Sinais opostos

Financial Times se diz confuso com mudanças do câmbio brasileiro na semana

Jornal britânico estranha sinais controversos do governo, mas Barclays indica que combate à inflação leva governo a perseguir novo patamar para o câmbio, a R$ 1,95 no curto prazo

SÃO PAULO – Desde o início desta semana o governo brasileiro surpreendeu o mercado ao intervir no câmbio e levar a moeda norte-americana para uma cotação abaixo dos R$ 2,00. Esse movimento confundiu não apenas o mercado, já que o banco central até então trabalhava com uma banda cambial mais desvalorizada, mas também foi visto com incertezas pelo Financial Times.

“Tentar entender o que Guido Mantega planeja pode ser exaustivo, especialmente quando se trata de seu tópico favorito: guerras cambiais”, escreve a publicação britância, por meio do blog Beyond Brics.

O jornal britânico destaca que na terça-feira a moeda norte-americana caiu para menos de R$ 2,00 pela primeira vez desde julho, diante das preocupações de que uma moeda fraca adicionaria mais pressão à inflação brasileira.

Na quarta-feira o ministro da Fazenda, Guido Mantega, declarou que estava pronto para corrigir qualquer movimento excessivo da moeda, esclarecendo que uma moeda desvalorizada faria a indústria doméstica mais competitiva, o que levou a moeda a devalorizar no início do dia.

Ele também disse que a moeda continuaria a flutuar livremente, desde que em uma banda apropriada. “Um comentário quase tão sem sentido quanto a recente promessa do banco central de que a inflação iria ‘convergir de um modo não-linear’ para o centro da meta”, ataca o Financial Times.

Contudo, no final da quarta-feira o banco central interveio no mercado e vendeu dólares no mercado futuro, fazendo com que a moeda brasileira se valorizasse novamente e fechasse próxima da estabilidade.

O Financial Times diz que essas indicações opostas podem levar a três mensagens distintas: o governo quer valorizar o real de modo gradual, para desacelerar a inflação, e nesse cenário o aviso de Mantega seria para evitar qualquer movimentação exagerada diante da intervenção do banco central; o governo avalia que o real está no nível apropriado e manda sinais contraditórios para estabilizar a moeda; ou o governo não tem ideia do que está fazendo.

Barclays responde: governo combate a inflação e persegue novo patamar
Para a equipe de análise do Barclays, o governo brasileiro mudou de ideia e deve permitir uma valorização do real sobre o dólar no curto prazo.

Como a inflação tem se tornado um risco mais evidente – conforme a própria ata do Copom indicou recentemente, a inflação tem se tornado uma preocupação maior para o governo -, os analistas do banco britânico acreditam que o câmbio poderá ser usado para mitigar parte deste risco.

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Dessa forma, eles veem o dólar a R$ 1,95 em um mês e a R$ 2,00 nos próximos doze meses. A afirmação de Mantega, de que está pronto para corrigir movimentos excessivos, faz referência a intenção do ministro de corrigir apenas parte do risco inflacionário pelo câmbio, já que ele continua focado em ajudar a indústria, uma vez que admite que as exportações continuam sendo um problema. Assim, não aceitará grandes valorizações do real.

Uma moeda a R$ 1,95 já ajudaria a eliminar 0,2 ponto percentual da inflação, ajudando a conter as crescentes expectativas inflacionárias, avalia o Barclays.