Fato real

Grécia: pouco impacto no curto prazo, muito no longo

No próximo domingo, os gregosirão às urnas num <strong>referendum</strong> sobre se aceitam ou não os termos da proposta da <strong>troika</strong>. Para eles, no entanto, uma coisa continua certa: o país persistirá na depressão

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O Syriza foi eleito tão somente porque o desespero bateu às portas da imensa classe média grega que tem seus jovens desempregados (mais de 50%) e seus velhos com pensões cortadas pelos continuados ajustes impostos pela Troika (FMI, Banco Central Europeu e União Europeia).

As opções para a Grécia são diminutas. O país já quebrou, está sem crédito, doméstico e externo, está abandonado pela Europa e já não tem nada a perder. O povo vive um paradoxo insolúvel, sequer pelas pitonisas: ficar no euro e minimizar a crise. De fato, somente um corte de pelo menos 50% de sua dívida (que alcança 185% do PIB faria o país respirar. Isto não acontecerá.

A contradição deste processo é que muitas reformas foram realizadas, muito mais que a Islândia, por exemplo, realizou. O que destruiu a Grécia foi a postura da União europeia em relação ao país. O endividamento aumentou e a atividade econômica diminuiu. Chegou a depressão. Nas palavras de Joseph Stiglitz em entrevista ao Jornal Valor Econômico: “A Grécia diz que a “tróica” acabou com o país e está absolutamente certa. O interessante é que quase nada do dinheiro que se diz ter sido dado à Grécia foi de fato, dado à Grécia”.

Agora, no próximo domingo, os gregos votarão num referedum sobre se aceitam ou não os termos da proposta da troika para emprestar mais dinheiro para o país. De fato, a decisão será sobre a manutenção do país na zona do euro ou não. A única coisa certa é que o país persistirá na depressão, caminhando para a miséria, para um processo anticivilizatório. Trata-se de uma vergonha enorme para a Europa, sobretudo para a Alemanha, país de vergonhosa história há menos de um século.

A saída da Grécia da zona do euro não produzirá maiores transtornos no curto prazo, a meu ver. Creio que os mercados absorveram os impactos imediatos do fato. O PIB grego representa apenas 2% do PIB europeu. Contudo, ficará a marca estrutural de que a Europa deixará outros países quebrarem, caso não obedeçam às ordens de Berlim e Paris. A União Europeia perdeu a credibilidade. Pode recuperá-la, mas requererá tempo. Deixará a Grécia no chão, todavia.