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Grécia: ou será deixada à deriva ou muda o jogo europeu

Não há meio termo para a Grécia e nem para a Europa

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A Europa é o exemplo maior de como não deve ser feita “política internacional”. Ao longo dos séculos as soluções propostas para as demandas de seus povos sempre foram incompletas e, na maioria dos casos, insustentáveis, resultando em guerras e tragédias. De novo, estamos assistindo a uma tragédia, desta feita, com a Grécia.

A instalação da crise de 2008 é mais um destes episódios que mostra que a união da Europa está apenas no nome. As políticas nacionais e, até mesmo regionais, prevalecem, sobre as do Continente, e as inconsistências econômicas não podem ser superadas por força dos interesses imediatos e eleitorais.

A Grécia tem um endividamento crescente e impagável (ou passível de rolagem), cerca de 185% de seu PIB. O ajuste fiscal que fez desde 2008 foi gigantesco, o maior dentre os países endividados da Europa (Portugal, Espanha, Irlanda e a própria Grécia). O pagamento de juros alcança cerca de 5% do PIB – no Brasil este ano será 9%! – e o resultado primário depende de mais ajustes, desta feita sobre uma enorme massa de aposentados que sustentam boa parte das famílias gregas – o desemprego está em 25% da população ativa e mais de 50% entre os jovens até 30 anos.

A verdade é que o resultado do referendum sobre se os gregos aceitariam ou não os termos do acordo com a Troica(FMI, União Europeia e Banco Central Europeu) é uma espécie de ultimato de guerra: os gregos sentem que nada tem a perder. Provavelmente, estão enganados: terão de perder mais. Todavia, ao dizerOxi(pronuncia-se, orri) os helênicos têm uma chance que sair da armadilha na qual estão metidos. 

Estas são as palavras de dois Nobel de economia (Krugman e Stiglitz) e também de Jeffrey Sachs. Não são discursos de Alexis Tsipras.

Nesta segunda-feira Alexis Tsipras e o midiático Ministro das Finanças YannisVoroufakis desembarcam em Bruxelas, sede da União Europeia com credenciais políticas para colocar na mesa da Troica um plano de alívio da imensa dívida grega. A questão para os membros da Troica já não são os gregos, mas os portugueses, os espanhóis e os irlandeses. 

Doravante, a questão do endividamento europeu será: haverá mudança estrutural no encaminhamento das negociações para todos ou se deixará a Grécia à deriva no Mar Egeu?

O problema é que os gregos criaram para os europeus um nó político ao chamar o referendum deste domingo.Com efeito, os helênicos podem ter erguido as bandeirolas das esquerdas europeias que estavam à espera de uma senha para serem levantadas. Portugal e Espanha e, até mesmo a Itália, têm uma presença substantiva de partidos de esquerda no eleitorado. Angela Merkel e François Hollande (este um esquerdista de fachada) temem os efeitos, mesmo que retardatários, do referendum grego sobre a política interna dos países endividados.

A Grécia à deriva será um barco incômodo. Um barco que como o de Ulisses que poderá demorar a chegar, mas o seu retorno pode mudar a realidade vigente. Talvez não valha a pena subestimar aquele pequeno e belo país que inventou a civilização e que a Europa ora despreza. 

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