Política monetária nos EUA

Fed sinaliza que redução de programa de ativos pode vir em breve; integrantes do Fomc veem alta nos juros já em 2022

Confira os principais destaques da decisão e do comunicado de política monetária divulgados pelo Fomc nesta quarta-feira (22)

SÃO PAULO – Como já esperado, o Federal Reserve manteve nesta quarta-feira (22) por unanimidade a taxa básica de juros dos Estados Unidos próxima de zero (entre 0% e 0,25%) em decisão do comitê de política monetária, o chamado Federal Open Market Committee (Fomc) desta quarta-feira (22). Contudo, indicou que os aumentos das taxas podem ocorrer um pouco mais cedo do que o esperado pelos integrantes do comitê, ao mesmo tempo em que reduziu significativamente suas perspectivas econômicas para este ano.

Junto com os movimentos amplamente esperados, as autoridades do Fomc indicaram que começarão a retirar parte do estímulo que têm fornecido durante a crise da Covid-19, mas sem sinalizar em que momento farão isso.

Já havia uma expectativa de que o cronograma do chamado “tapering”, ou a perspectiva para redução do programa de compra ativos pela autoridade monetária, que está atualmente na ordem de US$ 120 bilhões por mês, fosse anunciado somente na próxima reunião, de novembro.

“Se o progresso continuar como esperado, o Comitê julga que uma moderação no ritmo de compras de ativos pode ser garantida em breve”, disse o comunicado pós-reunião do Fomc.

Diante dessas expectativas, o comitê votou para manter as taxas de curto prazo ancoradas perto de zero. Mas, agora, a maioria dos membros vê o primeiro aumento nas taxas de juros acontecendo já em 2022.

Seis dirigentes esperam juros entre 0,25% e 0,50% em 2022, três esperam juros entre 0,50% e 0,75%, enquanto apenas um  dirigente espera juros entre 0% e 0,25% em 2023. Seis dirigentes esperam juros entre 1% e 1,25% em 2023 e três dirigentes esperam juro entre 1,5% e 1,75%

Contudo, o Fed sinalizou estar preparado para ajustar política como apropriado, se surgirem riscos.

Com relação às mudanças de projeções, a autoridade monetária elevou a estimativa da inflação este ano de 3,4% para 4,2% e de 2,1% para 2,2% em 2022, sinalizando que a inflação está elevada, mas em grande medida refletindo fatores transitórios. O Fed ainda elevou a projeção de núcleo da inflação para 2023 de 2,1% para 2,3%. Já para 2024, o núcleo deverá ser de 2,1%.

Em seu comunicado, o Fed destacou que as expectativas de inflação para o mais longo prazo continuam ancoradas na meta de 2%.

PUBLICIDADE

O BC americano reafirmou seu objetivo de buscar máximo emprego e inflação na meta de 2% no mais longo prazo. O conselho do Fed busca manter a inflação “moderadamente acima” de 2% por “algum tempo”, de modo que ela atinja a meta de 2% com o tempo e que as expectativas sigam bem ancoradas. “O Comitê espera manter uma postura acomodatícia da política monetária até que esses resultados sejam atingidos”, diz o texto do comunicado.

Os dirigentes do Fed dizem ainda que, em sua política, levarão em conta uma série de informações, incluindo o quadro na saúde pública, as condições no mercado de trabalho, as pressões inflacionárias e as expectativas para esta, bem como o quadro financeiro e internacional.

Além disso, a autoridade monetária destacou que, com progresso de vacina e forte apoio político, dados e emprego seguem se fortalecendo, enquanto setores afetados por pandemia melhoraram nos últimos meses. Contudo, ressaltou que a pandemia retarda esse processo, reforçando que o Fed está comprometido a usar todos os instrumentos para apoiar a economia nesse ambiente desafiador.

O Fomc também vê o PIB dos EUA crescendo 5,9% este ano, em comparação com uma previsão de 7% em junho. No entanto, o crescimento para 2022 agora está projetado em 3,8%, em comparação ao dado anterior de 3,3%. Para 2023, a projeção é de 2,5%.

Falas de Powell

Após a decisão do Fomc, Jerome Powell, presidente do Fed, fez considerações à imprensa sobre os próximos passos do Fed, com um discurso a princípio considerado mais “hawkish” [duro, de aperto das políticas] ao sinalizar que o tapering já poderá vir no próximo encontro em novembro.

“Poderíamos facilmente começar o tapering dos títulos na reunião de novembro”, ressaltou, avaliando que, pessoalmente, não precisaria ver fortes números do relatório de emprego de setembro (a ser divulgado no começo de outubro) para apoiar a redução do programa de bônus.

Ele ainda apontou que a conclusão do tapering em meados do próximo ano pode ser apropriada.

Powell ressaltou que há grande consenso entre dirigentes sobre cronograma do “tapering” e que alguns dirigentes querem que a redução do programa de estímulos ocorra mais cedo, mas já manifestaram suas opiniões publicamente. ” Neste momento, compras de títulos contribuem menos para apoiar recuperação”.

PUBLICIDADE

Ele ainda ressaltou que, quando for iniciado o “tapering”, o Fed ainda estará distante das metas para elevar juros, reforçando também que não há grande desacordo entre os dirigentes sobre a trajetória das taxas.

Ao falar sobre a crise da dívida da gigante do setor imobiliário chinesa Evergrande, Powell apontou que a situação parece algo bem particular da China, mas ressaltou que pode haver algum efeito na confiança, ainda que não veja um impacto direto nos Estados Unidos.

Análise

Segundo João Leal, economista da Rio Bravo Investimentos, dois pontos chamaram a atenção no Fomc de hoje.

O primeiro, no comunicado, em que os membros destacaram que o tapering estaria próximo, reforçando que a redução de estímulos monetários poderia acontecer em novembro ou dezembro. A segunda, nas projeções para o juro americano, com os membros esperando uma alta em 2022 e um juro mais elevado em 2023. As projeções de inflação também ficaram acima da meta de 2% até 2024.

Já na fala à imprensa, Powell também destacou que há um consenso para começar o tapering no futuro próximo e que pode já iniciar em novembro se a economia evoluir como o esperado. Sobre os objetivos, destacou que os membros avaliam que a inflação já atingiu o que era esperado e alguns membros já veem o mercado de trabalho próximo do objetivo.

“Essas falas não eram amplamente esperadas pelo mercado, o que trouxe um peso hawkish para a decisão de hoje. Por ora ainda esperamos que o anúncio oficial ocorra em novembro e que o tapering comece em dezembro, mas há chances desse processo ser antecipado”, avalia Leal.

Já no final da apresentação, contudo, Powell ressaltou que o tapering será muito gradual e ainda não foi decidido o período, nem o ritmo.

Analista TOP 3 em rentabilidade de curto prazo compartilha seu método exclusivo na Bolsa

PUBLICIDADE