Falta de planejamento dificulta a vida dos micro e pequenos empresários

Sem planejar o fluxo de caixa, muitas MPEs passam por dificuldades e correm o risco de fechar as portas

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SÃO PAULO – Ser empresário, seja grande, pequeno ou micro, é, antes de tudo, ser um estrategista. É necessário planejar com muito cuidado como entrar no ramo de atuação escolhido, como montar e operar a empresa, como vender seus produtos ou serviços e, principalmente, planejar a saúde financeira da empresa.

Infelizmente, a realidade das MPEs brasileiras é de grandes transtornos quando se fala de planejamento financeiro, de como as empresas lidam com pagamentos e recebimentos. Por conta de um descompasso nessas entradas e saídas, muitas empresas ou já fecharam as portas ou vão fechar no futuro próximo.

A realidade nua e crua

Uma recente pesquisa do Sebrae, feita com 411 MPEs do estado de São Paulo revelou dados alarmantes, principalmente quanto ao planejamento, ou melhor, falta de planejamento financeiro de grande parte dessas empresas.

O descompasso entre as datas de recebimentos e pagamentos é algo muito comum entre as MPEs, tornando comuns os saldos negativos em caixa e obrigando muitas delas a contraírem empréstimos onerosos, não raro sob o nome dos proprietários.

Muitas empresas também se vêm obrigadas a atrasar o pagamento de fornecedores, impostos e contas em geral, simplesmente porque somente irão receber de seus clientes algumas semanas ou meses no futuro. Tudo isso contribui para o aumento dos custos da empresa, com o pagamento de juros e multas, além de tornarem a administração mais difícil.

Segundo a pesquisa do Sebrae, 57% das empresas entrevistadas afirmaram ter mais despesas à vista que a prazo, sendo que somente 48% delas afirmaram ter mais receitas à vista do que a prazo, ou seja, muitas empresas têm de pagar à vista enquanto só receberá a prazo.

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A dimensão do problema

Segundo o Sebrae, considerando o volume total de recursos financeiros movimentados pelas empresas pesquisadas, para o prazo de até dois meses, 69% se tratava de pagamentos a prazo e 51% de recebimentos a prazo, o que significa que 8% dos pagamentos estão a descoberto.

Para o prazo entre dois e três meses, os pagamentos somam 18% e os recebimentos 15%, ou seja, 3% de pagamentos à descoberto. Para prazos acima de três meses, a situação se inverte drasticamente, tendo como pagamento somente 13% e 35% de recebimentos.

A análise desses dados é simples e dá a dimensão do problema do descompasso entre pagamentos e recebimentos para as MPEs. Por falta de planejamento financeiro e de fluxo de caixa, as empresas concentram seus pagamentos a prazo em períodos que variam entre o presente e os três meses seguintes, 87% contra 66% de recebimentos no mesmo período.

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Cheque pré-datado é o maior vilão

Em face desses resultados, os empresários que participaram da pesquisa foram questionados quanto às formas de pagamento aceitas para as vendas a prazo e nada menos que 70% do total são representados por cheques pré-datados.

Esse volume expressivo é facilmente explicado pela liberalidade de muitas MPEs quanto a essa modalidade de pagamento, estendendo em demasia os prazos de pagamentos como forma de alavancar as vendas, uma solução bastante arriscada.

Considerando que o volume de cheques devolvidos em maio desse ano por falta de fundos chegou a 15,9 mil cheques em cada lote de 1 milhão de cheques, é possível se ter uma dimensão do risco enfrentado pelas MPEs.

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A segunda forma de pagamento mais usada é ainda mais preocupante. Trata-se do velho e conhecido fiado, a forma de pagamento usada para pagar 30% das vendas. As formas mais seguras como boleto bancário e cartão de crédito empataram no terceiro lugar, com 23%.

Prejuízo é realidade de muitas empresas

A pesquisa mostra uma realidade perversa, tendo no período em que foi realizada a pesquisa, 23% delas o caixa no vermelho, ou seja, com despesas a serem quitadas superando os recebimentos. Outros 40% afirmaram ter recebimentos iguais aos pagamentos, ou seja, não tendo lucro ou prejuízo.

Do total de empresas pesquisadas, menos da metade delas, mais exatamente 43%, afirmaram estar em situação confortável, com recebimentos maiores que os pagamentos a serem feitos.

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Considerando que as MPEs não dispõem de recursos ociosos que possam ser usados para atenuar desequilíbrios de caixa e que também não tenham tanta facilidade de contratarem linhas de crédito mais baratas, dados como os apresentados por essa pesquisa explicam a grande taxa de mortalidade de MPEs nos primeiros anos, ou mesmo meses, de vida.

O planejamento financeiro e de fluxo de caixa é de suma importância para a saúde da empresa e deve ser cuidadosamente planejado e monitorado. Muitas vezes, maiores vendas não significarão maiores lucros, pois as dívidas sem recursos disponíveis para pagamento poderão matar a empresa antes que se tenha chance de receber pelo que se vendeu.