Novos horários

Extensão do horário de funcionamento da Bovespa foi um “tiro no pé”?

BM&FBovespa cedeu parcialmente à pressão do mercado, mas solução não atendeu às expectativas e reacendeu descontentamento com uma parcela dos analistas

SÃO PAULO – Em meio aos apelos dos participantes de mercado, a BM&FBovespa (BVMF3) ampliou nesta primeira semana de dezembro o horário de funcionamento do pregão da Bovespa em 30 minutos, das 10h às 17h30 (horário de Brasília). Contudo, a solução não atendeu às expectativas e provocou uma chiadeira de uma parcela do mercado. 

As reclamações vieram desde meados de outubro, quando entrou em vigor o horário de verão brasileiro, que o volume negociado caiu por causa do descolamento entre os horários de funcionamento da Bovespa e das bolsas dos Estados Unidos. Antes do horário de verão, o encerramento do pregão da Bovespa coincidia com o de Wall Street. Agora, o mercado de ações norte-americano inicia suas atividades às 12h30 e encerra às 19h, horário de Brasília.

Há pelo menos sete anos, até 2011, a Bovespa sempre alterava o funcionamento nessa épocan em uma hora, com abertura às 11h e fechamento às 18h. Mas a mudança repentina neste ano já apresenta sinais visíveis. No mês passado, o volume financeiro movimentado no segmento Bovespa atingiu R$ 126,17 bilhões, queda de quase 14% na comparação com o período passado, enquanto o giro financeiro no after market bateu recorde em novembro – sendo o maior desde outubro de 2009. 

“A extensão de horário até agora não ajudou, já que essa meia hora a mais ainda não consegue acompanhar o fechamento das bolsas dos EUA. E, além disso, a parte da manhã fica totalmente à deriva, demonstrando como ainda somos dependentes do capital estrangeiro”, disse o analista Leandro Klem, da Trader Brasil.

Os investidores ficam no aguardo da abertura das bolsas norte-americanas para dar início às negociações por aqui, e, por isso tem sido normal vermos uma forte oscilação do Ibovespa em dois momentos: nos primeiros minutos de negociação – por conta da menor liquidez com a ausência de estrangeiros – e por volta das 12h30, quando abrem as bolsas dos Estados Unidos. “Como está descolado, é aconselhado esperar pela abertura das bolsas dos EUA na primeira hora e meia de negociações do mercado doméstico”, reforça Klem.

Conflito de informações
A intenção da bolsa e corretoras que participam da Câmara Consultiva de Operações pode ter sido boa em aumentar o horário, mas o “delay” de uma hora entre o fechamento daqui e dos EUA continuam “atrapalhando” o Ibovespa, principalmente em virtude do aumento de volatilidade, disse o analista João Pedro Brugger, da Leme Investimentos. 

“Em dias que as bolsas dos EUA mudam de direção na última hora de pregão, no dia posterior o Ibovespa tende a corrigir essa defasagem, mas fica dividido entre a mudança no fim da sessão do dia anterior e as notícias do dia corrente”, argumenta. 

Historicamente, o horário de verão sempre trouxe problemas para o mercado. Esse ano houve uma tentativa de mantê-lo inalterado, mas foi pior do que vinha ocorrendo, disse o analista Adriano Moreno, da Futuro Investimentos. 

Procurada pelo InfoMoney, a BM&FBovespa não respondeu às solicitações de entrevista. 

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Mais 30 minutos: solução ou novo problema?
Inicialmente, a bolsa decidiu não alterar o horário numa tentativa de evitar ampliar os custos fixos das instituições, que sofrem com a fuga dos investidores do mercado, especialmente as pessoas físicas. Porém, a solução mais atrapalhou do que contribuiu com o mercado, já que a liquidez da BM&FBovespa ficou prejudicada no período. 

“O volume negociado caiu muito na Bovespa, principalmente por perder uma parcela de investidores e analistas que negociam com ADRs (American Depositary Receipts), e operam com a distorção dos preços dos ativos no mercado interno e externo”, comenta Moreno.

Essa ampliação do funcionamento em 30 minutos tenta buscar um meio termo entre os que defendem um horário enxuto para poupar custos e os que são a favor de um pregão mais longo, em linha com o horário de Wall Street. Mas a decisão até agora parece não ter encontrado muitos adeptos no mercado, nem mesmo os próprios investidores. Na página da InfoMoney no Facebook, a maior parte dos leitores mostrou descontentamento com a diferença do horário e não viram grande efetividade no que foi anunciado pela bolsa.