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SÃO PAULO – O Brasil “deu certo” economica e politicamente. Essa é a premissa do filme “O Brasil deu certo. E agora?”, idealizado por Maílson da Nobrega, ex-ministro da Fazenda e sócio-consultor da Tendências Consultoria, e dirigido por Louise Sottomaior. Depois de derrotar uma ditadura, garantir um governo democrático e mostrar diversos avanços econômicos – como acabar com a inflação galopante e incluir a classe “C” no mercado consumidor – o Brasil está no que Nobrega chama de “antessala do clube dos países ricos”.
Mas o próprio ex-ministro da Fazenda destaca isso não quer dizer que o Brasil é um País rico: significa apenas que temos a chance de conseguir alcançar esse posto. “O Brasil tem tudo para ser um país rico e depende só de nós. Não sei se vai ser na próxima geração, nas próximas gerações, mas eu acho que a probabilidade de acontecer não é pequena”, afirma o economista em entrevista gravada para o Podcast Rio Bravo Investimentos.
Mas para isso, o governo brasileiro precisa assumir uma postura de manutenção dos avanços econômicos brasileiros e como Antônio Palocci, primeiro ministro da Fazenda de Lula, dizia: “cometer erros novos, não os erros antigos”. Agora, o medo de Nobrega é que o governo volte a cometer essas falhas, sobretudo após a gestão de Dilma voltar a controlar preços, esconder estatísticas – através da “contabilidade criativa” – entre outros erros já cometidos por governos passados.
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“Eles voltaram à ideia do conteúdo nacional como parte da política industrial, protecionismo com a criação de várias tarifas mais altas para importações, isso está arrebentando a coerência do sistema tarifário”, alerta o ex-ministro. Um dos erros mais graves do governo Dilma, porém, na opinião do economista é manter uma ação política sobre o Banco Central – eliminando a autonomia da instituição.
Para ele, quem segue o BC sabe que a instituição perdeu a autonomia perante o governo de Dilma – que tem destacado “juros baixos” como uma de suas realizações. “Recente ação do Banco Central para aumentar a taxa de juros é mais uma ação pragmática da presidente Dilma do que a sua conversão à ideia de um Banco Central com autonomia. Eu acho que ela permitiu que o Banco Central iniciasse um ciclo de política monetária que é mais forte até do que se pensava, porque ela está com o olho na eleição”, afirma.
Criatividade do governo é grande
Um dos grandes problemas do atual governo é a “criatividade” usada para maquiar as suas contas – e elevar, no papel, o “superávit primário”. “No absurdo, por exemplo, o governo desconta da despesa para efeitos de cálculo do superávit primário, as desonerações tributárias”, afirma.
“Se você levar isso ao limite, se um dia o governo disser assim ‘eu vou renunciar a toda a minha arrecadação’, o que seria um desastre fiscal, ele estaria cumprindo a meta. Nada aconteceria”, avisa. Mas o ex-ministro destaca que a população está monitorando essa situação, como sua própria consultoria, que calcula como o superávit primário deveria ser.
Mas há o que se comemorar
Mesmo assim, Nobrega acredita que há um ponto em que se comemorar – caso o BC realmente tenha elevado os juros para combater a inflação no País para elevar as chances de vitória de Dilma na próxima eleição, por mostrar maturidade da economia nacional. “Um país que tem instituições como as que o Brasil já tem, adquire a capacidade de detectar e corrigir erros. Na Argentina isso não está acontecendo. O governo segue ladeira abaixo errando e a Argentina não tem ainda as condições do Brasil para forçar o governo a rever suas estratégias”, avalia.
Com o nível institucional alcançado pelo Brasil, Nobrega acredita que dificilmente conseguirá “mudar o rumo” da política econômica brasileiro. “Eu costumo dizer que, no passado em que as instituições do Brasil eram frágeis, a classe média era muito reduzida, as instituições políticas eram quase primitivas, um mau governo no Brasil tirava o país do rumo. Agora, um governo que erra muito como agora, faz o país perder oportunidades”, ressaltando que em algum momento a trajetória de crescimento se recuperará.
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Mantega sobre pressão
Um dos pontos mais comentados na política econômica nacional é a continuidade de Guido Mantega no cargo de ministro da Fazenda – algo extremamente controverso, já que os resultados pouco tem agradado. A revista britânica The Economist recentemente ridicularizou-o, para qual Mantega respondeu com o que Nobrega acredita ser um “ataque sem muito sentido”.
Nobrega acredita que cedo ou tarde Mantega será cobrado pelos seus erros – e para se defender, tenta encontrar outros culpados para estes. “Ele está sob pressão, porque ele terá que reconhecer o fracasso de sua estratégia, claro que em uma atitude defensiva ele vai encontrando argumentos e esses argumentos costumam ser, eu diria para dizer o mínimo, ridículos”, avalia o ex-ocupante do cargo de Mantega.
Político brasileiro é ignorante em termos de economia
Para o ex-ministro, os políticos brasileiros não são muito esclarecidos em termos de economia – se forem avaliadas as propostas que saem do congresso. “Claro que aquilo tem muito de demagogia, mas eu diria que, subjacente à discussão está uma grande desinformação”, avalia o economista.
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E isso ocorre mesmo com a alta qualificação dos assessores legislativos brasileiros, na opinião de Nobrega, mas representando o baixo do conhecimento da população. “Não devemos nos surpreender porque o Congresso é uma representação da sociedade. Se a sociedade tem 60% de desinformados em matéria de educação, talvez mais em economia, muito mais do que isso, também o Congresso tenderá a refletir”, salienta.
Lucro de estatal só para gerar superávit
Outro tema que chama a atenção do ex-ministro é o uso das estatais para criar “manobras” orçamentárias. Este é o caso do BNDES: o governo toma recursos do mercado, pagando a Selic (8,5%) e empresta ao BNDES 3% ou 4%. O banco então empresa empresta a 4%, 5% e tem lucro com essa operação, pagando dividendos ao tesouro. “É um malabarismo financeiro que todo mundo vai perceber”, acredita.
Ele destaca que Brasil não precisa de um superávit primário de 3,1% para estabilizar a relação entre sua dívida pública e o PIB (Produto Interno Bruto), um dos principais objetivos de se ter um superávit. “Nosso cálculo aqui na Tendência é que com 1,5%, 1,6% do PIB essa relação está estabilizada”, salienta.
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Governo perde mais de bolsa família com manobras
De acordo com Nobrega, chama a atenção o tamanho dos custos do BNDES e desse tipo de “manobra”: atualmente, o banco possui mais de 400 bilhões de reais em empréstimos, que geram custos anuais que só no BNDES deve andar por volta de 15 a 20 bilhões de reais – mais do que o custo do programa bolsa família. “E o objetivo social desse tipo de operação do BNDES não tem o menor sentido se você comparar o efeito social benéfico do Bolsa Família”, alerta o ex-ministro.
E isso vem ajudando a derrubar a credibilidade nacional – embora a maturidade institucional do Brasil permita com que elas sejam reerguidas. “O governo está desmontando instituições que levaram décadas, muito esforço para construir. Claro que eles não vão arrasar e em algum momento se restabelece isso”, avisa, lembrando que esta e outras medidas fizeram com que a Standard & Poor’s colocasse a classificação do Brasil em perspectiva negativa.
Ex-ministro aponta o secretário do Tesouro, Arno Augustin – o homem que deveria zelar pelas regras -, como “a sétima cavalaria” do governo, o grande incentivador desse tipo de medida. “Ele entra para resolver todas as batalhas e eles vão resolvendo tudo”, avisa – alertando que existem diversos efeitos prejudiciais do “uso inadequado da caneta do governo”.
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Dilma reproduz modelo econômico do governo Geisel
Dilma está reproduzindo o modelo do governo Geisel: começando com um processo de substituição de importações que gera uma indústria ineficiente combinada com a escolha de campeões nacionais que gera enormes desperdícios. “E a concentração de renda resultava, de um lado, na baixa prioridade atribuída à educação e, de outro, nas ineficiências geradas por uma economia fechada, sem nenhum incentivo relevante à inovação”, avisa.
Para Nobrega, a recente distribuição de renda no Brasil é reflexo do fim da inflação e da abertura econômica do País – além de maior eficiência na indústria e melhoras no sistema de educação nacional. “O governo está voltando atrás e criando mecanismos de concentração de renda. As estatísticas em algum momento vão provar isso”, alerta.
Economia norte-americana se recupera e real deve se depreciar
Na visão de Nobrega, a recuperação da economia norte-americana e fatores internos devem fazer com que o câmbio nacional continue a se depreciar frente o dólar. “Tudo isso caminha, do lado comercial, para um, talvez até, equilíbrio ou déficit ao invés dos grandes superávits comerciais do passado. E, por outro lado, a intervenção excessiva do governo na economia afugentou capitais”, avisa.
E se o câmbio continuar nessa direção, Nobrega acredita que muitas empresas vão se tornar inviáveis – como as que se endividaram em moeda estrangeira. “Sobretudo, isso é lamentável dizer, as empresas que apostaram no horizonte mais benigno. Eu não estou prevendo nenhum desastre, mas a gente vai ver algumas dificuldades de empresas que entraram nessa armadilha”, alerta.
Decepção com Dilma entre empresários
O economista salienta que há uma grande decepção com Dilma entre os empresários – algo generalizado nos ambientes em que ele frequenta. “A ideia de que ela era uma grande gestora, que ela ia atacar os grandes problemas do país, que ia puxar o desenvolvimento. Mesmo aqueles que ficaram contentes com ações políticas sobre o Banco Central, que reduziu a taxa Selic, agora estão vendo que foram longe demais, a taxa de juros voltou a aumentar”, destaca, dizendo que o ambiente é de pessimismo.
Nobrega, porém, acredita que esse pessimismo é passageiro, que em breve a situação vai se estabilizar e que continuará a apostar no Brasil para “entrar no clube dos países ricos”, no qual já está na antessala. É um seleto grupo: de um século para cá, apenas o Japão entrou nesse grupo, embora a Coreia do Sul também esteja próxima a entrar.