Impacto dos protestos

Investidores ficam alheios a manifestações no Brasil e no mundo, mas analistas apontam para impactos de longo prazo

Assassinato por policial de homem negro nos EUA chocou o mundo e provocou reações violentas

(Crédito: Fotos Públicas)

SÃO PAULO – Desde o último dia 25 de maio, primeiro os Estados Unidos e depois o mundo todo estão sendo agitados por uma onda de protestos contra o racismo por conta do assassinato de George Floyd, um homem negro desarmado, pela polícia de Minneapolis.

Já o Brasil viu neste fim de semana um conflito em plena Avenida Paulista, em São Paulo, entre torcidas organizadas que participaram de protestos a favor da democracia e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

Apesar de ambas as manifestações, o Ibovespa já subiu cerca de 4% nesta semana em meio aos sinais de reabertura econômica pelo mundo, o que leva investidores a se questionarem sobre o quanto os protestos podem afetar o humor do mercado e até mesmo se há, de fato, qualquer influência.

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Segundo Bruno Marques, gestor da XP Asset, por enquanto o mercado brasileiro não foi afetado pelas notícias das manifestações, pois a turbulência política ainda não se traduziu em um efeito econômico relevante. “Se os protestos estivessem impedindo as atividades econômicas eles seriam bem sentidos na Bolsa, mas isso ainda não aconteceu”, afirma.

Rafael Panonko, analista-chefe da Toro Investimentos, avalia que o cenário hoje é bem diferente de 2018, quando a greve dos caminhoneiros derrubou a Bolsa, pois diferente daquele protesto, as manifestações atuais não tiveram ainda um impacto sensível no Produto Interno Bruto (PIB), principalmente os atos ocorridos no Brasil.

“O maior inimigo da economia atualmente continua sendo o coronavírus”, ressalta Marques.

Carlos Daltozo, analista da Eleven Financial Research, concorda que a preocupação número 1 dos investidores ainda é o combate à Covid-19, de modo que um ponto negativo dos protestos é justamente o rompimento de quarentenas, que pode trazer como consequência a proliferação da pandemia.

À Bloomberg, Max Gokhman, responsável por alocação de ativos da Pacific Life, admitiu temer que os “distúrbios não ajudem a curva do coronavírus a se inclinar na direção certa, justo quando parecia haver um momentum a favor da estabilização”.

Vale lembrar que os EUA já estão pondo em prática a flexibilização das regras da quarentena, com reabertura gradual de comércios e indústrias, algo que se reflete no reaquecimento econômico e tem consequências diretas no aumento do apetite por risco nas bolsas internacionais.

Eleições americanas

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Entretanto, isso não quer dizer que as manifestações não tenham qualquer efeito no longo prazo. Bruno Marques explica que o rumo das eleições presidenciais americanas de 2020 pode ser alterado pelos protestos. “Demandas por inclusão social e combate à desigualdade beneficiam o candidato democrata, Joe Biden, que está bem mais conectado com essas pautas do que o atual presidente, Donald Trump.”

O gestor entende que a quarentena evidenciou o abismo entre ricos e pobres ao mostrar quão mais difícil é para as pessoas de renda mais baixa se manterem empregadas e sobreviverem em meio às medidas de isolamento. Portanto, é natural que no longo prazo haja uma discussão mais séria na sociedade sobre desigualdade e inclusão.

“Se houver eleição de um democrata, que consiga ganhar o controle do Senado, os EUA passarão por transformações sociais e políticas relevantes”, destaca.

Por outro lado, Marques aponta que se a opinião pública migrar para um repúdio aos atos de violência, depredação e vandalismo praticados pelos manifestantes mais radicais, isso pode beneficiar Trump, que tem adotado um discurso enérgico contra os protestos.

Na última pesquisa de intenção de voto ABC News/Washington Post, divulgada no domingo, Trump liderava por 51% a 44% nos estados onde venceu em 2016, mas perdia por ampla margem, de 65% contra 32% nos estados em que a candidata Hillary Clinton foi vitoriosa nas últimas eleições.

Brasil

Especificamente no cenário doméstico, Rafael Panonko acredita que o principal fator político a ser monitorado pelos investidores é a relação entre os Três Poderes. “Hoje o governo está se articulando com o Congresso, e isso é benéfico para o País. É algo que tem muito mais peso para o mercado do que as manifestações”, defende.

O analista da Toro diz que é preciso acompanhar o desenrolar das tensões entre a gestão Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal (STF) por causa do inquérito das fake news. “O que tem limitado o fluxo comprador na B3 é essa desunião institucional, que pode gerar retrocessos e grandes prejuízos em termos econômicos caso o Legislativo seja arrastado para a disputa.”

As ruas, historicamente, segundo Panonko, são deixadas em segundo plano pelos grandes players do mercado financeiro.

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Daltozo lamenta que, enquanto a maioria dos países experimenta recuperações econômicas em V, o Brasil esteja paralisado por uma disputa entre Poderes.

O analista pondera, contudo, que a maior preocupação do mercado é com uma possível saída do ministro da Economia, Paulo Guedes, que poderia ser a próxima baixa na debandada ministerial dos últimos meses.

“Desde o início da pandemia sai notícia de que [Guedes] poderia sair do governo, mas o Bolsonaro tem sido assertivo em defendê-lo como o chefe da Economia. Se o Paulo Guedes sair, a dinâmica do mercado mudará completamente”, argumenta.

Por enquanto, os analistas concordam que a trégua política, as medidas de flexibilização da quarentena e o baixo impacto econômico das manifestações estejam segurando o otimismo do investidor. Porém, a corda que mantém o cenário favorável para os investimentos em Bolsa cada vez mais se desgasta, e é preciso estar atento a qualquer sinal de que ela irá se romper.

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