Ibovespa cai 0,46% no dia, mas acumula alta de 4,68% em 2022; dólar recuou 5,32% no ano

Noticiário político fez a Bolsa brasileira descolar do exterior no último pregão do ano

Mitchel Diniz

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O Ibovespa encerrou a última sessão do ano em queda e não conseguiu se manter patamar dos 110 mil pontos. A Bolsa brasileira descolou, mais uma vez, dos índices em Nova York. Mas, hoje, foi Wall Street que se saiu melhor, repercutindo o aumento no número de pedidos de auxílio-desemprego nos Estados Unidos.

O Dow Jones subiu 1,04%, aos 33.217 pontos; o S&P 500 fechou em alta de 1,75%, aos 3.849 pontos; e a Nasdaq subiu 2,62%, aos 10.481 pontos.

O noticiário político, como de costume, deu o tom aos negócios. A três dias da posse, o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), anunciou os últimos nomes de sua equipe ministerial. E o mercado deu atenção especial a declarações do novo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, sobre a política de preços da Petrobras, baseada na paridade internacional.

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“O PPI tem que ser visto com os olhos do novo governo”, disse ele, sobre o sistema de preços que foi implementado a partir de 2016 pelo governo do ex-presidente Michel Teme. Silveira, porém, evitou dar maiores detalhes sobre como essa revisão se dará.

“Se isso muda, abre um precedente ruim”, afirma Juan Espinhel, especialista em investimentos da Ivest Consultoria. As ações da Petrobras (PETR3;PETR4) reagiram com queda às falas do futuro ministro e, como têm dos maiores pesos do Ibovespa, puxou o índice para baixo.

Alex Carvalho, analista da CM Capital, também chama atenção para uma “inflação inesperada” no começo de 2023, com o fim da redução de tributos sobre combustíveis. “É um cenário desagradável para os mercados, com expectativa de juros em patamares elevados por mais tempo”, disse Carvalho.

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Espinhel, por sua vez, acredita que a volta do ICMS mostra que o governo eleito está tendo preocupação em recompor a arrecadação, o que é positivo. “Do ponto de vista fiscal, é o racional”.

Ibovespa no dia, no mês e no ano

O principal índice do mercado acionário terminou a quinta-feira em queda de 0,46%, aos 109.734 pontos. O giro financeiro da sessão foi de pouco mais de R$ 24 bilhões, com muitos investidores já no clima do réveillon.

O dólar comercial chegou a cair quase 1% hoje, mas inverteu sinal com a aversão ao risco repentina e fechou em alta de 0,47%, a R$ 5,279 na compra e R$ 5,280 na venda. No mês, a moeda americana acumulou ganhos de 1,48%. Contudo, teve queda de 5,32% em 2022.

Em dezembro, o Ibovespa teve queda pelo segundo mês consecutivo, acumulando baixa de 2,44% no período. Em 2022, a Bolsa brasileira acumulou alta de 4,68%.

Na mínima do ano, em julho, o Ibovespa chegou a valer pouco mais de 95 mil pontos. Três meses antes, em abril, tocou a máxima, ficando acima dos 121 mil pontos.

A Bolsa brasileira acompanhou a mudança na visão dos investidores entre o primeiro e o segundo semestre de 2022.

“No começo do ano se falava em inflação transitória por conta de um ‘retorno à normalidade’, após pandemia. Muitos acreditavam na normalização da cadeia de suprimentos e um patamar de preço de antes da Covid-19, o que não aconteceu”, explica Douglas Souza, sócio e CFO do Grupo Anga.

Muito pelo contrário: a inflação atingiu seu maior patamar em décadas nas economias mais fortes do mundo. Os Bancos Centrais dos Estados Unidos e da Europa voltaram a subir juros depois de muito tempo com taxas próximas a zero.

A Guerra na Ucrânia, iniciada em fevereiro, jogou os preços das commodities para cima – até aí, um ponto favorável à nossa Bolsa, cujas ações de maior peso são ligadas às matérias-primas.

No segundo semestre, a economia global deu seus primeiros sinais de esfriamento, mesmo com a inflação elevada. Para os analistas, indícios de que o aperto monetário já começa a desacelerar a atividade. A perspectiva de recessão começou a fazer preço no mercado e as commodities cederam.

Na China, segunda maior economia do mundo, o ano termina com flexibilização da política de Covid zero. Mas o crescimento no número de casos da doença põe em cheque a confiança em uma recuperação mais consistente da economia chinesa.

Política e recessão no foco em 2023

A Bolsa brasileira enfrentou uma eleição presidencial apertada em que venceu Luiz Inácio Lula da Silva, com um discurso pouco amigável ao mercado pelo viés da ampliação de gastos.

“Achamos que será crucial ter visibilidade sobre espaço para corte da Selic e assumimos que isso vai acontecer a partir de agosto”, preveem os analistas do Bradesco BBI.

“O ano de 2023 pode ser de dias melhores para as ações, ou do trem da recessão vindo de encontro sobre a economia, dada a inflação e a alta de juros que devem ser mantidas nos próximos meses”, complementa Idean Alves,  sócio e chefe da mesa de operações da Ação Brasil.

Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, acredita que a guerra na Ucrânia vai continuar sendo um tema para os mercados em 2023. Assim como a reabertura chinesa, que deve repercutir em aumento de número de casos de Covid-19 num primeiro momento, mas trazer um aumento de consumo mais para frente.

“Economias da Europa e dos Estados Unidos, aí sim, vão ter um ano mais tímido. Se não for uma recessão, vai ser neutralidade em termos de atividade”, afirma.

“Para o Brasil, a imagem do país vai melhorar em termos de meio ambiente, educação e saúde. Por outro lado existe dúvida na parte econômica, como vai ser Fernando Haddad como ministro”, complementa o estrategista.

“Fernando Haddad prometeu cortes robustos, e um déficit menor no orçamento de 2023. O discurso é muito bonito, mas é pouco provável que ele aconteça na prática, em razão do apetite de gastos do governo eleito. O mercado até pode dar o voto de dúvida, mas será pouco paciente sobre o tema”, afirmou Idean Alves.

Mitchel Diniz

Repórter de Mercados