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SÃO PAULO – A Cetip (CTIP3) apresentou nesta quinta-feira uma nova plataforma eletrônica de negociação de títulos públicos e privados a ser utilizada por grandes investidores brasileiros. O Cetip Trader vai permitir a bancos, gestoras de recursos e fundos de investimento a compra e a venda de títulos do Tesouro Nacional e debêntures de empresas privadas pela internet. A plataforma começa a funcionar nesta sexta-feira em fase de testes e tem o início das operações previsto para o dia 16 de setembro.
Hoje praticamente não existe um mercado secundário para títulos privados no Brasil. Os investidores que compram debêntures de uma empresa podem enfrentar dificuldades para conseguir um comprador se quiserem se desfazer dos papéis antes do vencimento. As poucas negociações entre investidores acontecem no mercado de balcão e são fechadas pelo telefone.
O Cetip Trader não tem como objetivo acabar com as negociações fechadas dessa forma. A intenção da empresa é criar um mercado alternativo para a negociação mais transparente de títulos principalmente de grandes empresas e que possuem características padronizadas. Papéis mais exóticos ou menos líquidos devem continuar a ser transacionados por voz.
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O investidor que fizer um cadastro no Cetip Trader e quiser vender um título poderá colocar uma ordem para se desfazer do papel pela plataforma. Se outro investidor estiver disposto a comprá-lo nas condições ofertadas, a transação será fechada pela internet, como já acontece hoje em dia, por exemplo, nas negociações de ações fechadas na BM&FBovespa. “A diferença para uma bolsa é que a Cetip não funciona como contraparte final da operação porque isso é desnecessário no mercado de renda fixa”, afirmou Carlos Ratto (foto), diretor-executivo comercial da empresa.
A interface do Cetip Trader, entretanto, se assemelha muito à de um home broker. O investidor poderá consultar os preços históricos de negociação de cada título de forma que possa ter ideia se as cotações ofertadas são ou não atraentes. Também poderá consultar todos os negócios do dia ou de períodos mais longos e o histórico de transações fechadas por ele mesmo. Após decidir qual papel será comprado, é possível consultar as melhores ofertas de venda disponíveis e também testar o mercado, checando se haveria interessados em se desfazer dos títulos por um determinado preço.
O investidor poderá acessar a plataforma diretamente ou com a intermediação de uma corretora. Apesar de o serviço prestado pela corretora ter um custo como em qualquer negociação fechada na BM&FBovespa, só dessa forma o investidor garantirá o sigilo sobre a posição – já que é a corretora quem aparecerá como parte na transação.
Para a Cetip, outra vantagem é que a nova plataforma permite o registro eletrônico de todas as negociações. Não há risco, portanto, de algum investidor desistir de uma transação no meio do caminho e dizer que aceitou seus termos como pode acontecer pelo telefone.
Pessoas físicas
Inicialmente, a Cetip não vai disponibilizar a plataforma para pessoas físicas porque o mercado de renda fixa no Brasil ainda está quase que inteiramente concentrado nos investidores institucionais. Mas nada impede que isso aconteça no futuro. A plataforma também incluirá neste momento apenas os títulos públicos emitidos pelo Tesouro e as debêntures, mas se houver demanda, outros papéis, como CRI (certificados de recebíveis imobiliários) e quotas de fundos fechados, poderão ser incluídos na ferramenta.
Para atrair os investidores que hoje negociam os títulos pelo telefone, incialmente a Cetip não vai cobrar taxas dos investidores que utilizarem a nova plataforma. A taxa que vigorará após esse período inicial será definida nos próximos dias, mas a cobrança só deverá começar quando boa parte dos investidores já estiver acostumado a utilizar a ferramenta.
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Nos próximos dias, a Cetip planeja dar treinamentos aos grandes investidores sobre a utilização da plataforma. Além da adesão dos maiores negociadores de títulos do Brasil, para que o Cetip Trader entre em operação no dia 16 de setembro, também é necessário que a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) dê seu aval à ferramenta.
O Cetip Trader foi desenvolvido em conjunto com a americana ICE (Intercontinental Exchange), uma das maiores bolsas de contratos futuros e de derivativos de balcão do mundo. É pela plataforma da ICE que são realizadas 75% das negociações mundiais de CDS (Credit Default Swap), os papéis que funcionam como uma espécie de seguro para investidores contra o calote de títulos soberanos.
Liquidez
Um dos grandes problemas de quem investe em títulos privados como debêntures no Brasil é a falta de liquidez. Mais de 99% desses títulos são registrados na Cetip, mas, para conseguir vendê-los antes do vencimento, o investidor pode ter dificuldade em achar um comprador ou ser obrigado a oferecer um deságio interessante para encontrar demanda.
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A falta de liquidez acaba fazendo com que muitos investidores praticamente só negociem títulos públicos. Apenas 125 empresas brasileiras possuem debêntures – apesar de, em tese, qualquer empresa aberta estar apta a emiti-las. A criação do Cetip Trader “é fundamental para o aumento da liquidez no mercado secundário”, afirmou João Henrique Simão, chefe de operações de mercado aberto do Banco Central.
A queda dos juros também favorece o aumento das operações de crédito privado. Para Patricia Pimenta, gestora de portfólio da Bradesco Asset Management, os juros pagos pelos títulos públicos já não são suficientes para contentar os investidores. Há, portanto, grande espaço para o crescimento das emissões de debêntures e outros títulos privados.