Expressivo, mas...

Inflação foi a menor em 20 anos, mas por que não sinto isso no meu bolso?

Alta de preços de três itens nos últimos meses do ano e "cesta individual" ajudam a explicar sentimento do brasileiro com relação a alta de preços

SÃO PAULO – O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) atingiu o menor patamar em duas décadas ao subir 2,95% em 2017, obrigando o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, a se explicar, já que o índice de preços ficou abaixo do piso da meta de 3%. Essa foi a maior taxa desde 1998, quando houve variação positiva de 1,66%. 

Contudo, muitas pessoas não tem a percepção de que os preços estão assim “tão baixos”, ainda mais levando em conta a alta recente de itens como gasolina e gás de cozinha, este último inclusive que virou piada nas redes sociais por conta da disparada no fim de 2017. Mas, afinal, o que explica essa diferença de percepção da sociedade e o número apresentado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)?

A carta de Ilan se explicando ajuda a entender a diferença dessa percepção: o IPCA situou-se ligeiramente abaixo do limite inferior da meta em razão da deflação de preços de alimentação no domicílio, que encerrou 2017 com deflação de 4,85%, refletindo, preponderantemente, as condições de oferta, que permitiram níveis recodes de produção agrícola.

PUBLICIDADE

O impacto da alimentação e bebidas é tão forte uma vez que o grupo representa 23,12% e, dentro desse grupo, a  alimentação no domicílio tem um peso de 15,15%, enquanto a alimentação fora do domicílio é de 7,97%. Ou seja, o peso do grupo, que teve forte queda de preços em 2017, foi crucial para a inflação ficar abaixo do piso da meta. 

Quer investir seu dinheiro? Clique aqui e abra a sua conta na XP Investimentos

A Rosenberg Consultores Associados aponta, por outro lado, que a introdução de ajustes de preço mais frequente em itens como gasolina, gás de botijão e energia elétrica (está com alta de 10,35% em 2017 com impacto positivo de 0,35 ponto percentual no IPCA) adicionou volatilidade aos preços administrados nas leituras mensais. “Ao final de 2017, esses itens acabaram por pressionar a inflação, contrabalanceando a significativa desaceleração dos preços livres”, afirma a consultoria. Contudo, eles não foram suficientes para “compensar” os efeitos da queda anual de 1,87% do grupo de peso e alimentos. Isso por que energia, gás e gasolina é de cerca de 10% do IPCA.  

Os últimos meses foram de forte alta para a gasolina e para o gás de cozinha. Em 2017, a gasolina teve ganhos de 10,32%, contribuindo em 0,41 ponto percentual para a alta do IPCA, enquanto o gás de cozinha teve alta de 16%, com impacto de 0,19 ponto percentual no índice.

Os movimentos ganharam mais força no segundo semestre do ano passado, quando a Petrobras anunciou nova política de reajustes de preços – no caso da gasolina, os reajustes são quase diários. Já no caso de gás de cozinha, após os reajustes frequentes, em dezembro a estatal anunciou que vai rever a metodologia, mas ainda não fez o anúncio de como ela será. Como esses reajustes ganharam grande destaque na imprensa, a percepção é de que os preços tiveram uma alta “generalizada”, algo que não se provou ao olhar para todos os itens do IPCA. 

Assim, esses três grupos contribuíram para alta da inflação em 2017, mas não foram “suficientes” para compensar os efeitos da queda dos preços dos alimentos. Além disso, é bom destacar: o IPCA é um índice com base em uma cesta de produtos, de forma a ser o mais fiel à realidade dos brasileiros quanto à percepção sobre alta ou queda de preços. Contudo, dependendo de como for a sua cesta de consumo, a “percepção” sobre a inflação pode mudar: afinal há quase 200 milhões de diferentes índices de preços no Brasil, que podem ser maiores ou menores dependendo de como for o consumo de cada habitante. 

PUBLICIDADE

Meirelles explica

Além disso, vale destacar a fala do ministro da Fazenda Henrique Meirelles nesta quinta-feira: ele destacou que a população ainda não tem a percepção de uma inflação baixa porque os preços estavam aumentando muito até um ano e meio atrás.  

“Inflação baixa não significa que preços estão caindo, mas que estão subindo menos. A população acha que a inflação está alta porque ela de fato estava alta um ano e meio atrás. As pessoas se lembram de um preço de dois anos trás e dizem que o preço subiu muito”, argumentou, em entrevista à Rádio Bandeirantes de São Paulo. 

O ministro explicou que a inflação é calculada a partir de uma média de preços da economia que não considera apenas os itens que subiram muito e que chamam mais atenção – como gasolina e gás – ou os itens que baixaram muito – como alimentos. “Ninguém gasta 100% do orçamento só com gás, ou só com feijão, é preciso medir a média”, completou. 

Meirelles disse ainda que quando os preços não sobem nada, também há um problema econômico que outros países já tiveram que enfrentar. “Preço caindo parece bom, mas leva a problema na economia também, porque os consumidores param de comprar esperando que o preço continue caindo”, citou.

Por isso, disse o ministro, o ideal é que a inflação esteja sempre próxima da meta, que no ano passado era de 4,5%. “Apesar de ter ficado abaixo do piso, o resultado foi bom porque Brasil vinha com inflação alta. Inflação baixa melhora número de empregados e aumenta atividade econômica”, acrescentou. O ministro repetiu que o governo espera que sejam criados 2 milhões de empregos em 2018, mas admitiu que ainda há muitas pessoas desempregadas. Segundo ele, a economia não reage em saltos, por isso a sensação de bem estar da população deve melhorar gradualmente. “O poder de compra está aumentando com inflação baixa e aumento do emprego”, destacou.

(Com Agência Estado)