Inadimplência assusta nos EUA e na Europa, mas não intensificará crise

Bancos devem reportar US$ 3 trilhões de perdas com crédito; porém, situação não deve voltar a ser tão ruim quanto em 2008

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SÃO PAULO – A temporada de resultados dos grandes bancos internacionais no segundo trimestre de 2009 voltou a levantar preocupações acerca da real saúde financeira das instituições. Apesar de, no geral, terem apresentado lucros melhores do que o esperado, um olhar mais atento aos balanços mostra pontos que sinalizam a possibilidade de novas turbulências no futuro.

O aumento de provisões para perdas com crédito fez parte de quase todos os balanços dos grandes bancos, especialmente nos Estados Unidos. Os números chamam a atenção para previsões pessimistas, como as da McKinsey, de que os prejuízos com crédito ainda não chegaram nem na metade do total: a expectativa é de que as perdas fiquem entre US$ 2,5 trilhões e US$ 3 trilhões, enquanto atualmente elas somam US$ 1 trilhão.

Esse tipo de situação abre espaço para uma retomada dos temores de que a crise apenas foi adiada e de que no caminho da recuperação ainda há novas turbulências, especialmente no setor de cartão de crédito internacional. Ainda em relação às operações no segundo trimestre, a agência de classificação de risco Fitch recentemente alertou para os altos níveis de negligência que, combinados com baixas perspectivas de recuperação, sinalizam deterioração nas perdas com cartões de crédito nos Estados Unidos.

E o problema não afeta apenas os bancos norte-americanos. Se em relatório sobre o país o FMI (Fundo Monetário Internacional) previu que 14% de US$ 1,914 bilhão de crédito ao consumidor iriam se tornar títulos podres, na Europa, a projeção é de que o mesmo aconteça com 7% dos US$ 2,467 bilhões de crédito ao consumidor.

Perspectivas ruins, mas nem tanto

Enquanto alguns economistas pregam que a inadimplência no setor levará a uma turbulência nos moldes da vista no terceiro trimestre de 2008, outros acham a expectativa exagerada. Para a professora do Departamento de Economia da ESPM, Cristina Helena Pinto de Mello, a situação não será como no ano passado. “Falar em próximo epicentro da crise é uma palavra forte demais. Ela não dá a devida proporção do que pode acontecer”, afirma.

Segundo Cristina Helena, o aumento da liquidez devido à atuação dos bancos centrais elevou também a quantidade de dinheiro e meios de pagamento em circulação. “O que está mais preocupando agora é que, com esse aumento nos limites de crédito, se a economia não se recuperar como o esperado, quem tomou crédito não vai ter condições de pagá-lo. Então existe um certo receio de que o aumento da inadimplência possa neutralizar e tornar ineficazes as medidas dos bancos centrais para evitar a crise”.

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A professora acredita ser possível uma nova turbulência devido à inadimplência do consumidor. Caso as instituições financeiras tenham esses problemas, há dois desdobramentos prováveis: o aumento das provisões, que irá reduzir o resultado dos bancos, e consequente resgate de ativos e aplicações para tentar restabelecer esses resultados – algo que já foi visto no trimestre passado.

Impactos no Brasil

Essas discussões que envolvem os países desenvolvidos não são uma grande preocupação no Brasil, devido aos limites mais rigorosos na concessão de crédito e a um volume de empréstimos que não é excessivo.

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“Então, que tipo de turbulência que isso pode causar na nossa economia? Se os bancos precisarem resgatar aplicações, eles podem vender ativos que possuem no Brasil. Se isso acontecer, muito provavelmente nós vamos ter uma queda na bolsa e a saída desses dólares do Brasil pressiona o câmbio para cima”, explica a professora.

Porém, Cristina Helena não vê motivos para alarme. “Nada que nós já não tenhamos vivido, enfim, quedas no mercado acionário acontecem. E nossas empresas são estruturalmente ajustadas, é normal que tenha uma queda no nosso mercado e imediatamente depois nós consigamos resgatar esses valores, ou seja, que nós recuperemos isso”, conclui, otimista.