora com autoridades brasileiras e norte-americanas em investigações em andamento sobre a indústria das tradings de commodities. Berkowitz declinou de comentar por meio de seu advogado, Jorge Camara.

Berkowitz descreveu o suposto esquema de propina da Freepoint na presença de investigadores brasileiros e norte-americanos em dezembro de 2019, de acordo com documentos judiciais resumindo seu depoimento, apresentados pela polícia brasileira em março de 2020 e outubro de 2020 ao juiz que supervisionava a investigação.

A Petrobras, sétima maior produtora de petróleo do mundo, costuma leiloar grandes carregamentos de diversos combustíveis, para garantir que obtenha o melhor preço possível por seus produtos.

De acordo com o depoimento de Berkowitz, o ex-operador alertou a Freepoint sobre os valores ofertados por concorrentes nesses leilões. Essas informações faziam com que a Freepoint pudesse superar os lances de rivais, ao mesmo tempo em que permitiam que a empresa pagasse menos do que poderia ofertar, disse Berkowitz.

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Em troca dessas informações, de acordo com o depoimento de Berkowitz para seu acordo e faturas obtidas pela polícia brasileira –e vistas pela Reuters–, o trader teria recebido propinas da Freepoint por meio de um intermediário –um empresário brasileiro chamado Eduardo Innecco.

Innecco prestou consultoria para a Freepoint entre 2012 e o final de 2018, quando deixou a América do Sul de forma abrupta por preocupações de que os investigadores estivessem fechando o cerco contra ele, segundo alega a polícia brasileira em documentos judiciais vistos ​​pela Reuters.

Innecco, por meio de um representante, preferiu não comentar. Ele não foi acusado de nenhum crime. Innecco atualmente reside no sul da Europa, disse o representante.

A Freepoint supostamente compensou Innecco com comissões infladas para cobrir o custo das propinas, de acordo com o depoimento de Berkowitz, registros bancários obtidos pela polícia e vistos pela Reuters e pessoas familiarizadas com a investigação.

Innecco, por sua vez, teria repassado essas propinas a funcionários da Petrobras, entre eles Berkowitz, segundo as fontes e os documentos. Através de Innecco, a Freepoint teria movimentado quase 500 mil dólares em propinas apenas entre agosto de 2017 e novembro de 2018, disse Berkowitz em seu depoimento.

O principal contato de Innecco na Freepoint era Glenn Oztemel, conforme centenas de mensagens trocadas entre eles no WhatsApp, que foram obtidas pela polícia e vistas pela Reuters. Segundo a plataforma de inteligência de negócios ZoomInfo, Oztemel detinha o cargo de head de Fuel Oil Book nas operações da Freepoint nos EUA.

Oztemel não respondeu a diversos pedidos por comentários. A Freepoint disse que Oztemel se aposentou no final de 2020. Ele não foi acusado de nenhum crime.

Nos autos do processo, a polícia brasileira alega que ele e Peck, chefe dos negócios globais de petróleo da Freepoint, sabiam da natureza ilícita das negociações de Innecco com a Petrobras.

Em mensagens de WhatsApp trocadas entre os três –obtidas pela polícia e vistas pela Reuters–, Innecco frequentemente contava a Oztemel e Peck detalhes precisos das ofertas de empresas concorrentes pelo combustível da Petrobras, afirmando que as informações eram provenientes de Berkowitz.

Segundo o depoimento de Berkowitz, ele se reuniu com Peck e Innecco em Londres, em fevereiro de 2015, para repassar a Peck informações comerciais sensíveis sobre as operações de combustíveis da Petrobras.

A queda

Os envolvidos no suposto esquema da Freepoint estavam cientes dos riscos que corriam com a ampliação do escopo da Lava Jato, alega a polícia.

Em 1º de setembro de 2018, Innecco enviou uma mensagem de WhatsApp para Berkowitz sugerindo que o trader transferisse sua fortuna para o exterior, para protegê-la das autoridades caso seu esquema fosse descoberto, de acordo com o depoimento de Berkowitz e uma cópia da mensagem vista pela Reuters.

Mais tarde, Innecco expressou arrependimento por ter causado pânico.

“Peço desculpas por talvez ter ido longe demais com minhas sugestões sobre como proceder no caso de as coisas ficarem complicadas”, escreveu Innecco a Berkowitz, via WhatsApp, em 11 de setembro de 2018. “É que fiquei muito preocupado.”

Três meses depois, em 5 de dezembro de 2018, as autoridades brasileiras emitiram um mandado de prisão contra Berkowitz por aceitar propinas de tradings de commodities.

Ele se declararia culpado de acusações paralelas nos EUA em fevereiro de 2019. A Freepoint não foi mencionada pelas autoridades brasileiras naquele mandado, ou pelas autoridades norte-americanas no acordo firmado com Berkowitz.

Em 6 de dezembro de 2018, Innecco voou de sua casa no Uruguai para Madri, de acordo com registros de viagens obtidos pela polícia brasileira e vistos pela Reuters.

Nenhum mandado de prisão foi emitido contra Innecco. Ainda assim, investigadores brasileiros acreditam que ele fugiu por medo de que sua prisão fosse iminente, de acordo com documentos apresentados em outubro de 2020 ao juiz federal que supervisionou a investigação da Freepoint.

A polícia alega que Innecco pediu um telefone descartável a um sócio, fez acordos apressados para vender suas propriedades no Uruguai e solicitou passaportes italianos para ele e sua família. Agora, as autoridades brasileiras o consideram um fugitivo, segundo os documentos.

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