Fed sugere manutenção do juro, Taylor vê alta iminente: qual o próximo passo?

Baseados na regra de Taylor, um calcula juro básico ideal em -5% e o outro em 0,5% ao ano. A diferença está nos parâmetros

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SÃO PAULO – Não é raro ler relatórios de análise econômica sugerindo que, se fosse possível, o Federal Reserve continuaria baixando o juro básico do país, atualmente na faixa entre 0% e 0,25% ao ano. No final de abril, o jornal Financial Times publicou uma matéria afirmando que estudos do próprio Fed demonstraram um juro básico ideal do país em -5% ao ano.

Na semana passada, entretanto, o professor da Universidade de Stanford, John Taylor, surpreendeu os participantes de uma conferência do Fed de Dallas declarando que a autoridade monetária norte-americana poderá começar a elevar o juro básico em breve, já que a taxa apropriada é de 0,5% ao ano.

“O cálculo do Fed reportado no Financial Times tem tanto o sinal como o ponto decimal errado. Em contraste, meus cálculos mostram que nós podemos não ter tanto tempo antes que o Fed tenha que remover os excessos de reserva e elevar a taxa. Nós não sabemos o que acontecerá no futuro, mas há um risco lá e é um risco sistêmico”, argumentou Taylor.

A regra

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O que essas duas projeções têm em comum? Embora resultando em cifras completamente diversas, ambas são baseadas na chamada “regra de Taylor”, uma equação proposta pelo próprio John Taylor, em 1993.

A forma tradicional da regra sugerida pelo economista, explicada resumidamente, coloca o juro básico ideal como função da inflação e do hiato de produto, que representa o desvio percentual do PIB (Produto Interno Bruto) em relação ao PIB potencial.

Cabe ressaltar que a equação é utilizada pelos principais bancos centrais do mundo para determinar a taxa de juro ideal, porém traz diferenças básicas em relação ao peso que cada autoridade monetária dá para as duas variáveis.

As diferenças

Já que ambos os resultados derivam da mesma equação, por que tamanha diferença? “A única coisa que pode explicar tal divergência de visões são estimativas de crescimento potencial muito diferentes”, explica o Société Générale.

Taylor descreveu as suas projeções da seguinte maneira: “a taxa de inflação não é menor do que 1% dessa vez; ela é mais próxima de 2%, mas vamos supor que o Fed a imagine em 1%. O hiato de produto parece ser em torno de -4%”, o que, aplicado à regra, resulta em uma taxa de 0,5%.

Embora o artigo do Financial Times não tenha detalhado as estimativas que o Fed utilizou em seu estudo, os analistas do Société Générale lembram que as projeções do Gabinete de Orçamento do Congresso para o hiato de produto já atingem 6,5%.

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“Baseados nas nossas estimativas de crescimento, o hiato de produto deve alcançar 8% até o final do ano. A menor previsão de Taylor, de apenas 4%, sugere um produto potencial muito menor”, explicam os analistas.

O cenário futuro

A equipe de análise do Société Générale acrescenta que a diferença nas projeções indica a possibilidade de que Taylor esteja presumindo que a crise financeira já está reduzindo o crescimento potencial e continuará a fazer isso. “Isso poderia ocorrer primeiramente através da redução permanente da capacidade produtiva, tanto através do fechamento de fábricas ou através da depreciação e desinvestimento”.

Em seu cenário futuro, Taylor também vê a criação de um risco sistêmico através das medidas adotadas pelo Fed no combate à crise. Segundo ele, a expansão da folha de balanço do banco e a compra de ativos privados levarão a um déficit orçamentário. Dessa forma, a taxa de inflação necessária para fazer a proporção de dívida sobre o PIB voltar aos níveis de 2008 seria de 10% por cerca de 10 anos.

“Nós acreditamos que Taylor exagera no caso de necessidade de alta nas taxas básicas de juro. As taxas de longo prazo no momento estão altamente ancoradas pelas taxas de curto prazo, então se o Fed começar a aumentar as taxas de curto prazo, isso abriria um buraco em sua estratégia de redução das taxas de hipoteca”, observa o Société Générale.

Na opinião do banco, o primeiro movimento de alta no juro básico do Fed elevará a taxa para 1% ao ano, seguidos de aumentos de 50 pontos-base até os 2% ao ano. “Entretanto, o primeiro movimento ainda parece estar pelo menos a um ano de distância”, concluem os analistas.