48 horas

Grécia tem nas mãos uma bomba relógio que pode estourar na quinta-feira

A Grécia deu até quinta-feira para retomar suas atividades bancárias, mas antes de pensar em sair da paralisia precisa primeiro entregar seu plano de voo

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SÃO PAULO – A Grécia tem as próximas 24 horas, ou no máximo 48 horas a contar a partir de amanhã, para resolver seus problemas, ou a situação ficará ainda pior. O limite é um dia antes do término do feriado bancário, estendido hoje para até quarta-feira, com saques diários de até 60 euros. Os bancos e Bolsa de valores estão fechado desde a segunda-feira passada. Sem dinheiro em caixa, o país terá que resolver nos próximos dias se quer sair do euro ou se adotará medidas rígidas de austeridade para ser socorrido pelo BCE (Banco Central Europeu).

“A economia grega está paralisada. O governo tem que resolver essa questão em até 48 horas. Os próximos dias serão cruciais. Se demorar muito para chegar a uma decisão, a situação da população, que já está ruim, pode ficar ainda pior”, disse Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimentos), filho de imigrantes gregos e que tem família no País.  

Em meio às incertezas se será adotada uma moeda única ou se o país entrará em um período de controle mais rígido, os comerciantes gregos estão vendendo seus estoques mas não estão repondo suas mercadorias – com medo de ficarem sem euro e, se vier uma nova moeda, o que normalmente ocorre, essa se desvalorizar muito nos primeiros dias, comentou Tingas.

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O momento atual é muito difícil, frisa. “A situação é complicada porque a Grécia é um país importador, mas ninguém quer importar combustíveis e alimentos para não se ver livre dos euros que restam enquanto a população tem necessidade de produtos”. 

Esse momento é emergencial e a Grécia terá que decidir até a próxima quarta-feira se retomará sua atividade bancária por meio de suporte do BCE (Banco Central Europeu) – ou seja, aceitando os termos do acordo negociados com os credores internacionais – ou com a criação de uma moeda própria. Se nada disso for decidido, o país terá que estender o feriado bancário, porque o dinheiro se esgotou e precisará de suporte do BCE, mas esse seria o pior dos mundos para a população, que sofre há dias com uma economia paralisada, comentou Tingas. 

Sem um novo acordo, os bancos correm o risco de ficar sem dinheiro nos próximos dias. O Eurogrupo (reunião informal dos ministros das Finanças da zona do euro), que começará às 8h (horário de Brasília) de terça-feira, debaterá a situação grega após o referendo, realizado ontem. Os ministros esperam novas propostas das autoridades gregas.

Nesta segunda, no entanto, o BCE decidiu manter a liquidez de emergência (ELA, na sigla em inglês) aos bancos gregos. Em comunicado, o BCE afirmou que a provisão será mantida “nos níveis de 26 de junho”, mas que só pode ser fornecida com garantias suficientes. A ELA são recursos disponibilizados para bancos que estejam com problemas de falta de dinheiro, como é o caso dos bancos gregos, através do Banco Central da Grécia, para que eles se mantenham funcionando. No dia 26 de junho, o crédito autorizado era de 89 bilhões de euros. Acredita-se que os bancos gregos tenham pouco menos de 50 bilhões de euros nesses recursos. O BCE disse também que vai “ajustar” o valor das garantias, o que significa que elas não serão aceitas por seu valor de face e que sofrerão “descontos”, para se adequar ao risco econômico da Grécia – o que reduzirá a capacidade dos bancos de receber esses recursos e aumentar o risco de quebra das instituições. 

A sinalização que o BCE está dando é clara: estão apertando o cerco da Grécia. “Teremos que esperar as próximas horas, mas tudo indica que o BCE não quer facilitar. Eles estão apertando nas garantias, tratando os títulos gregos como mais arriscados, ajustando o risco do país. A situação nesse momento permanece muito delicada”, pontuou Tingas.

Ele explica que para os bancos abrirem na quinta-feira, como previsto, é preciso que o BCE entenda que tem um acordo na mesa para dar um apoio de liquidez. “Ou a Grécia tem a sustentação de liquidez do BCE ou os bancos abrem porque houve a introdução de uma nova moeda. Nos dois cenários, a situação é delicada. A Grécia não tem mais liquidez e, provavelmente, haverá uma corrida bancária”, comenta. 

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Embora os gregos já tenham sacado boa parte da poupança, ainda tem mais para ser retirado. E, se entra uma nova moeda, a tendência é de queda nos primeiros dias, enquanto se permanece no euro as incertezas sobre a sobrevivência da Grécia ainda vão permanecer. “Para abrir, a Grécia tem, primeiro, que sinalizar para onde está indo. Ela precisa mostrar um caminho para atenuar um sentimento de pânico na quinta-fera, se realmente retomar suas atividades bancárias”. Neste momento, a Grécia precisa mostrar, primeiro, seu plano de voo.