Fórum da Corecon-SP destaca que inflação deve ser combatida sem “erro na dose”

Para economistas, Banco Central não pode ser tão severo ao ponto que o País pare de crescer, e lado fiscal pode ajudar nesse papel

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SÃO PAULO – Nesta segunda-feira (21) ocorreu um fórum de debate sobre economia brasileira com membros do Corecon-SP (Conselho Regional de Economia de São Paulo) e convidados. O tema aborado, como não podia deixar de ser, foi a trajetória recente da inflação e suas potenciais consequências.

O presidente do Conselho, Heron do Carmo, analisou os índices de preços mais comuns e suas respectivas metodologias. Na visão do economista, um dos grandes problemas do País é a questão da indexação, muito influenciada por transição de governo em épocas eleitorais. Assim, muitos contratos nos meses iniciais de cada ano são reajustados de acordo com a preferência desse novo governo, o que acaba pressionando os índices de preços. 

Além disso, a metodologia usada em cada um desses índices abre margem para possíveis questionamentos. No caso do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), por exemplo, deveria haver um peso maior para índices de emprego e desemprego, uma vez que um item importante, serviços, é intensivo em mão-de-obra. Como isso não ocorre, o próprio resultado do índice é passível de discussão.

Inflação em alta revela outros problemas
Problemas pontuais com modelos à parte, o fato que não gera dúvidas, permanecendo como consenso, é o comportamento da inflação. De acordo com o economista, o ritmo de inflação está muito longe do que se possa chamar de “benigno” e continua preocupando.

Corroborando essa análise, Manuel Enriquez Garcia, conselheiro do Corecon, afirmou que, por trás da questão da alta dos preços, há também pontos de pressão que evoluem de acordo com o cenário inflacionário. Para ele, a questão da inflação trouxe à luz a discussão sobre o desempenho do setor externo.

Como desde o ano passado os preços começaram a disparar, dando indícios de que a inflação ficaria fora da meta de 4,5% ao ano, o Banco Central se viu obrigado a adotar uma política monetária restritiva, via aumento dos juros. Assim, em janeiro, a Selic subiu para 11,25% ao ano e, posteriormente em março, para 11,75% ao ano. Para Garcia, essa alta dos juros, juntamente com as boas perspectivas de rentabilidade nos mercados acionário e de renda fixa, atraiu ainda mais capital estrangeiro, porém com um agravante: o capital que está entrando no País é o especulativo.

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Diferentemente do investimento estrangeiro direto, o investimento “especulativo” não tem compromisso com a infraestrutura e o crescimento do País, pelo contrário, sua intenção é puramente capturar o máximo de ganhos possível. Esse movimento criou um movimento pouco desejado, que é a forte valorização da taxa de câmbio.

“O dólar a R$ 1,60 veio para ficar”, afirmou Garcia. Também preocupado com a questão, Carmo afirmou que apesar de algumas melhoras vistas na economia americana, o desempenho mundial não se recuperou totalmente da crise, principalmente os países desenvolvidos. Sendo assim, os países emergentes continuam chamando a atenção desse tipo de investidor.

Ajustar sem errar na dose
Diante desse cenário, o Banco Central passa a ter um importante desafio à frente: dosar combate à inflação com crescimento econômico. De acordo com Garcia, o problema do câmbio valorizado afeta principalmente o setor exportador, uma vez que seu rendimento cai sensivelmente. A indústria também sofre, uma vez que os produtos importados ficam muito baratos, ganhando, muitas vezes, a preferência nacional. Ou seja, as possíveis medidas do BC têm que comtemplar esse quadro.

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Antonio Corrêa de Lacerda, convidado do Corecon e professor da PUC-SP, destacou ainda o grau de incerteza que ronda a economia brasileira. Como os agentes econômicos trabalham com expectativas, o que se espera para o futuro é muito importante, porém, muitas vezes, parametrizar esses fenômenos é algo extremamente complicado. Isso porque há inúmeras possibilidades a considerar e o quadro das importantes variáveis econômicas em 2011 dependerá, portanto, de uma série de fatores. Como uma boa parte da inflação não é causada por fatores de demanda é preciso tomar cuidado com a condução da política monetária no Brasil. “Não podemos exagerar na dose”, destacou Lacerda.

O governo terá que aprender a combinar política monetária e política fiscal. De acordo com o presidente do Corecon, esses desafios podem ser resolvidos sem grandes choques ao crescimento econômico, uma vez que o Brasil tem uma situação externa “folgada” e não enfrenta problemas de arrecadação. Além disso, como o setor público corresponde a 40% do PIB (Produto Interno Bruto) e não repassa praticamente nada em forma de investimento, há uma grande margem para aumento de poupança sem prejudicar nível de crescimento.

Para Lacerda, a boa condução da política fiscal, melhorando a qualidade do gasto público ao invés da quantidade, poderá favorecer a política de diminuição da carga tributária no Brasil futuramente.

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Por fim, os três economistas concordam que a inflação é um problema a ser combatido, porém é preciso saber usar muito bem as armas que se tem na mão para que o crescimento econômico não seja prejudicado, dessa forma, o Brasil poderá conter a alta dos preços e ainda assim crescer 5% em 2011.