Entrevista

Há dois cenários para o Brasil hoje: um ruim e outro péssimo, diz Figueiredo

Para ex-diretor do Banco Central, reforma da previdência era o principal objetivo do governo Temer e estava perto de se tornar realidade; agora ou ela será aprovada com muito atraso ou não teremos reforma - e ambos cenários exigem maior prêmio de risco do Brasil

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SÃO PAULO – Ex-diretor do Banco Central entre 1999 e 2003, Luiz Fernando Figueiredo viveu na pele o que é uma crise de confiança dentro do governo. Hoje atuando do “outro lado do mercado” como gestor de investimentos – ele é sócio-fundador da Mauá Investimentos, gestora com cerca de R$ 2 bilhões em ativos sob gestão, Figueiredo falou com exclusividade ao InfoMoney sobre o que está achando do momento atual do Brasil e o que podemos esperar daqui pra frente.

Para ele, só há dois cenários prováveis para o Brasil após a crise generalizada causada pelas delações de Joesley Batista (dono da JBS) – e nenhum dos dois cenários é inspirador. Contudo, com a inflação mais controlada e a economia ociosa devendo demorar mais para se recuperar, o Banco Central deve manter o ritmo de cortes de juros no curto prazo. Mas acreditar que a Selic deva ficar abaixo de 8% ao final de 2017 beira à ingenuidade nos dias de hoje.

Figueiredo será um dos 7 palestrantes da 10ª edição do “Value Investing Brasil”, congresso que acontecerá nesta terça-feira (23) na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. A grade de palestras e as inscrições ainda podem ser acessadas clicando aqui.

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Confira os principais trechos da entrevista com Luiz Fernando Figueiredo, concedida por telefone na tarde de segunda-feira (22):

Dois cenários prováveis: um ruim, o outro péssimo
Qual a grande discussão neste momento que está movendo os preços do mercado? Ora, o Brasil está em desequilíbrio fiscal, e este governo estava caminhando para aprovar uma Reforma da Previdência, que iria ajudar bastante nesta questão. Contudo, esse imbróglio envolvendo Michel Temer desfez essa caminhada. Agora, seja com o governo atual ou com um novo governo – mesmo com este alinhado à agenda de reformas -, piorou muito a percepção sobre a reforma da previdência. E ela era muito importante para nós.

Diante disso, temos apenas dois cenários: o ruim, porém otimista, que seria a aprovação da reforma com vários meses de atraso; ou o pessimista, onde não teremos nenhuma reforma e tudo vai ficar para 2018. Você concorda que ambos cenários apontam para um prêmio de risco maior exigido pelo mercado, certo? Pois é, este é o cenário: estávamos a beira de criar um equilíbrio fiscal e agora tudo ficou mais distante. O ponto central é que os dois cenários mais prováveis carregam uma dose extra de risco.

Além disso, como o processo político é bem mais lento do que os mercados gostariam, a volatilidade deve reinar daqui pra frente.

O que é provável que acontecerá com o Brasil?
Na economia, teremos uma parada súbita relevante de atividade. Pode ser temporária caso a situação política seja resolvida rapidamente, mas pode não ser. Não dá pra cravar, a única coisa que sabemos é que está “contratado” um nível de contração da economia. Contudo, não vemos um processo inflacionário acompanhado disso: hoje o impacto cambial na inflação é baixo e com a economia tão ociosa o efeito será menor ainda. Podemos ter um impacto no curto prazo pela alta do dólar mas estruturalmente o efeito é baixo.

Por isso não acho que o mercado mudará a opinião sobre a velocidade de cortes de juros do Banco Central no curto prazo [na última reunião, o corte foi de 100 pontos-base; próxima reunião será em 31 de maio], mas aquela percepção de Selic abaixo de 8% até o final do ano está bem mais difícil.

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Agora é esperar: vamos viver no curto prazo aos dissabores dessas notícias. Ativos no Brasil vão andar em cima disso, com um prêmio de risco mais caro e contando com a “retração” dos investidores.

Bolsa caiu 8,8% na quinta; é hora de aumentar risco da carteira?
Não estamos acrescentando risco, estamos na verdade reduzindo risco. Para aquele investidor de longuíssimo prazo, pode ser sim uma oportunidade [de comprar ações], olhando com cautela e para empresas de qualidade. Hoje elas estão bem precificadas para um ambiente turbulento, mas no longo prazo, diante de um cenário mais controlável, elas estão baratas.

Mas um ponto importante que é preciso ter em mente é: existe uma retração muito grande dos investidores nestes momentos turbulentos. O investidor estrangeiro está mais tranquilo, pois a parcela de Brasil na carteira deles é significativamente baixa, então ele não precisa fazer grandes movimentos para se proteger aqui, mas o investidor local está mais receoso de entrar comprando. Isso pode inibir o mercado no curto prazo.

Veja também: entrevista de Luiz Fernando Figueiredo concedida ao projeto InfoMoney Fora da Curva.