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Guerra na Ucrânia completa dez semanas, devasta economia e leva inflação ao mundo

Danos econômicos são difíceis de dimensionar com metade dos negócios fechados, importações e exportações sufocadas e infraestrutura destruída

Por  Fernando Lopes -

Ao se aproximar da União Europeia e, especialmente, da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a OTAN, a Ucrânia atiçou a ira de Vladimir Putin, o presidente da vizinha Rússia. A título de proteger a segurança das fronteiras russas e de impedir a “nazificação” da Ucrânia, Putin ordenou, há dez semanas, a invasão – ou sua chamada “operação especial”. E mexeu com a economia mundial, já combalida pelos efeitos da pandemia.

Como todos os países do mundo, a Ucrânia sofreu econômica e socialmente com a pandemia de Covid-19, que abalou o planeta por dois anos. O Produto Interno Bruto (PIB) da Ucrânia caiu 3,8% em 2020, primeiro ano da pandemia. Em 2021, a economia conseguiu uma breve recuperação e cresceu 3,4%. E a estimativa do Fundo Monetário Internacional (FMI) era que em 2022 o PIB avançasse 3,2% e em 2023, outros 3,5%.

Não era o crescimento dos sonhos, mas era um crescimento constante e previsível, o que é ótimo para o ambiente de negócios. Mas então veio o 24 de fevereiro. A guerra criou um novo cenário.

Hoje, a estimativa do Banco Mundial é que a economia ucraniana encolha 45,1% em 2022, fruto de danos que ainda não podem ser exatamente dimensionados: metade dos negócios do país foi fechado, as importações e exportações foram sufocadas e grande parte da infraestrutura foi afetada.

Mas não só a Ucrânia deve sofrer. A Rússia, por causa das sanções impostas pelo Ocidente, terá sua economia abalada em certa medida, bem como os países europeus, os Estados Unidos e países emergentes como o Brasil.

Segundo relatório do Banco Mundial, a guerra deve infligir o dobro de danos econômicos na Europa e na Ásia Central do que a pandemia. A instituição reduziu sua previsão de crescimento econômico mundial em 2022 e está desenvolvendo um pacote de ajuda de US$ 170 bilhões para superar os efeitos da crise.

Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), o crescimento global deverá desacelerar de uma estimativa de 6,1% em 2021 para 3,6% em 2022 e 2023. Isso é 0,8 e 0,2 pontos percentuais menor para 2022 e 2023 do que o projetado em janeiro.

Impacto da guerra: recuperação econômica na Europa será mais lenta

Crescimento na Europa. Fonte: reprodução FMI

Especialmente para a Ucrânia, a previsão do FMI é de uma retração de 35% do PIB para 2022 – em relação a 2023, a instituição não arrisca projeções. Enquanto isso, para a Rússia a expectativa é de uma retração de 8,5% para este ano e queda de 2,3% em 2023.

Conforme os documentos do FMI, o crescimento global deverá cair para cerca de 3,3% ao ano no médio prazo.

Isso porque os aumentos nos preços das commodities, por conta da guerra e as crescentes pressões sobre os preços, elevaram as estimativas de inflação neste ano para 5,7% nas economias avançadas e a 8,7% nos mercados emergentes e economias em desenvolvimento – 1,8 e 2,8 pontos percentuais acima do projetado em janeiro passado.

Economia da Ucrânia

Em 2020, o PIB do país chegou a US$ 155,5 bilhões (recuo de 3,8% em relação a 2019), com renda per capita de US$ 3,724 mil – a Ucrânia é um país com 44,1 milhões de habitantes. Em 2021, o PIB ucraniano chegou a US$ 181,1 bilhões. A estimativa é que chegasse a US$ 203,9 bilhões este ano e a US$ 222,8 bilhões em 2023. Mas isso não vai acontecer.

E se no resto do mundo as consequências da guerra são sentidas especialmente nos índices de inflação, na Ucrânia o problema se agrava.

A inflação ucraniana de março deste ano acelerou para 13,7% no comparativo anual, contra os 10,7% acumulados nos 12 meses encerrados em fevereiro. Em termos mensais, os preços cresceram 4,5% em março, de acordo com o Serviço Estatal de Estatística da Ucrânia.

Variação dos preços na Ucrânia: mês de março já mostrou aceleração (% em relação ao mês anterior) 

Fonte: Ukrstat

O aumento da inflação foi impulsionado por interrupções na cadeia de suprimentos, demanda desigual, custos comerciais mais altos e a destruição física devido ao ataque em grande escala da Rússia à Ucrânia.

“Além disso”, diz o Banco Nacional da Ucrânia (NBU), em nota oficial, “a aceleração da inflação pode ter ocorrido devido ao aumento significativo dos preços nas áreas parcialmente ocupadas pela Rússia, uma vez que os invasores russos bloquearam a entrega de mercadorias naqueles territórios. Os preços de alimentos, produtos farmacêuticos e combustíveis foram os primeiros a subir”.

Antes da guerra estourar, a Ucrânia havia fechado 2021 com inflação de 9,4%, bem acima da aferida em 2020, de 2,7%, e no mesmo nível dos 10,8% de 2018.

E as perspectivas daqui para frente são sombrias aos preços: o Banco Mundial projeta para 2022 que seja de 15%; um ano depois, de 19%; e em 2024, de 8,4%. Assim, os índices de extrema pobreza do país devem saltar de 1,8% da população para 19,8%.

Sem reunião do Banco Central

Outro problema que a guerra traz é que não há muito o que fazer com relação à inflação, já que os formuladores de política monetária nem podem se reunir.

A taxa básica de juros subiu para 10% ao ano em 22 de janeiro e se manteve assim desde então. Com a guerra, o NBU ressaltou, em comunicado de 3 de março, que “os instrumentos monetários baseados no mercado, como a taxa básica de juros, não desempenham mais um papel significativo na operação dos mercados monetário e cambial”. Por isso, os formuladores não se reuniram mais.

“Quando as condições econômicas voltarem ao normal, o NBU retomará suas reuniões regulares do Conselho sobre questões monetárias e continuará a tomar decisões importantes sobre as taxas de juros e publicar o Relatório de Inflação e as previsões macroeconômicas”.

Força agrícola da Ucrânia

Além do impacto geopolítico da guerra, o corte de fornecimento de produtos agrícolas ao mundo foi outro fator que levou à piora das projeções econômicas mundiais, como consequência da alta do preços, pela redução da oferta de commodities.

Para o trigo, a Ucrânia responde por cerca de 10% do comércio global. É, de fato, uma potência. Junto com a Rússia, é responsável por cerca de 30% do trigo e da cevada consumidos globalmente.

Normalmente, exporta trigo para moagem para países do Oriente Médio e África, além de Bangladesh, e trigo de qualidade para outros países asiáticos. As exportações ocorrem principalmente logo após a colheita em julho, com março a junho sendo uma temporada de embarque mais lenta – de modo que a guerra nem chegou a prejudicar as exportações no momento mais crítico.

Só que mesmo assim há consequências. Muitos dos países que dependem do trigo ucraniano estão transferindo as compras para a União Europeia, Índia, Austrália e Argentina. Tanto a Austrália quanto a Argentina informaram produção recorde de trigo recentemente.

Guerra na Ucrânia desestruturou a oferta da cultura de trigo

Excedente

Apesar do cenário, a Ucrânia tem excedente “significativo” de grãos e petróleo. O problema agora é exportar.

O governo disse que no caso de grãos, o estoque é de cerca de 20 milhões de toneladas, com o trigo em estoque sendo o dobro da demanda interna. E outras 30 milhões de toneladas serão adicionadas com a nova safra. Ou seja, não há exatamente um problema de segurança alimentar no país, por ora.

O agronegócio agora precisa exportar essa produção, mas os portos estão inoperantes, fruto da guerra, incluindo o de Odessa. A Rússia bombardeia esse local justamente para estrangular a economia ucraniana e para tentar controlar o porto.

Com isso, o planejamento logístico precisou ser repaginado. Certas cadeias e corredores logísticos já estão operando nas fronteiras da Polônia, Romênia e Hungria, mas o gargalo das rotas de exportação ainda é muito estreito, pois há muitos compradores interessados e a velocidade é menor do que se o escoamento fosse feito pelos portos do Mar Negro.

O recém-empossado ministro da Política Agrária e Alimentação, Mykola Solsky, em entrevista ao Pravda da Ucrânia, pontua que antes da guerra eram 5 milhões de toneladas de grãos exportadas por mês. Em março, com as novas rotas abertas, via ferrovia e rios, apenas 200 mil toneladas saíram do país.

Para se ter uma ideia, em termos de comparação, a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Brasil informou que as exportações brasileiras de soja em grãos, de janeiro a março deste ano, cresceram e totalizaram 22 milhões de toneladas, ante 15,4 milhões de toneladas exportadas no mesmo período de 2021, ou seja o equivalente ao volume pré-guerra de trigo exportado pela Ucrânia.

O problema mundial das commodities

Vários fatores convergiram nos últimos meses para levar os preços globais das commodities a níveis quase recordes. A invasão da Ucrânia pela Rússia e a perda potencial das exportações ucranianas foi o mais recente.

Não foi o único. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos lista outros fatores que desde o final de 2020 afetam os preços:

  • Aumento da demanda global, liderada pela China;
  • suprimentos reduzidos pela seca;
  • diminuição dos estoques de trigo, milho e soja nos principais países exportadores;
  • altos preços de energia elevando os custos de fertilizantes, transporte e produção agrícola; e
  • países que impõem proibições e restrições de exportação, restringindo ainda mais a oferta.

A turbulência geopolítica de uma guerra entre dois grandes países exportadores agrícolas, incluindo o maior exportador de fertilizantes do mundo, a Rússia, adiciona incerteza e preocupação adicionais à situação atual.

Isso porque a invasão da Ucrânia pela Rússia ocorre em um momento em que os preços globais de alimentos e energia já estão elevados.

Nos últimos 18 meses, os preços do trigo subiram quase 110%; os do milho e do óleo vegetal, 140%; e os da soja, 90%. Esses desenvolvimentos ocorreram quando o crescimento econômico mundial se recuperou das medidas de contenção da pandemia.

Os preços do petróleo bruto e do gás natural começaram a subir, refletindo a recuperação econômica pós-pandemia e as sanções contra o país agressor, a Rússia, o segundo maior produtor e exportador de produtos de energia no mundo.

Proibições mundo afora

Adicionalmente, a guerra fez muitos países adotarem proibições de exportação para manter os estoques internos em níveis que não afetem os preços.

Em 5 de abril de 2022, 11 países implementaram proibições de exportação, incluindo Rússia, Bielorrússia (única aliada declarada de Putin e alvo também das sanções ocidentais), Hungria, Sérvia, Turquia, Macedônia do Norte e Egito.

Os produtos proibidos são trigo, farinha de trigo, cevada, centeio, milho e oleaginosas, chegando até lentilhas, favas e massas.

A Argentina aumentou os impostos de exportação sobre farelo de soja e óleo de 31% para 33%. Mesmo movimento fez a Indonésia, elevando a porcentagem mínima da produção de óleo de palma que os processadores são obrigados a alocar no mercado doméstico de 20% para 30%, limitando efetivamente as exportações.

Essas medidas tiveram um grande impacto no mercado de óleo vegetal e farelo, já que a Argentina normalmente fornece mais de 40% do farelo e óleo de soja comercializados no mundo, enquanto a Indonésia responde por mais da metade das exportações globais de óleo de palma.

Petróleo nas alturas

Paralelamente, a Rússia é o maior exportador de gás natural do mundo e o segundo maior de petróleo. As sanções ocidentais contra o país acabaram incluindo os produtos de energia, o que fez os preços subirem.

Grande parte dos países europeus, como a gigante Alemanha, são dependentes do gás russo, o que garante certa tranquilidade econômica ao governo de Putin.

Os preços elevados do petróleo também estão pesando positivamente na conta da Rússia, ao mesmo tempo que pesam na inflação mundo afora.

Após 10 semanas de conflito, a referência WTI norte-americana acaba por acumular alta neste ano de 45,3%, sendo 19% desde o fatídico 24 de fevereiro, quando valia US$ 92,81 o barril (em 1º de janeiro valia US$ 76,08).

Cotação do WTI em 2022: Preços que já vinham em alta, dispararam com a guerra e se mantêm acima dos US$ 100 

Guerra na Ucrânia e sanções a petróleo russo fizeram preço do petróleo disparar. Fonte: Reprodução CNBC
Guerra na Ucrânia e sanções a petróleo russo fizeram preço do petróleo disparar. Fonte: Reprodução CNBC

Já a referência britânica, o Brent, ganhou 43,8% só em 2022 – no último fechamento valia US$ 112,39, enquanto no primeiro dia do ano estava cotado a US$ 78,98 –, sendo mais de 14% desde o início do conflito.

Enquanto isso, o gás natural – um dos principais trunfos de Putin nesta guerra contra os países da Europa – já se valorizou impressionantes 115,5% em 2022, sendo 68,98% desde o início da guerra.

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Para se ter ideia de como o cenário favorece a Rússia, em discurso no Parlamento Europeu, o alto representante da União Europeia para Política Externa, Josep Borrell, afirmou que o continente deu 1 bilhão de euros à Ucrânia.

“Pode parecer muito, mas é aquilo que pagamos diariamente a Putin por energia. Desde que iniciou a guerra, já demos [à Rússia] 35 bilhões de euros”, contabilizou.

Fertilizantes alimentam os preços

Os altos preços da energia aumentaram os custos de fertilizantes, outros insumos e especialmente do transporte, contando que o ataque da Rússia à Ucrânia interrompeu as exportações agrícolas do Mar Negro.

Rússia, Canadá, China e Bielorrússia são os quatro maiores exportadores globais de fertilizantes. Ainda segundo o Departamento de Agricultura norte-americano, além do aumento dos custos de energia, vários outros acontecimentos nesses países fizeram com que os preços dos fertilizantes disparassem.

Em novembro de 2021, a Rússia introduziu uma cota de seis meses nas exportações de fertilizantes nitrogenados e fertilizantes complexos contendo nitrogênio.

Na mesma época, a China proibiu as exportações de fosfato, um componente importante dos fertilizantes comerciais, até pelo menos junho de 2022. Além disso, um aumento nos preços da amônia e algumas interrupções no fornecimento de potássio no Canadá também contribuíram para o aumento dos custos de fertilizantes.

Além disso, há um outro complicador para o agro: a interrupção de envio de chips de computador e peças de máquinas ameaça a capacidade dos agricultores de manter e operar equipamentos de produção, enquanto atrasos no envio de fertilizantes e outros insumos podem afetar o plantio da próxima safra.

Danos da guerra

Segundo estudos da Escola de Economia de Kiev (KSE), com mais de dois meses de conflito, a guerra já havia custado à Ucrânia quase US$ 85 bilhões apenas em danos à infraestrutura do país.

Nestas cifras incluem-se US$ 28,9 bilhões em estradas e rodovias, US$ 28,3 bilhões e edificações variadas, US$ 9,3 bilhões em estruturas das empresas privadas, US$ 6,8 bilhões em aeroportos, US$ 2,5 bilhões em ferrovias e US$ 1,5 bilhão em pontes e viadutos.

Ainda há custos de destruições de escolas, jardins de infância, hospitais, arsenais militares, igrejas, shopping centers, centros culturais, armazéns, portos, prédios administrativos e outros.

Entretanto, o governo calcula as perdas em mais de US$ 600 bilhões, com danos diretos e indiretos à economia, como a queda do PIB, cessação de investimentos, saída de mão-de-obra, custos adicionais de defesa e apoio social.

Aeroporto de Gostomel, na Ucrânia, foi destruído pela Rússia (Foto: ANSA)
Guerra na Ucrânia destruiu aeroporto de Gostomel (Foto: ANSA)

Déficit

O governo ucraniano prevê ainda aumento do déficit orçamentário para até US$ 7 bilhões em maio e está tentando segurar o rombo.

O Ministério das Finanças projetou aumento no déficit orçamentário do Estado de US$ 2,7 bilhões em março para algo entre US$ 5-7 bilhões em abril e maio, disse o ministro Serhiy Marchenko, em entrevista ao Financial Times.

Segundo ele, a estimativa de perdas de infraestrutura devido à guerra subiu para US$ 270 bilhões, enquanto no final de março, o primeiro-ministro Denis Shmygal disse que a cifra era de US$ 120 bilhões, e a KSE projetou as perdas em US$ 85 bilhões.

O governo cortou os gastos orçamentários em mais de US$ 6 bilhões, mas não o suficiente, pois as receitas são pouco mais da metade do nível anterior à guerra. “Podemos cortar alguns custos, mas isso pode não cobrir o déficit”, avaliou Marchenko.

Ao mesmo tempo, a Ucrânia continuará a fazer pagamentos da dívida pública para evitar inadimplência ou reestruturação, disse o ministro das Finanças.

O país também está tentando um empréstimo amigável do Banco Mundial e do FMI de algo em torno de US$ 50 bilhões para cimentar o buraco.

Além disso, o país tem feito leilões para a venda de títulos militares. O último aconteceu em 12 de abril, quando o Ministério das Finanças arrecadou cerca de R$ 232,3 milhões em títulos com vencimento em 6 meses e taxa de 10%, e cerca de R$ 743,4 milhões em títulos com vencimentos em 1,3 anos e taxa de 11%.

Reservas

Ao mesmo tempo, as reservas internacionais ucranianas subiram. Segundo o NBU, em 1º de abril, dados preliminares mostraram que as reservas internacionais da Ucrânia totalizavam US$ 28,107 bilhões.

“O crescimento de 2% veio principalmente devido ao recebimento de financiamentos de parceiros internacionais, que compensaram a venda de moeda pelo NBU e os pagamentos do serviço da dívida pública”, informou a instituição.

Contaram também as operações do NBU no mercado cambial interbancário e a reavaliação de instrumentos financeiros, devido a mudanças no valor de mercado e taxas de câmbio.

Reservas internacionais da Ucrânia

Reservas cambiais da Ucrânia. Fonte: National Bank of Ukraine
Reservas cambiais da Ucrânia. Fonte: National Bank of Ukraine

Ambiente de negócios na Ucrânia

Apesar de todo o quadro, o presidente do NBU assegurou que a economia da Ucrânia “está se adaptando à guerra”.

Em entrevista ao Pravda ucraniano, Kyrylo Shevchenko disse que mesmo em meio aos bombardeios, a economia do país continua operando e se adaptando às novas condições, especialmente graças ao bom funcionamento do sistema bancário.

O NBU introduziu uma série de medidas e restrições, que não apenas acalmaram o pânico dos ucranianos, mas também restauraram a confiança nos bancos e aumentaram os saldos nas contas bancárias.

Assim, “os ucranianos não tinham motivos para não confiar nos bancos: os pagamentos funcionam e as filas nos caixas eletrônicos desapareceram”.

“Na maioria dos países que enfrentaram a guerra, o sistema bancário parou. Na Ucrânia, foi diferente”, assegura Shevchenko, que ressalvou que a guerra deixou, sim, marcas no sistema financeiro.

E as empresas?

A KSE estima que até 85% das empresas da Ucrânia funcionaram em horário reduzido ou fecharam temporariamente desde o início da guerra.

A pesquisa encomendada pela Escola de Economia de Kiev mostra que “a guerra trouxe mudanças significativas para o trabalho das empresas ucranianas: até 85% das empresas só conseguiram trabalhar em meio período ou até fecharam, das quais 1% pararam e não planejam retomar e 35% suspenderam as operações, aguardando tempos melhores”.

Entre as dificuldades que surgem durante a guerra, 29% dos inquiridos dizem que é a logística; 50% é a falta de pedidos; 21%, a falta de matéria prima; 20% é a inadimplência; 17%, a falta de trabalhadores; e 14% dos entrevistados apontam as instalações atingidas por bombardeios. Ao mesmo tempo, 6% dos entrevistados esperam ajuda do governo para realocação e exportação.

O estudo também mostrou dificuldades para os assalariados da Ucrânia: apenas de 3% a 5% das empresas aumentaram soldos, outras 14-19% fazem pagamentos no nível pré-guerra, e o restante reduziu ou interrompeu completamente os pagamentos de salários e fornecedores.

Entretanto, o cenário é um tanto nebuloso. Desde o começo do conflito, apenas 16 empresas decretaram falência no país, contra 1.100 do mesmo período de um ano atrás. Isso dá a dimensão da dificuldade que os órgãos oficiais têm de funcionar com o conflito em andamento.

Os pedidos de falência não entram por dificuldades de tramitação. Afinal, será preciso encerrar a guerra para ter a real dimensão deste estrago – não só à Ucrânia, como ao mundo.

(Edição Rodrigo Petry)

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