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O Ibovespa viu se afastar, nas últimas semanas, a marca histórica de 200 mil pontos após flertar com o nível em abril, em um movimento que reflete a combinação de choques externos, deterioração das expectativas de juros e fatores técnicos do mercado. A leitura é de relatório da Ágora Investimentos, que analisa por que o índice perdeu força justamente às vésperas de um marco simbólico.
No dia 14 de abril, o principal índice da B3 chegou a 199.354,81 pontos na máxima intraday, ficando a apenas 645 pontos dos 200 mil. O que parecia uma questão de horas para o rompimento virou semanas de frustração, com uma reversão gradual do humor do mercado.
Segundo a Ágora, o principal gatilho foi a mudança no cenário externo, com destaque para a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, que reacendeu preocupações com a inflação global.
Choque externo muda a narrativa
A pressão inflacionária voltou ao radar global a partir de três canais principais: i) Petróleo: disparada dos preços diante do risco de oferta no Oriente Médio; ii) Fertilizantes: encarecimento impactando o agronegócio brasileiro e iii) Petroquímicos: alta do etileno elevando custos industriais.
Esse cenário levou a uma reprecificação das expectativas para juros nos países desenvolvidos, com Federal Reserve e Banco Central Europeu abandonando, ao menos parcialmente, o viés mais acomodatício esperado no início de 2026.
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O efeito foi imediato sobre mercados emergentes como o Brasil, com impacto direto na curva de juros.
Juros sobem e mercado revê apostas para o Copom
No mercado doméstico, a curva de juros futuros (DI) sofreu abertura relevante, especialmente nos vértices mais longos, com alta de cerca de 0,80 ponto percentual entre janeiro e maio.
Com isso, os investidores passaram a precificar um cenário mais conservador para a política monetária: apenas mais um corte da Selic, taxa terminal entre 13% e 13,25% e possível pausa precoce no ciclo de afrouxamento.
Na avaliação da Ágora, esse movimento representaria o ciclo de cortes mais curto desde o início dos anos 2000, com redução acumulada de apenas 0,75 ponto percentual.
Valuation atrativo, mas fluxo pesa contra
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Apesar do cenário mais desafiador, o relatório destaca um paradoxo: o Ibovespa está barato do ponto de vista fundamental.
O índice negocia a cerca de 8,5 vezes os lucros projetados, sendo o segundo mais barato entre grandes mercados globais, atrás apenas da Colômbia.
Ainda assim, três fatores têm limitado o avanço da bolsa: i) reprecificação da política monetária doméstica; deterioração do cenário externo e sazonalidade negativa de fluxo estrangeiro.
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A participação de investidores estrangeiros, que respondem por cerca de 60% da capitalização da B3, torna esse fator particularmente relevante. Entre maio e setembro, historicamente, há menor entrada de capital estrangeiro — exatamente o período atual.
Correção já foi antecipada
Um ponto central do relatório é que o ajuste de valuation, que normalmente ocorre ao longo de até 12 meses após uma pausa no ciclo de juros, já aconteceu de forma acelerada nas últimas semanas.
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Isso ajuda a explicar por que a bolsa recuou mesmo sem um evento doméstico específico mais agudo — o movimento foi, em grande parte, uma antecipação de cenário mais restritivo.
O que pode destravar o mercado
Apesar dos ventos contrários no curto prazo, a Ágora mantém uma visão construtiva para o médio prazo, apoiada em quatro pilares: i) valuation descontado, abrindo espaço para recuperação; ii) ciclo de juros ainda em queda, mesmo que mais curto; iii) eleições, que podem estimular a economia e expectativas e iv) possível fraqueza do dólar, favorecendo emergentes.
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Historicamente, destaca o relatório, o principal gatilho para uma alta mais consistente da bolsa não é a pausa nos cortes, mas a retomada do ciclo. Esse movimento costuma atrair fluxo estrangeiro, revisões positivas de lucros e valorização mais sustentada do índice.
Festa adiada
A conclusão é que o Ibovespa não deixou de ter fundamentos para atingir novos patamares, mas enfrenta uma combinação desfavorável de fatores no curto prazo.
O quase alcance dos 200 mil pontos em abril refletiu um momento raro de alinhamento entre juros, fluxo e valuation. O afastamento recente, por sua vez, traduz a rápida mudança desse cenário.
Para a Ágora, a marca histórica permanece no radar — mas a “festa” pode ter sido apenas adiada, à espera de condições mais favoráveis no ambiente global e doméstico.

