Ibovespa em queda: veja 4 motivos que explicam movimento (e o que esperar)

Índice cai 1,5% e volta ao menor patamar desde janeiro; saída de estrangeiros e ruído político pesam sobre o Ibov

Camille Bocanegra

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O Ibovespa operou em queda durante todo o pregão desta terça-feira (19), desde a abertura da sessão. O índice fechou com perda de 1,52%, aos 174.278,86 pontos. Na semana, no agregado de duas sessões, recua 1,70%, o que leva a perda no mês a 6,96%. Já são seis quedas nas últimas oito sessões, sendo a maior delas no dia 7 de maio, quando o Ibov caiu 2,4%, seguida pela sessão do dia 13, com recuo de 1,80%.

Dois dos fatores que pressionaram o índice nessas sessões ainda assombram o Ibovespa nesta terça e devem seguir no radar dos investidores: no campo internacional, a repercussão do conflito e um eventual acordo entre Irã e EUA, em especial via impacto no petróleo; e, na esfera doméstica, as expectativas em torno da eleição presidencial.

No dia 7, o índice perdeu força com a queda do petróleo no mercado internacional, em meio às expectativas de um acordo entre Estados Unidos e Irã, o que também reverberou na B3, pressionando as ações da Petrobras (PETR4, PETR3) e de outras petrolíferas.

Já no dia 13, o índice fechou em queda de 1,80% após uma tarde movimentada, em que renovou mínimas sucessivas e perdeu a marca dos 178 mil pontos, em meio à informação de que o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), teria pedido dinheiro ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para pagar despesas com o filme Dark Horse, que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na sessão desta terça, seguem os desdobramentos do conflito entre Estados Unidos e Irã. Uma declaração do presidente norte-americano, Donald Trump, indicando que pode adiar um ataque ao Irã, voltou a alimentar a leitura de que pode haver espaço para um acordo e redução das tensões, mas o mercado encara esse cenário com ceticismo.

Apesar do impacto positivo que a alta do petróleo costuma trazer para os papéis do setor, a perspectiva de inflação mais alta e seus reflexos sobre a política monetária global também afastam investidores do Ibovespa.

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A seguir, os principais fatores que explicam o recuo do índice nesta sessão e nos últimos pregões:

1- Petróleo

Diante da perspectiva de um acordo entre EUA e Irã, o petróleo recua, mas o Brent ainda é negociado em torno de US$ 100 por barril, reforçando temores inflacionários e preocupações em relação à política monetária global. Há relatos de que o Irã avalia reabrir o Estreito de Ormuz, porém sem permitir a passagem de navios dos Estados Unidos, de Israel e de países que apoiaram a guerra.

Conforme Antonio Madeira, economista da 4Intelligence, enquanto o Estreito não for completamente reaberto, os mercados tenderão a ficar na defensiva, com melhoras pontuais a depender do noticiário sobre a guerra no Oriente Médio.

“O quadro no exterior é indefinido. O petróleo neste nível pressiona a inflação, o que acaba resultando em um movimento natural de alta nos juros. Ou seja, a oferta de petróleo segue comprometida”, diz.

Mesmo com a queda recente dos preços, a influência macroeconômica segue negativa por causa do conflito e da falta de uma resolução, avalia Leonardo Santana, especialista em investimentos e sócio da casa de análise Top Gain.

2- Treasuries Yields

A preocupação com o aumento da inflação ao redor do mundo existe desde o começo do conflito entre Irã e EUA, antes mesmo de o fechamento do Estreito ser considerado algo factível. Agora, após semanas de tentativas de acordo entre os países, a realidade de um petróleo mais elevado por mais tempo já é precificada por investidores, que refazem posições nessa direção.

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Na sessão de segunda-feira, o rendimento (yield) do Treasury de 10 anos subiu para seu nível mais alto em mais de um ano. Nesta terça, o rendimento do título continuou avançando, atingindo o maior patamar desde janeiro de 2025, em 4,663%.

“Um efeito dessa expectativa de inflação mais elevada é a alta nos juros das Treasuries americanas, o que atrai capital para os Estados Unidos e drena a liquidez de mercados emergentes”, afirma Paula Zogbi, estrategista da Nomad.

Nessa dinâmica, o Ibovespa deixa de ser a escolha preferencial de estrangeiros, como vinha sendo nos últimos meses. Sem esse fluxo, o recuo do índice se aprofunda. Paula destaca ainda que investidores aguardam, nesta terça, discursos de dirigentes do Federal Reserve e do Banco Central Europeu (BCE), ambos em postura de cautela.

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Os operadores estão precificando uma probabilidade de 36,7% de que o Federal Reserve aumente as taxas de juros em 25 pontos-base até o fim do ano, de acordo com a ferramenta FedWatch da CME, após as leituras de inflação da semana passada, mais fortes que o esperado.

3- Influência do mercado nos EUA

O índice brasileiro também acompanha, nesta terça, o movimento dos principais índices de Wall Street, que recuam pressionados pelas ações de consumo discricionário e por novas preocupações com a inflação. O movimento é, em parte, uma realização de lucros após a alta dos yields do Treasury de 10 anos, agora em seu maior nível em mais de um ano.

O rali das ações já havia perdido força desde sexta-feira, quando teve início a liquidação nos mercados de títulos globais. O movimento reacendeu temores de que os bancos centrais possam apertar a política monetária, com o conflito no Oriente Médio empurrando os preços do petróleo para cima e alimentando preocupações inflacionárias.

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Na sessão de ontem, também de queda do Nasdaq e do S&P 500, pesou o mau humor com o setor de tecnologia. O Nasdaq, que acumulava alta de cerca de 28% desde 30 de março, vinha se sustentando e parecia ignorar as ameaças inflacionárias graças ao entusiasmo com inteligência artificial e aos sólidos lucros das empresas de tecnologia na temporada de resultados. Esse efeito, pelo menos na segunda-feira, pareceu perder força.

O setor de tecnologia da informação caiu 0,97% e liderou as perdas entre os 11 principais setores do S&P 500, com as ações de chips entre as maiores baixas. O Philadelphia SE Semiconductor Index terminou o dia em queda de 3,3%. Já o setor de energia foi o que mais subiu, com ganho de 1,8%.

“Há preocupação com o rali que tivemos em um curto período de tempo e há alguma realização de lucros”, afirmou Tim Ghriskey, estrategista sênior de portfólio da Ingalls & Snyder, em Nova York.

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4- Política no Brasil

No Brasil, o noticiário político segue no foco, após a divulgação da pesquisa Atlas/Bloomberg, que já captura o efeito do chamado “Flávio Day 2.0”, em um dia de agenda esvaziada de indicadores no Brasil e no exterior.

No front político, investidores digerem a pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada hoje. As intenções de voto no senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) caíram 5,4 pontos percentuais no primeiro turno e 6 pontos em um eventual segundo turno, depois de vir à tona o áudio em que ele teria pedido dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para pagar despesas com o filme Dark Horse.

Com isso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a liderar a disputa contra Flávio no segundo turno e ampliou a vantagem no primeiro. “Flávio ainda é a opção da oposição”, afirma o economista da 4Intelligence.

(com Reuters e Estadão Conteúdo)