Fraco comércio exterior brasileiro contribuiu para fragilidade do real

Com baixo fluxo de comércio, mercado cambial fica muito dependente dos fluxos da conta de capital

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SÃO PAULO – As seqüentes crises que abalaram a economia internacional desencadearam um processo contínuo de depreciação da moeda brasileira nestes últimos anos. Intensificados por fatores domésticos, como a insegurança gerada nos mercados pela vitória de uma candidatura de esquerda, o aumento da aversão ao risco provocou uma forte restrição ao fluxo de capitais para o Brasil, provocando um sufoco temporário na economia.

Uma das principais causas para a falta de liquidez da economia brasileira, e, por conseguinte, da grande suscetibilidade do real às mudanças de humor dos investidores é a pequena participação do Brasil no comércio internacional, o que faz com que o fluxo de capitais financeiros seja o principal responsável pelo grosso do mercado cambial brasileiro.

Pequeno comercio externo intensifica fragilidade do real

O pequeno fluxo comercial, principalmente quando comparado aos registrados por economias emergentes em posição similar à brasileira, como México e Coréia do Sul, acarreta pouca liquidez ao mercado de câmbio, fazendo com que qualquer movimento de capital tenha um impacto significativo sobre o real.

A razão para isto é simples, uma vez que uma corrente de comércio volumosa tem como conseqüência direta uma maior oferta de divisas estrangeiras. O intervalo de tempo entre as operações de importadores e exportadores irriga o mercado, neutralizando os efeitos decorrentes da diminuição do credito para a economia brasileira.

Moedas de emergentes exportadores possuem desempenho superior

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Observando a variação das oscilações da taxa de câmbio em torno do valor médio das moedas dos principais economias do mundo, e também de alguns emergentes especialmente selecionados, dado sua importância em relação ao Brasil, ou mesmo pelo valor comparativo, é nítido o melhor desempenho dos países emergentes possuidores de grandes contas de comércio externo.

Uma análise da volatilidade de várias divisas desde janeiro de 1994 revela que as moedas de paises desenvolvidos possuem apenas pequenas variações. Por exemplo, o dólar canadense registrou neste período uma variação, medida pela razão entre o desvio-padrão e a média, de apenas 5,58%, valor este ainda menor para a Libra Esterlina, cuja variação, ficou em apenas 5,03% no mesmo período.

No entanto, para desde janeiro de 94 o real registrou uma variação de aproximadamente 50,26%, próxima à sofrida pelo peso argentino, cuja oscilação ficou em 57,06%. Contudo, já para o México e a Coréia do Sul, grandes exportadores, as variações foram muito mais tímidas, ficando em 24,52% para o peso e 22,22% para o won.

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Confira abaixo a oscilação em torno da media de paises selecionados









































País Moeda Variação
Reino Unido Libra 5,03%
Canada Dólar canadense 5,58%
Zona Euro Euro 7,98%
Japão iene 11,16%
Chile Peso chileno 20,41%
Coréia do Sul Won 22,22%
Mexico Peso Mexicano 24,52%
Brasil Real 50,26%
Argentina Peso argentino 57,80%

Coréia e México são grandes exportadores

O desempenho superior das moedas de México e Coréia do Sul é explicado por uma agressiva presença no comércio internacional destes dois países. Apenas a pequena nação do Sudeste Asiático exportou em 2001 um total de US$ 150,5 bilhões, com compras externas neste mesmo ano no montante de US$ 141,1 bilhões, gerando uma corrente de comércio de aproximadamente US$ 296 bilhões.

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Já o México, em 2002, exportou um total de US$ 160,7 bilhões, importando no mesmo ano US$ 168,7 bilhões, conferindo ao país uma conta de comércio externo de aproximadamente US$ 329,4 bilhões. Em 2001, este valor havia ficado em US$ 326,7 bilhões.

Excesso de oscilações prejudica funcionamento da economia

Além de uma menor capacidade de importar, essencial para o crescimento da economia, principalmente no que tange à modernização e à maior competitividade, uma corrente de comércio exterior tímida tem como conseqüência uma flutuação maior da taxa do câmbio, o que traz graves conseqüências para toda a economia.

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A alta da inflação nestes últimos seis meses é uma das principais seqüelas das drásticas oscilações da moeda brasileira, que por sua vez, além da corrosão da renda da população, reforça a necessidade de uma política de juros altos, impedindo a retomada do crescimento da economia.

Confira abaixo as maiores desvalorizações mensais já sofridas pelo real, desde seu lançamento em 1994



















Mês – Ano Variação
Jan/99 64,08%
Set/02 28,87%
Jul/02 20,54%
Jun/02 12,78%
Mai/01 8,02%

Já os principais momentos de valorização, mesmo que acentuados, não foram suficientes para contrabalançar as desvalorizações do real. Confira abaixo as principais valorizações mensais, ocorridas desde o início do Plano Real.



















Mês – Ano Variação
Mar/99 -16,6%
Ago/02 -11,85%
Dez/01 -8,24%
Dez/99 -6,95%
Nov/01 -6,59%

Crescimento das exportações continua sendo desafio

Em 2002, o Brasil vendeu para o exterior aproximadamente US$ 60,3 bilhões, enquanto as importações ficaram em cerca US$ 47,2 bilhões, gerando um fluxo de comércio externo de apenas US$ 107,6 bilhões. A pequena participação do comércio brasileiro fica patente quando comparado com as contas de comércio externo de Coréia do Sul, México e até mesmo da China, cujos valores ultrapassam atualmente US$ 300 bilhões.

Desta forma, permanece sendo um dos maiores desafios para o atual governo a expansão das exportações, a fim de permitir não tão somente uma maior capacidade de importação, vital para o desenvolvimento tecnológico do país, mas também uma maior estabilidade cambial, essencial para o bom funcionamento da economia.