Fato Real

Fraqueza de Dilma se sair ou se ficar

Está claro que quem a perspectiva mais evidente de controlar a economia e a política nos próximos três anos é o lamentoso Michel Temer

A situação no curto prazo está cada vez mais clara, mesmo que haja opacidade exagerada sobre o futuro de médio prazo o que dependerá do próprio resultado do processo de aceitação do impeachment. Vejamos.

Eduardo Cunha conseguiu adiar a decisão da “Comissão de Ética” sobre se esta manda o nada distinto deputado fluminense para ser sacrificado no altar do plenário. Uma vergonha este senhor presidir a Câmara dos Deputados. O vice-presidente Michel Temer está com as mãos e pés na pista de corrida dos partidos de oposição. Sua carta para a presidente da República é o mais importante documento político que produziu em sua carreira parlamentar e no Executivo, mesmo que seu conteúdo seja sofrível. A convivência institucional que a presidente e seu vice estabeleceram é como separação entre cônjuges que permanecem algum tempo na mesma casa, mas não compartilham o mesmo leito. Lula permanece relativamente discreto em seu Instituto ou nas viagens ao exterior enquanto a presidente se vira no Palácio para sobreviver e os compadres lulistas de longa data ou estão nas cadeias da PF ou na Papuda (nome cheio de simbolismo, no caso). A oposição persiste em sua operação parlamentar mesmo porque a sua voz nas ruas é pouco escutada e seus líderes estejam meio roucos. A representatividade da oposição só não é mais frágil porque a popularidade do governo é ridiculamente baixa.

A discussão jurídica sobre os fundamentos do impeachment, muito embora seja relevante como marco legal, será irrelevante para a turma que votará no Congresso. Por ali o jogo é claro: discutir espaços políticos no governo com ou sem Dilma Rousseff e verificar se ela ou seu vice quem tem mais condições para melhorar o país e facilitar a vida dos parlamentares que buscam mandatos em 2018. Conta daqui, conta d´acolá, a base parlamentar está se afastando rapidamente da presidente.

A votação que escolheu a tal comissão do impeachment, ora suspensa pelo Ministro Edison Facchin do STF, teve 473 votos, ou seja, 40 deputados faltaram a peleja e 2 se abstiveram de votar. A comissão pró-Dilma teve 199 votos e a pró-impeachment 272. É possível, logo de início, constatar que a fragilidade da presidente é evidente. Se ela permanecer no Palácio, será por força de uma derrota na votação em termos de número de votos e uma vitória por ter ainda 1/3 dos votos na Câmara dos Deputados. Ou seja, fica fortalecida para provavelmente não sofrer novo processo de impeachment, mas bem fraca para governar.

A conclusão do parágrafo anterior não deve ser apenas deste articulista. Provavelmente é também dos deputados que ainda podem mudar o seu voto ao longo da fase inicial do impeachment. Este grupo de deputados, digamos, “hesitantes”, é composto por larga maioria estacionada em partidos sem ideologia e facilmente atraídos por cargos, favores e, eventualmente, outros atos nada republicanos. Neste campo podem atuar tanto o petismo de Dilma Rousseff quanto o largo espectro oposicionista no qual já se pode incluir Michel Temer e parte substantiva do PMDB. Ou seja, o fato de Dilma estar no governo hoje não tem tanta importância quanto teria caso não estivesse sob o fogo do impeachment. A atração que o Poder tem tornou-se relativo e não mais absoluto.

 

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O que vai fazer decidir os deputados é (i) a perspectiva de poder, doravante e (ii) quem tem mais condições de exercer a tarefa de governar. O tal do fisiologismo fica para depois, mesmo porque todas as administrações usam do artifício imoral na administração pública para obter maioria no Congresso. Sendo assim, está claro que quem a perspectiva mais evidente para controlar a economia e a política nos próximos três anos é o lamentoso missivista Michel Temer. É o vice-presidente quem poderá fazer um governo que inclua o que hoje é a oposição, bem como é aquele que conta com o apoio mais sólido do capital. Além disso, poderá fechar um acordo pelo qual não concorrerá em 2018. Quanto à grande maioria do povo brasileiro, hoje está humilhada pelo desemprego e disposta a vender apoio político em troca de um prato de lentilhas. As manifestações eventuais mostraram isso.

Vamos voltar as contas, então. Dilma teve somente 199 votos. No começo do ano, a bancada formal de apoio do governo gravitava em torno de 400 deputados. Hoje a presidente tem metade disso. O governo precisa de 172 votos para escapar ileso do impeachment. Se a presidente perder 27 votos o barco pode afundar, dependendo de como votarão os 40 deputados que faltaram à votação de quarta última (8/12/15) ou se abstiveram. A fragilidade da presidente é evidente. Agora e se sobreviver ao impedimento.

A probabilidade do impeachment é elevada. Este diagnóstico que fizemos antes da votação para escolha da comissão especial do impeachment está reforçado pelos fatos concretos. Pouco a pouco vai ficar cristalino que as chances de Michel Temer ser o dono da cadeira do Planalto por três anos devem subir nas próximas semanas. Quanto ao país, ele segue recheado de desesperança. O bloco dos Napoleões perdidos de Brasília cresce. Já os pigmeus do boulevard…estes aumentam a cada dia.