Faz sentido o dólar seguir em alta mesmo com o aumento da Selic?

Moeda saltou para R$ 2,14 mesmo após Copom elevar taxa básica de juro brasileira para 8,0% ao ano e o mercado projetar novas altas nas próximas reuniões

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SÃO PAULO – A disparada do dólar comercial nas últimas semanas favoreceu para que a moeda fechasse maio com alta de 7,0%, a maior desde setembro de 2011. Nem mesmo a elevação de 0,5 ponto percentual na taxa Selic, ocorrida na última quarta-feira (29), fez com que essa valorização perdesse forças – o juro brasileiro mais atrativo para o investimento em renda fixa poderia atrair mais dólares para o País, o que poderia derrubar a cotação da moeda. 

Considerando o atual cenário externo, com a crise na Europa e o risco de fim do pacote de estímulos à economia dos EUA, a elevação da Selic para 8% ao ano aumentaria a diferença entre a taxa de juro brasileira e a das principais economias internacionais. Porém, mesmo assim, na sexta-feira (31) a divisa ainda teve forte valorização (+1,48%) e chegou a ultrapassar o patamar de R$ 2,14.

O movimento recente de alta do dólar não foi exclusividade do mercado brasileiro, com os temores do fim do Quantitative Easing III nos EUA, o mundo todo passa a trabalhar com a ideia de que aproximadamente US$ 40 bilhões deixarão de entrar no mercado todo mês. Para os analistas da Itaú BBA, este é o principal fator que leva o dólar a se manter em alta, algo que nem um aumento mais agressivo da Selic consegue mudar.

Mesmo com esse cenário no exterior, a segunda-feira (3) foi de correção para a moeda, que fechou em queda de 0,71%, para R$ 2,1272 na venda. Este movimento seguiu a declaração do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de que o Brasil está preparado para lidar com o impacto da saída do plano de estímulos dos EUA devido a reservas internacionais fortes e um setor financeiro com baixa exposição a riscos de câmbio. Em outras palavras: enquanto o Fed joga o dólar para cima frente o real ao ameaçar terminar o QE3, o BC controla isso ao falar que “isso não é um grande problema”. 

Os analistas do Itaú acreditam que não há muito espaço para uma maior depreciação do real. Por outro lado, o mercado entende que dificilmente a moeda norte-americana voltará para patamares abaixo de R$ 2,10 no curto prazo. O banco ainda espera que o Banco Central intervenha no mercado cambial e que o governo retire o IOF (Imposto sobre operações financeiras) das transações financeiras, o que facilitaria a entrada de novos investidores, podendo ajudar para novas quedas da moeda.

Inflação e PIB
Apesar de novas intervenções do governo, incluindo a possível redução do IOF, o cenário da economia nacional pode não favorecer tanto a entrada de investidores estrangeiros no País. Na última semana, a divulgação do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro desanimou o mercado ao registrar crescimento de 0,6% do País, ante uma expectativa de 0,9%.

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Outro ponto que tem chamado bastante atenção do mercado é a inflação, que atualmente é a grande preocupação do governo da presidente Dilma Rousseff. Mesmo com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmando que esta desvalorização do real ajuda a criar uma indústria mais forte, caso a moeda norte-americna suba ainda mais, a batalha contra a inflação poderia ser prejudicada, já que um real mais fraco pode tornar os produtos importados mais caros, levando os preços aqui no País para cima. Jogar o dólar para baixo, portanto, pode ser a saída de Brasília para a atual comoção nacional com a escalada de preços.   


Repórter de mercados do InfoMoney, escreve matérias sobre ações, câmbio, empresas, economia e política. Responsável pelo programa “Bloco Cripto” e outros assuntos relacionados à criptomoedas.