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SÃO PAULO – A fim de detectar tendências e perspectivas dos principais gestores de fundos de ações e renda fixa do mundo acerca do cenário macroeconômico global e do mercado cambial, os analistas da Merrill Lynch entrevistaram 265 gestores no começo deste mês. E os números obtidos surpreendem.
Uma primeira conclusão tirada pela equipe do banco de investimentos é de que gestores de fundos voltados à renda variável e gestores de renda fixa compartilham de opiniões semelhantes, como, por exemplo, frente à iminência de uma recessão nos próximos doze meses na economia mundial.
Cerca de 22% dos gestores de fundos de ações entrevistados mostraram-se crentes de que um quadro recessivo no mundo seja possível. Tal parcela foi de apenas 3% em agosto. Paralelamente, os temores quanto ao cenário inflacionário global fizeram-se sensivelmente decrescidos entre as opiniões dos gestores.
Em agosto, a pesquisa conduzida pela Merrill Lynch revelou que apenas 18% dos entrevistados acreditavam em um arrefecimento da inflação nos próximos doze meses. Em setembro, o número cresceu para 48% dos gestores consultados. “Nós discordamos de tal visão e acreditamos que os gestores estão subestimando os riscos de uma inflação global mais alta”, afirma a equipe.
Apostando no dólar
Os números ajudam a explicar um fenômeno mais complexo que vem ocorrendo nas últimas semanas: a abrupta inflexão na trajetória do dólar. “Com cautela ante ao crescimento econômico mundial e menor temor quanto à inflação, gestores de fundos de ações vêm elevando suas posições compradas a longo termo no dólar”, observa a Merrill Lynch.
Em postura similar, gestores de renda fixa e dívida externa também vêm apostando mais na moeda, cuja valorização, na visão dos analistas, reflete um maior grau de aversão ao risco e uma “desalavancagem” por parte de gestores ao redor do mundo. Cerca de 29% dos gestores de ações consultados pela Merrill Lynch disseram estar posicionados no dólar, o maior número desde que a pesquisa passou a ser realizada.
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Em agosto, tal parcela era de 19%. No mesmo sentido, o índice calculado pela Merrill Lynch que mede a exposição de gestores de renda fixa e dívida externa em posições a longo prazo na divisa norte-americana passou de 53 pontos em agosto para 59 pontos em setembro, o maior valor mensurado desde julho de 1999.
Paralelamente, a exposição a moedas de mercados emergentes e ao euro vem em trajetória declinante nos últimos meses. Em agosto, 15% dos gestores de ações apostavam em moedas como o real e o yuan. Tal parcela atingiu 9% em setembro. Entre os gestores de dívida e renda fixa, o índice caiu de um pico de 60 pontos no oitavo mês do ano para 49 pontos no começo deste mês.
Perspectivas
Dado o peso da indústria de fundos sobre a dinâmica dos mercados, inclusive o cambial, as opiniões coletadas pela Merrill Lynch ajudam a compreender a reviravolta nas trajetórias do dólar, euro e também da moeda brasileira, que somente nesta quinta-feira, se viu acrescida em expressivos 2,89%.
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Todavia, os analistas do banco de investimentos mostram-se temerosos quanto a perspectivas futuras para a divisa norte-americana. Para a equipe, de um lado, o dólar ainda apresenta um perfil de “safe haven”, isto é, um ativo seguro em tempos de volatilidade.
Em contrapartida, a atual crise difere-se das últimas na medida em que as incertezas advêm justamente da economia e do mercado financeiro norte-americano, o que oferece um contraponto e pode colocar em xeque a recente disparada da moeda do país.