Fed: manutenção do balanço não é sinal de nova rodada de medidas de estímulo

Para analistas, anúncio foi consistente com expectativa, e deve ser acompanhado de redução de projeções na ata

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SÃO PAULO – Diferentemente das últimas reuniões, o foco dos debates acerca do comunicado do Federal Reserve não é a frase “manter a taxa de juro em um patamar extremamente baixo por um extenso período de tempo”. Tampouco se esperam medidas de aperto monetário, na temida estratégia de saída. Desta vez, o centro das discussões são as medidas de estímulo à economia.

Na véspera, o Fomc (Federal Open Market Committee) disse em seu comunicado que o cenário econômico está mais fraco, com a atividade norte-americana se recuperando em um ritmo menor do que o previamente esperado. “O comunicado mostrou que o Comitê tem muito pouca confiança na saúde da recuperação”, ressaltou Michael Feroli, do JPMorgan.

Com isso, o banco central norte-americano decidiu que irá manter constante o atual patamar de alguns tipos de ativos securitizados sob sua posse, reinvestindo o pagamento do valor principal que receber dos títulos de dívida lastreados em financiamento hipotecário e também de títulos com lastro em Treasuries de longo prazo.

2º round?
A LCA Consultores e a MCM Consultores qualificam a ação do Fed não exatamente como uma nova rodada de medidas de flexibilização, mas sim como uma interrupção do enxugamento do balanço.

“Não é o 2º round da flexibilização quantitativa ainda, mas é um começo”, afirmou a equipe do Société Générale após o comunicado da autoridade monetária. Para o banco, foi um passo “modesto”, que deve ajudar a manter estável a curva de juros entre dois e 10 anos, e diminuindo ainda mais os juros hipotecários e de empréstimos. “Isso ajudará marginalmente, mas o consumidor não tem respondido bem às já baixas taxas de hipoteca”, afirma o banco francês.

Essa decisão de reinvestir o principal em Treasuries de prazo mais extenso é “notável”, segundo o banco, já que o Fed tipicamente tenta não interferir na curva de yield. Com a medida, o balanço do BC deve ficar em US$ 2,3 trilhões.

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Para o Société, o Fed atendeu em parte às expectativas do mercado – visão compartilhada por Jeffrey Rosenberg, do Bank of America Merrill Lynch. “Caso isso não acontecesse, o portfólio do Fed poderia recuar em cerca de 15%, um aperto implícito que o BC não pretende permitir”, explica o analista.

O Fed de Nova York, de acordo com o analista, já afirmou que essas compras deverão ficar na curva entre dois e 10 anos – “exatamente onde o maior rali na curva de Treasuries vem ocorrendo desde o final de junho”, diz o BofA ML. Isso, segundo o banco, sugere que o movimento do BC foi, em parte, antecipado pelo mercado.

“Em março passado, o gerente da mesa de Mercado Aberto do Fed de Nova York estimava que entre aquele mês e o final de 2011, cerca de US$ 200 bilhões de ativos securitizados em hipotecas e dívidas das agências serão resgatados. Esse valor corresponde a uma média mensal de apenas US$ 10 bilhões. Como se pode perceber é uma quantia modesta e que deverá ter impacto modesto na economia”, avalia a MCM.

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Entretanto, um 2º round pode não estar tão próximo. “Nossa percepção é que o apetite do Fed por outra rodada de compra de ativos trilionária ainda é baixo”, explica o JP. A visão é compartilhada pelo Bank of America Merrill Lynch.

“Para que haja uma nova rodada de flexibilização quantitativa, o Fed teria que reduzir drasticamente suas perspectivas, passando a apontar um risco significativo de deflação”, explica o banco.

Projeções em queda
Segundo o Société Générale, a avaliação do Fed para a economia veio em linha com as expectativas, com menções à desaceleração da recuperação do PIB (Produto Interno Bruto) e do mercado de trabalho. “O Fed não prevê um double dip, mas a recuperação no curto prazo será mais moderada do que se pensava”, escreve o banco.

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Para a MCM, as mais recentes projeções de crescimento do Fed devem ter sido reduzidas novamente na reunião de agosto – assim como ocorreu na última reunião.

Avaliando o discurso do Comitê, o BofA ML nota que o Fed não alterou de maneira significativa suas perspectivas para além de 2010 – mais um sinal de que não está prestes a lançar uma nova rodada de medidas de flexibilização.

“É forçoso reconhecer, todavia, que as chances de o horizonte de reversão da política monetária ser mais distante do que ora estimamos são largamente maiores do que as chances de essa reversão ser antecipada”, completa a LCA.

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Linguagem: período extenso e mercado financeiro
“A atividade econômica se desacelerou, de acordo com o comunicado do Fomc. Nós concordamos”, escreve Diane Schumaker-Krieg, do Wells Fargo. “Considerando o estado do mercado de trabalho, essa decepção com o ritmo da retomada é compreensível, mas a mudança de tom do chairman desde seu último discurso no Congresso é substancial”, afirma o JPMorgan.

O analista do JPMorgan avaliou que o parágrafo referente ao crescimento se mostrou mais pessimista, não somente dizendo que o ritmo da recuperação da atividade se deteriorou, mas que deve ser mais modesto no curto prazo do que antes se antecipava.

“Pela primeira vez no ano as condições do mercado financeiro não foram mencionadas”, aponta ainda o analista do JPMorgan. O ponto foi notado também pelo Société Générale, que disse que a decisão indica que o Fed ou não considerou as condições do mercado especialmente relevantes no atual contexto ou não soube caracterizá-las.

Já sobre a famosa frase, o BoFA explica: “as revisões para baixo das projeções já indicam que as taxas de juro permanecerão baixas por um bom tempo. Não esperamos que eles revisem essa linguagem a não ser que suas perspectivas se deteriorem”.

Já em relação ao balanço do BC norte-americano, o JPMorgan destaca que, como as comunicações nesse sentido têm sido esparsas, “a confusão pública sobre os objetivos da política do Fed deve continuar”.