Primeiras leituras

Governo reforça o movimento para blindar o ajuste fiscal de Levy

Às vésperas do lançamento do novo plano de concessões em infraestrutura e do V Congresso do PT, o Palácio do Planalto faz ações para mostrar que o ministro da Fazenda não está sozinho na batalha do acerto das contas públicas

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Na rede de intriga da “corte” brasiliense, o ministro Nelson Barbosa, do Planejamento, é a aposta de dez entre dez insatisfeitos com o ajuste fiscal para o lugar do ministro da Fazenda, Joaquim Levy quando, esperam os críticos, ficar claro para a presidente Dilma Rousseff que o plano de Levy é inviável e vai fazer mais mal que bem para a economia brasileira.

O esporte de caça do ministro da Fazenda vinha (vem) num crescendo, conforme registrado em alguns jornais desde a semana passada, cada vez com mais desenvoltura. E na linha de frente desse ataque, com a incógnita chamada Lula, está boa parte do PT, como se pode ler no principal editorial de “O Estado de S. Paulo” e na coluna do jornalista Raymundo Costa no “Valor Econômico” hoje.

Firme na nau do ajuste, Levy, fazendo até o papel de “negociador” com o Congresso, emitia sinais claros de sua insatisfação com a falta de uma defesa mais enfática por parte do governo de sua política. E se incomodava com o discurso de parte do governismo, para ele otimista demais e prometendo a recuperação muito rapidamente demais..

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Antes que a corda esticasse (ainda mais porque semana que vem há o barulhento Congresso do PT), a ponto de levar o titular da Fazenda às cordas, registra-se agora um movimento para proteger o ministro da Fazenda e sua política. O tom das comunicações governistas ficou mais sóbrio, a própria Dilma na semana passada se referiu a dificuldades na economia. Michel Temer falou até em “erros” do passado.

Juros mais altos, agenda positiva

O ministro Barbosa, aquele que os “desenvolvimentistas” sonham em ver conduzindo a política econômica no lugar do “neoliberal” Levy, entrou na linha. Ontem, na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, Barbosa avisou que o esforço fiscal para ajuste das contas púbicas vai durar pelo menos dois anos e que não dá para baixar os juros a marretadas. Até Aldo Rebelo, da Ciência e Tecnologia fez sua parte: disse que o ajuste é contingência.

O próprio Levy, no Exterior, reforçou o discurso: a recuperação será lenta, construída tijolo-a-tijolo.

Na mesma direção, na “Folha de S. Paulo” Valdo Cruz informa que o governo (leia-se, o Palácio do Planalto) deu aval para o Banco Central subir mais os juros básicos e garantir o retorno da inflação, como Alexandre Tombini vem prometendo, à meta de 4,5% no fim do ano que vem. O Copom divulga amanhã a nova Selic, e as apostas são de um ajuste de mais 0,5 ponto percentual. Os analistas consultados pelo Banco Central no Boletim Focus prevêem que ela chegará a 14% no fim do ano.

O “ajuste” do discurso oficial em defesa do ajuste fiscal do ministro da Fazenda tem um objetivo afastar ainda as desconfianças dos investidores em relação aos propósitos oficiais para a economia. Semana que vem o governo lança o seu ambicioso novo plano de concessões na área de infraestrutura e, se o ambiente de descrédito continuar o mesmo, pode ser um novo fracasso.

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Como contraponto às críticas ao ajuste fiscal, a presidente está cuidando também da chamada “agenda positiva”, uma cobrança dos partidos aliados. Informa o “Estadão”, que numa investida para tentar “virar a página” e iniciar um processo de resgate de parte de sua popularidade, a presidente lança hoje Plano Safra 2015/2016.

Aguardado com ansiedade por produtores rurais e pelos bancos, o plano foi objeto de disputas entre o Ministério da Fazenda e o Ministério da Agricultura em torno das taxas de juros e do financiamento. Ele deve ser anunciado com juros maiores, cortes no financiamento para investimento e um volume total de recursos de R$ 176 bilhões – a diferença para a safra anterior, de R$ 20 bilhões a mais, será nas linhas de crédito com taxas de mercado, mais caras que as subsidiadas.

Responsabilidade estatal

No terreno da política, conhecendo-se as ideias da presidente Dilma de como deve ser o modelo estatal e o espírito de “provocação” de que estão imbuídos os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, o governo deve já se preparar para um novo embate no Legislativo.

Calheiros e Cunha apresentaram ontem um projeto que torna mais rígidas as regras sobre as estatais, tirando poderes da Presidência da República.

O texto prevê, entre outras medidas, que indicados a presidir empresas e bancos públicos sejam submetidos a sabatina no Senado e proíbe ministros de integrarem conselhos de administração de estatais.

A proposta também impede que dirigentes tomem decisões contrárias aos acionistas minoritários e exige de indicados para integrar conselhos e diretorias experiência prévia em gestão empresarial de pelo menos cinco anos em companhias do mesmo porte.

Os presidentes da Câmara e do Senado anunciaram que pretendem aprovar o projeto, que chamaram de Lei de Responsabilidade das Estatais, nas duas Casas antes do recesso de julho. O Palácio do Planalto não quis se manifestar, mas é claro que as propostas não estão na linha do que pensam a presidente Dilma Rousseff e boa parcela do PT. Há ceticismo também quanto as reais intenções da dupla de peemedebistas.

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Outros destaques dos jornais do dia

– PETROBRAS – Numa operação inédita, a Petrobras emitiu US$ 2,5 bilhões em títulos no mercado internacional nesta segunda-feira.Os “bonds” foram emitidos pela subsidiária Petrobras Global Finance em Nova York e estão precificados em dólares. O prazo é de cem anos e a taxa de retorno aos investidores é de 8,45% ao ano. A operação surpreendeu o mercado e foi muito bem recebida pelos investidores, segundo analistas: atraiu interesse de mais de US$ 10 bilhões junto aos aplicadores. Foi a primeira operação da estatal no mercado internacional depois do escândalo de corrupção denunciado pela Operação Lava-Jato, da Polícia Federal. Com a operação da Petrobras, as captações de empresas brasileiras no exterior este ano sobem para US$ 4,5 bilhões.

 

– BALANÇA COMERCIAL – A balança comercial brasileira registrou um superávit de US$ 2,761 bilhões em maio. As exportações somaram US$ 16,769 bilhões e as importações, US$ 14,008 bilhões. O resultado foi o melhor desde 2012, quando as vendas superaram os gastos no exterior em US$ 2,960 bilhões. Apesar do saldo positivo mensal, há um déficit acumulado no ano de US$ 2,305 bilhões. Mesmo assim, o número é melhor do que apresentado nos cinco primeiros meses de 2014, quando as importações superaram as exportações em US$ 4,860 bilhões. As exportações caíram 15,2% em maio em relação ao mesmo mês de 2014, enquanto as importações registraram uma queda ainda mais forte, de 26,6%. É o que alguns especialistas chamam de superávit negativo.

– ATIVIDADE ECONÔMICA/INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA – As vendas de veículos novos em maio caíram 3,04% ante abril e diminuíram 27,49% na comparação com o mesmo mês do ano passado, para 212.713 unidades. Com o resultado, os licenciamentos acumulam queda de 20,93% nos cinco primeiros meses do ano ante igual período de 2014. O segmento de pesados apresentou mais uma vez o pior desempenho nas vendas. Em maio, os emplacamentos de caminhões e ônibus juntos caíram 0,14% na comparação com abril e recuaram 49,96% ante o mesmo mês do ano passado. Com o resultado, as vendas de pesados acumulam recuo de 38,77% nos cinco primeiros meses de 2015, na comparação com igual intervalo de tempo do ano passado.

E MAIS:

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– “Coro no TSE: unificação de eleições criticada” (Globo/Estadão)

– “BNDES tira selo de sigilo de contrato” (Globo)

– “Governo prevê Taxa de Juros de Longo Prazo de 7% em outubro” (Valor)

– “Concessões de aeroportos vão facilitar a entrada de vencedores de outros leilões” (Valor)

– “Febre de fusões transforma setor de telecomunicações na Europa” (The Wall Street/Valor)

LEITURAS SUGERIDAS

  1. Ilan Goldfajn – “Como o Brasil vai sair dessa” (sobre a situação econômica, diz que vai ser mais fácil sair da recessão que crescer mais na seqüência. Mas que nenhum dos dois será fácil) – Globo
  2. Editorial – “As tramas do lulpetismo” (comenta as críticas à política econômica no documento preparado pela corrente de Lula para ser apresentado no V Congresso partido em Salvador) – Estadão 
  3. Raymundo Costa – “Acerto fiscal e ajuste de contas” – (também comenta as críticas petistas à política fiscal de Joaquim Levy) – Valor 
  4. Editorial – “PIB do primeiro trimestre indica que recessão mal começou” – Valor