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SÃO PAULO – O ano de 2002 foi bastante sombrio para a economia brasileira e para os mercados financeiros. Nesse sentido, o fraco desempenho da economia mundial, além do temor quanto à questão sucessória presidencial no Brasil, pressionaram a taxa de câmbio, os juros, derrubaram a Bovespa e fizeram a economia brasileira registrar apenas um pequeno crescimento.
Porém, as perspectivas para 2003 eram mais otimistas no início do ano, principalmente em função da reversão das expectativas mais pessimistas de muitos investidores, após a posse do novo governo.
Guerra e inflação reverteram projeções otimistas
No entanto, o otimismo durou pouco mais de duas semanas, somente até a primeira quinzena de janeiro. Nesse período, o dólar registrou forte queda, a curva de juros futuros fechou taxas e a Bovespa esboçou forte recuperação, tentando reverter parte das perdas de três anos seguidos em baixa.
Porém, a possibilidade cada vez mais concreta de uma guerra no Oriente Médio novamente fechou o mercado internacional de crédito às empresas brasileiras. Assim, as captações registradas no início do ano praticamente estancaram desde a segunda quinzena de janeiro, sendo que apenas grandes bancos e exportadoras conseguiram emitir títulos no exterior.
Como se não bastasse, a inflação ao consumidor não vem dando sinais de desaceleração, como evidenciado pelas últimas divulgações do IPCA e do IPC da Fipe. Desta forma, o mercado já precifica nova elevação dos juros na reunião desta semana do Copom, que deve anunciar o novo patamar da Selic nesta quarta-feira.
Elevação dos juros prejudicará meta de superávit primário
Frente às adversidades nos cenários local e internacional, o governo anunciou, na última semana, que a meta de superávit primário seria elevada para 4,25% do PIB (Produto Interno Bruto), o que implicará economia da ordem de R$ 68 bilhões.
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Porém, como 55,2% da dívida pública federal emitida através de títulos públicos é indexada à Selic, uma elevação de 1,5 ponto percentual corresponderia a um gasto extra da ordem de R$ 5,7 bilhões em um ano, 8,5% do superávit primário proposto.
Além disso, nova elevação dos juros pode ter efeito nocivo à economia brasileira, que vem registrando fraco crescimento nos últimos anos.
Guerra agravaria cenário
Outro problema que pode agravar ainda mais o cenário é a possibilidade de uma guerra no Oriente Médio. Nesse caso, o preço do petróleo tende a registrar novas altas e a taxa de câmbio provavelmente se depreciará. Com isso, a Petrobras será obrigada a repassar o aumento dos custos ao consumidor através de novos reajustes dos combustíveis.
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Com isso, a inflação tende novamente a ser pressionada, visto que os índices de preços ao consumidor atribuem elevada ponderação a itens relacionados a combustíveis e o círculo vicioso se fecharia, pois o governo seria obrigado a novos aumentos nos juros.
Caso a Petrobras resolvesse absorver a provável alta do petróleo e depreciação do real, a meta de superávit primário estaria comprometida, visto que o governo elevou de 12% para 16% a participação dos lucros das empresas estatais no superávit primário.
O que fazer?
Cabe ao governo tomar algumas medidas para tentar amenizar o impacto negativo do cenário tão adverso em que se encontra a economia brasileira. Nesse sentido, Lula terá que transformar em medidas o que somente ficou restrito ao seu discurso, como controle da inflação, crescimento econômico sustentável, austeridade fiscal e queda dos juros.
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Assim, a elevação da meta de superávit primário parece ter sido coerente, pois sinalizou o compromisso do novo governo em arcar com seus passivos. Além disso, a aprovação das reformas estruturais, como da Previdência e tributária, colaboraria para aliviar as pressões sobre os cofres públicos e alavancar a confiança dos investidores.
Além disso, o Banco Central também deve atuar não somente através de instrumentos de política monetária, mas com medidas que surtissem efeito no curto prazo para tentar apreciar a taxa de câmbio. Novamente, parece ter sido certa a decisão tomada pela autoridade monetária de recomprar dos bancos o montante que os mesmos irão receber na liquidação de financiamentos à exportação concedidos com base nas linhas externas do BC em dólares, mas sim em reais.
Finalmente, cabe ao governo aguardar que os índices de inflação ao consumidor comecem a sinalizar desaceleração e que a provável guerra no Oriente Médio tenha curta duração e não traga grandes conseqüências negativas à economia brasileira.