"Celeiro do mundo"

Falta de investimento e burocracia seguram potencial exportador do Brasil

"É preciso muito mais investimentos do que estamos fazendo hoje", disse o representante da FAO no Brasil, Alan Bojanic

É consenso entre os participantes do painel “Brasil: Celeiro do Mundo”, realizado nesta quinta-feira, 26, durante o Summit Agronegócio Brasil 2015, que é preciso novos investimentos para que a produção agropecuária do País atinja seu potencial para ser o maior exportador de alimentos na próxima década. “É preciso muito mais investimentos do que estamos fazendo hoje. E as condições do País podem atrair muitos investidores de fora”, afirmou o representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, Alan Bojanic.

Além de atrair novos investidores privados, Bojanic acredita que é necessário manter o apoio do governo. “Sabemos que os investimentos públicos não estão fáceis hoje, com a atual situação fiscal, mas o importante é tentar manter o nível atual”, disse ele no evento realizado pelo jornal O Estado de S. Paulo, com patrocínio da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp).

O presidente da Bunge no Brasil, Raul Padilla, afirmou que, em compensação, o auxílio dos órgãos públicos ao setor agropecuário pode ser feito também de outra forma, com a desburocratização das operações para as empresas. Ele citou que os investimentos em portos recentes vieram, em sua maioria, da iniciativa privada.

Já o professor titular da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz (Esalq/USP), José Vicente Caixeta Filho, acredita que é preciso definir melhor o papel dos agentes públicos e sua atuação nos investimentos necessários. “O agente precisa ter seu papel de regulador ou formulador de projetos, só que estes papeis não estão claros e definidos, o que causa uma série de incertezas para qualquer tipo de investidor”, disse. Para ele, o setor privado poderia ser o instalador desses projetos.

Logística
O presidente do conselho da Cosan (CSAN3), Rubens Ometto, destacou a perda de competitividade do agronegócio brasileiro com a logística deficitária. “O que ganhamos no campo, devolvemos nos portos e terminais, isso é um paradigma para o agronegócio brasileiro”, afirmou.

Ometto e outros participantes do evento disseram que a logística é o principal entrave para o desenvolvimento do setor no País. “Temos um malha ferroviária muito aquém do potencial. A prioridade inicial precisa ser terminar os investimentos que já tiveram início para que funcionem com eficiência e no segundo tempo começar a fazer os greenfields”, disse.

Para Ometto, um dos caminhos para impulsionar o setor é reduzir a intervenção do governo. “Não podemos ter um governo muito partícipe neste negócio. Eu acredito na livre iniciativa. Quando há isso você resolve boa parte dos problemas, não há corrupção, cada empresário é responsável pelas coisas que faz”, afirmou.

Sobre a Rumo ALL (RUMO3), Ometto afirmou que a empresa tem apresentado resultados recordes, sem mencionar números. “É um trabalho que estamos levando muito a sério e que também vai ter muito investimento”, disse.

Atuação em conjunto
O diretor presidente da JSL Logística (JSLG3), Fernando Antônio Simões, defende que a iniciativa privada e o governo atuem conjuntamente para explorar soluções que melhorem o escoamento da produção do agronegócio no País. “As indústrias que tiverem solução própria precisam avançar e empresários de menor volume têm que se juntar, criar alianças”, comentou. “O governo tem responsabilidade, mas não esperemos a contribuição (para agir). Vamos melhorar o que já existe para soluções imediatas, e não de longo prazo”, afirmou.

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Para mostrar que há a possibilidade de melhorar o uso da infraestrutura já instalada, Simões cita dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Os números indicam que dos 30 mil quilômetros de malha ferroviária, seis mil quilômetros operam com densidade inferior a um trem por dia. A média de velocidade dos veículos no Brasil é de 25 quilômetros por hora, ante 80 quilômetros por hora nos Estados Unidos. “Antes de projetos que exigem aportes bilionários e prazos extensos, a prioridade é melhorar a malha já existente”, destacou.

O executivo afirma que 60% do transporte de carga no País acontece por meio das rodovias, mas que a idade média da frota de caminhões é de 19 anos. A dos norte-americanos é de sete anos. “Há cerca de 230 mil caminhões com mais de 30 anos de uso no País que precisam ser retirados de circulação”, disse, enfatizando que isso traz impactos ambientais, com maior emissão de poluentes, e sociais, com acidentes em rodovias.

O diretor presidente da JSL citou empresas que agiram para resolver gargalos de logística. O executivo afirmou que a Fibria (FIBR3) construiu terminais marítimos no sul da Bahia para transportar produtos ao Espírito Santo. A Veracel montou um porto a 60 quilômetros de sua nova fábrica em Porto Seguro, retirando 75 caminhões/dia da BR-101. “Não há gargalo logístico que segure o desenvolvimento do Brasil e a inovação da iniciativa privada”, disse.

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