Guerra cambial: Dilma e Mantega estão certos em reclamar dos EUA?

Provavelmente sim, já que Quantitative Easing tem, como efeito colateral, enfraquecido a moeda norte-americana frente à divisa nacional

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SÃO PAULO – A “guerra cambial” é um dos assuntos mais comentados na pauta de economia internacional do governo brasileiro. Dilma Rousseff, presidente do Brasil, falou sobre o conflito em seu discurso na ONU (Organização das Nações Unidas), enquanto Guido Mantega, ministro da Fazenda, popularizou a expressão mundo afora. Mas essa guerra, realmente existe ou é retórica de um governo que não faz sua parte? Para a agência de notícias norte-americana Bloomberg, a resposta é sim.

Embora Dilma e Mantega acusem os Estados Unidos – particularmente o Federal Reserve – de “entrarem pesado nessa guerra através dos Quantitative Easings”, a percepção da Bloomberg é bem diferente. Os brasileiros acusam o Fed de derrubar a cotação do dólar através desse tipo de medida, que é a injeção de dólares na economia. Para a agência de notícias, a intenção é “apenas” baixar os juros da economia norte-americana e estimular a demanda. Seja lá qual for a intenção, o efeito de um QE geralmente é derrubar o dólar. Não é o que Dilma e Mantega alertam?

Preocupados com o câmbio, o governo nacional tem tomado medidas. A Bloomberg, porém, diz que o Brasil deveria esquecer a retórica contra os EUA, herança das posições políticas do PT (Partido dos Trabalhadores) e focar nos “verdadeiros manipuladores” de moedas: China, Japão, Rússia, Coreia do Sul, Taiwan e Suíça. Para eles, o QE3 pode voltar a fortalecer as importações dos EUA, um dos principais parceiros comerciais brasileiros.

Guerra cambial não é contra EUA?
O fortalecimento no principal mercado mundial, portanto, beneficiaria o Brasil: ele traria de volta o ímpeto norte-americano de importação, fortalecendo os exportadores do mundo afora. Não é o que aconteceu nas duas primeiras versões do programa, já que a taxa de desemprego permanece elevada por lá e o crescimento da atividade tem sido apenas gradual. A queda do dólar, porém, é algo que fortalece as exportações norte-americanas – e deixam o produto brasileiro menos interessante.

O euro também deve ter o mesmo efeito, após Mario Draghi, presidente do BCE (Banco Central Europeu), anunciar que também deve comprar títulos de dívida dos países endividados, jogando mais liquidez no velho continente – que pode vazar para o Brasil e para os títulos de dívida nacional.

Assim, as compras de bilhões em moedas estrangeiras por parte da China e Japão – como forma de elevar as reservas – é vista pela Bloomberg como a verdadeira forma de manipulação das moedas. Países como Venezuela e Argentina também têm elevado suas intervenções cambiais, para restringir a saída de dólares de lá. Embora o foco seja mais específico, essas medidas possuem o mesmo efeito que o QE, e são tratadas pelo governo brasileiro da mesma forma. 

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No Brasil, o problema é o contrário: é a entrada da moeda que tem incomodado – já que é o excesso de oferta da moeda estrangeira frente a nacional que causa a desvalorização. Embora a nossa taxa básica de juros esteja em níveis historicamente baixos – atualmente a Selic encontra-se em 7,5% ao ano -, o nível ainda elevado da taxa brasileira em relação às outras economias do mundo ainda atrai os investidores. Esse fator já gerou um embate entre duas das principais líderes políticas do mundo: Dilma pediu para que os investidores internacionais parassem de “especular” com as moedas, enquanto do outro lado Angela Merkel, chanceler da Alemanha, avisou que não ia aconselhar seus governados enquanto o Brasil não abaixasse os juros.

Embora as ferramentas de manipulação cambial sejam banidas pela OMC (Organização Mundial do Comércio) e em teoria poderiam ser motivação de sanções, nada acontece. Não se vê união entre os países nessa guerra cambial, que já atinge diversas economias do globo. Em um ambiente em que as organizações nacionais atuam abertamente nos termos de trocas internacionais, a expectativa é que vença o país com as melhores ferramentas de controle.