Fluxo de capital retorna aos EUA: emergentes sofrem risco de correção?

Analistas preveem ajuste no preço dos ativos de risco; no Brasil, real apreciado e boas perspectivas devem manter fluxos

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SÃO PAULO – “Se o rali do dólar se tornar mais amplo, ele vai pesar nas bolsas dos mercados emergentes, já que elas beneficiaram-se consideravelmente no ano passado do carry trade da divisa norte-americana”.

A afirmação do BCA Research retoma um discurso carregado por diversos acadêmicos no ano passado de que a forte alta nos ativos de risco dos mercados emergentes, impulsionada pelos empréstimos em dólares para a arbitragem com taxas de juros, seria invertida assim que a moeda voltasse a subir.

O grande problema é que a valorização das bolsas nos mercados emergentes em 2009 teve como raiz a entrada expressiva de capital estrangeiro. Um capital que, com a apreciação do dólar, pode mudar de destinação. Isso porque a alta da moeda norte-americana pode anular os ganhos acionários dos investidores em moedas locais ou mesmo impor um custo pesado de hedge para se protegerem dessa variação, como explica Sidnei Nehme, diretor-executivo da NGO Corretora de Câmbio.

Trazendo a ideia de uma re-precificação do risco devido ao fortalecimento do dólar, os analistas do BCA não estão sozinhos. Ecoando o pensamento, os economistas do Natixis Patrick Artus e Luca Silipo ressaltam a possibilidade de uma normalização no preço dos ativos de mercados emergentes, uma vez que o fluxo de capital está voltando para os Estados Unidos.

Emergentes caros, EUA em foco
“Nós podemos ver alguns sinais de que os fluxos de capital internacional estão retornando aos Estados Unidos, por diferentes razões: maior confiança na economia norte-americana (talvez erroneamente), valorização excessiva nos mercados emergentes, preferência por liquidez e crise na Zona do Euro”, explicam os analistas do Natixis.

Para o banco francês, as consequências desse retorno do fluxo para o mercado norte-americano são significativas. A primeira delas é o fortalecimento do dólar por si só, acompanhando a redução do déficit comercial dos Estados Unidos. Disso surge a expectativa de que os bancos centrais dos emergentes poderão reduzir o acúmulo de reservas estrangeiras, feito de forma a conter a apreciação de suas próprias moedas. E, por fim, com a redução desse acúmulo, a liquidez global seria menos abundante.

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“Isso significa que há uma probabilidade de que haja uma correção para baixo nos preços dos ativos, devido à redução na oferta de moeda – algo que ainda não pode ser visto”, argumentam os economistas do Natixis.

Para o Brasil, o discurso é outro
Embora a perspectiva faça sentido em relação ao cenário brasileiro, não é bem nessa toada que os analistas do País se manifestam. A começar pelo fato de que uma forte apreciação do dólar não está no cenário prospectivo de todos. “O real será sustentado através de grande parte do período prospectivo por influxos grandes de capital à procura de oportunidades de investimento, arbitragem de taxa de juros e dinâmicas saudáveis de dívida e crescimento econômico”, afirma a Economist Intelligence Unit, prevendo uma taxa de câmbio média para este ano em R$ 1,82, acelerando no fim do ano.

Da mesma forma, Sidnei Nehme, da NGO Corretora, acredita que o preço de equilíbrio da moeda norte-americana seja no entorno de R$ 1,80 no curto e médio prazo, com um viés de alta no final de 2010, podendo ficar entre R$ 1,85 e R$ 1,90. Porém, isso é uma perspectiva apenas para o médio prazo.

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“No curtíssimo prazo entendo que o Banco Central tenha interesse em ter o dólar com preço depreciado, como está ocorrendo, para que obtenha deste preço alguma contribuição no combate à inflação”, explica Nehme, ressaltando as pressões de alta nos preços devido ao forte nível de expansão da atividade econômica brasileira.

Segundo ele, o BC induz esta apreciação realizando compras no mercado de câmbio à vista em volume maior do que o fluxo cambial e, assim, acaba por deixar os bancos com posições vendidas. Este posicionamento dos bancos tem grande poder de apreciar o real, de acordo com Nehme, porque os bancos, vendidos, recorrem às linhas externas para captar dólares a custos irrisórios e vender ao Banco Central em troca de real. O problema é que há uma variável no custo dessas instituições: a taxa cambial.

“Este fator induz os bancos a apreciarem o real, focando assim transformarem aquele eventual custo variável numa receita (vendem dólares numa taxa mais alta do que o preço de reposição posterior), que pode ser tão expressiva a ponto até de anular o custo do juro da linha. Isto me parece estar acontecendo no momento”, conclui.