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O Ministério da Educação (MEC) divulgou os resultados do primeiro Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) das Licenciaturas, focado na formação de professores. Analistas do mercado financeiro avaliaram os resultados e, em relatório, alertaram que pode haver impacto para empresas privadas de ensino superior listadas na B3.
Relatórios do Bradesco BBI e do Morgan Stanley apontam que determinadas companhias registraram os desempenhos mais fracos no indicador, concentrando notas insatisfatórias especialmente nos programas de ensino a distância (EAD).
O resultado adiciona pressão sobre papéis como Vitru (VTRU3), Cogna (COGN3), Yduqs (YDUQ3) e Cruzeiro do Sul Educacional (CSED3), que já enfrentam uma queda na captação de novos alunos no primeiro trimestre de 2026 devido ao fim das licenciaturas 100% digitais.
O segmento de formação de professores é um dos mais relevante do ensino superior brasileiro, respondendo por 1,2 milhão de alunos na rede privada (15% do total de matrículas) em 2024, de acordo com relatório do Morgan Stanley.
A avaliação do MEC aponta que, na média nacional, “58% dos alunos formandos foram classificados como proficientes”, conforme mapeia o BBI. “A proficiência atingiu 73% entre os alunos de cursos presenciais, contra 47% no ensino a distância (EAD)”.
Panorama das ações educacionais
O levantamento detalhado das notas do Enade por instituição revelou quais companhias abertas estão mais expostas aos conceitos baixos emitidos pelo governo federal:
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A Vitru liderou negativamente em quantidade de cursos reprovados, com 73% de suas graduações recebendo nota 1 ou 2. “Em uma base consolidada, a Vitru é mais suscetível a riscos regulatórios dada a maior exposição à formação de professores em EAD. Estimamos que isso represente 16% da receita da Vitru”, disseram os analistas do Morgan Stanley.
Na ponderação por volume de estudantes, 91% da base de alunos formandos que fizeram o exame estava matriculada em cursos com desempenho insatisfatório.
Já a Cogna registrou o cenário mais severo quando os dados são calculados pelo número de matriculados. Ao considerar o total de alunos concluintes que realizaram a avaliação, “97% da base de alunos avaliados da Cogna está matriculada em cursos com conceito 1 ou 2”, segundo o MS.
Em relação ao volume total de cursos avaliados da companhia, 64% registraram desempenho abaixo do esperado.
O segundo pior desempenho técnico em ambas as métricas de avaliação do setor privado ficou com a Ser Educacional (SEER3), de acordo com os analistas.
De acordo com o mapeamento, 72% dos cursos avaliados da instituição receberam 1 ou 2, o que se traduz em 92% de sua base total de alunos concluintes estudando em licenciaturas consideradas insatisfatórias.
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A Cruzeiro do Sul Educacional (CSED3) registrou conceito insatisfatório em 58% de seus cursos presenciais e digitais. Quando o indicador é calculado pelo peso de alunos afetados nessas turmas, a base de estudantes concluintes matriculada em cursos com conceito 1 ou 2 atinge o patamar de 91%.
Por fim, Ânima (ANIM3) e Yduqs (YDUQ3) registraram os indicadores operacionais mais protegidos e confortáveis em relação aos seus pares de mercado.
A primeira apresentou desempenho insatisfatório em 39% de seus cursos (64% ponderado por alunos concluintes), enquanto a Yduqs teve 46% das graduações mal avaliadas (79% ponderado por alunos), carregando “uma participação de notas ENADE 1 muito menor que a dos pares”, afirma o relatório do Morgan Stanley.
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Impactos da nova regulamentação
Os analistas do BBI e Morgan ressaltam que o impacto imediato dos resultados, quando se trata de ações, é limitado por enquanto, já que a descontinuação gradual dos cursos de pedagogia EAD (ensino a distância) está em curso, e já está sendo precificada pelo mercado.
“Em nossa visão, a maior parte da disrupção já está refletida após a extinção da formação de professores no EAD, o que explica majoritariamente a queda na captação do EAD no 1T26”, diz o relatório do Morgan Stanley.
O Bradesco BBI adota uma postura alinhada ao mercado financeiro e classifica os dados como “neutros a ligeiramente negativos no geral para os players com alta exposição a programas digitais”.
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Como reflexo direto dessa mudança, os cursos de licenciatura que “representavam cerca de 20% da captação do EAD em 2024, mas provavelmente perderam participação no 1T26” causaram perdas volumétricas nas companhias.
O relatório do Bradesco BBI exemplifica esse movimento com dados corporativos de mercado. “A Cruzeiro do Sul, por exemplo, informou que a captação para os cursos de licenciatura caiu de 16% da captação digital no 1T25 para 10% no 1T26”, diz o documento.
As punições regulatórias imediatas para as graduações com conceitos insatisfatórios envolvem apenas medidas de supervisão e monitoramento. “As implicações negativas permanecem relativamente limitadas (ex: visitas presenciais obrigatórias do MEC para recredenciamento de cursos, bem como inspeções presenciais adicionais para verificar o cumprimento da nova regulamentação após o término do período de transição em maio de 2027)”, aponta a análise do Bradesco BBI.
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A longo prazo, contudo, o cenário pede cautela. O Morgan Stanley frisa de forma indireta que a cobertura da mídia e a disposição do governo indicam uma escalada nas exigências de qualidade, o que deve gerar custos operacionais crescentes e expandir os requisitos de entrega presencial, restringindo a oferta dessas vagas ao longo do tempo.


