Evolução benigna da inflação deve levar Copom a manter Selic em 10,75% a.a.

No entanto, alguns agentes do mercado discordam de premissas que devem ser utilizadas pelo comitê na decisão

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SÃO PAULO – Em sua última reunião, o Copom (Comitê de Política Monetária) surpreendeu o mercado ao elevar a meta para a taxa básica de juros em 50 pontos-base, diminuindo o ritmo do aperto monetário que a autoridade vinha implementando até então. Na ata, o comitê expressou o aumento de relevância dos indicadores correntes para a tomada de decisão, com a desaceleração da inflação em foco, explica a Ativa. 

Houve melhora substancial da inflação corrente, com a expectativa de que o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) fique próximo a zero pelo terceiro mês consecutivo, lembra o Banco Schahin. Já o IPCA-15 acumulado nos últimos doze meses até agosto recuou para 4,44% – a primeira vez que o índice ficou abaixo do centro da meta desde janeiro. 

“A evolução mais benigna do cenário inflacionário deve permitir a manutenção da Selic no nível atual de 10,75% ao ano, interrompendo o ciclo recente de aperto”, aponta o Banco Schahin, em uma opinião que é praticamente consensual no mercado. O relatório Focus, que traz a mediana das estimativas compiladas pelo Banco Central, por exemplo, aposta em interrupção do ciclo de aperto na reunião que terminará na quarta-feira (1). 

Atividade econômica
Além disso, sustentam ainda a manutenção da Selic, na opinião do Santander, os indicadores de atividade econômica no segundo trimestre, segundo análise da economista Tatiana Pinheiro. As vendas do comércio varejista, por exemplo, cresceram apenas 0,06% na comparação trimestre a trimestre, enquanto a produção industrial frustrou expectativas, de acordo com o banco, ao marcar alta de 1,35% no segundo trimestre frente aos três primeiros meses do ano. 

O Copom apontou ainda, além da dinâmica interna, a piora do cenário externo como um dos motivos que justificaram uma alta mais branda da Selic. O Banco Schahin ressalta que o cenário externo sofreu deterioração nos últimos dois meses, com o enfraquecimento da recuperação da economia norte-americana, e mesmo a China apresentou sinais de desaceleração, o que aumenta a possibilidade de queda de preços internacionais nos próximos meses. 

Expectativas futuras
No entanto, nem todos acreditam que a decisão de interromper o ciclo de altas nesse momento está isenta de riscos. O próprio Schahin, por exemplo, lista as expectativas futuras para a inflação, que ainda se mantêm acima do centro da meta. De acordo com o relatório Focus, a projeção para o IPCA de 2011 é de 4,87%. 

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Além disso, o crescimento da massa salarial em julho foi de 8,4%, na comparação com o mesmo período do ano anterior, maior ritmo anual desde setembro de 2008. A Ativa acredita que seria mais apropriado uma alta da taxa básica de juros nesse momento, indicando entre os motivos a percepção de que a atividade deve apresentar forte recuperação ao longo dos próximos meses, com mercado de trabalho aquecido. Esse fator, aliado ao crédito fácil, deve fazer com que a economia continue a rodar em ritmo “muito acelerado”. 

No entanto, como o Banco Central deverá manter os juros para avaliar os efeitos da política monetária, é provável, na opinião da corretora, que a Selic termine o ano no atual patamar, “a não ser que nosso cenário de deterioração inflacionária se materialize de forma mais intensa”. 

LCA aposta em derradeira alta
O Santander trabalha com a mesma projeção, e prevê um comentário lacônico, “como foi feito em outros finais de ciclo de aperto monetário”. A LCA foi, dentre os agentes de mercado consultados pela InfoMoney, a única a apostar em mais um derradeiro aumento da Selic em 2010, em 50 pontos-base, embora a consultoria avalie que a manutenção da taxa em 10,75% ao ano “guarda probabilidade quase equivalente”.

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A mudança do discurso do Banco Central, no entanto, foi outro dos fatores que contribuíram para que houvesse dispersão tanto das expectativas para o aumento de preços quando para a trajetória da Selic no próximo ano. Assim, o mercado de juros futuros, por exemplo, já precificou manutenção da taxa básica de juros em 2010 e elevação mais amena do que o anteriormente previsto em 2011. 

A consultoria vê duas correntes de interpretação para a postura adotada pelo comitê. Uma, “mais otimista”, acredita que o potencial de crescimento é suficiente para dar conta da expansão da demanda, não colocando o cenário inflacionário em risco. A consultoria se inclui nesse grupo, argumentando que, a partir do terceiro trimestre deste ano, o PIB (Produto Interno Bruto) deverá caminhar em linha com o potencial de expansão, sem provocar, portanto, um descompasso entre oferta e demanda.

Perigos para 2011
O outro lado acredita que o Banco Central erra ao interromper o movimento de alta da taxa básica de juros. Com isso, o Copom terá que corrigir o erro, com nova sequência de aumentos no ano que vem, para dissipar riscos referentes ao cumprimento da meta para a inflação em 2011.

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É nesse campo que a Modal Asset Managemente se inclui, afirmando que ao insistir na hipótese de deflação importada e manter a Selic em 10,75% ao ano, o comitê incorrerá em riscos para a meta de inflação em 2011. Segundo a gestora, somente uma crise mais forte da economia mundial poderia gerar quedas mais pronunciadas dos preços das commodities e contribuir para o controle da inflação doméstica.

No momento, a alta do preço do trigo, por exemplo, por causa de uma onde de calor no hemisfério norte que levou a Rússia a restringir exportações do produto, causa forte impacto nos preços de grãos de uma maneira geral. “A forte alta dos produtos agrícolas pode indicar até mesmo pressão altista de curto prazo para a inflação doméstica, contrariando o cenário benigno para o setor externo” expresso na última ata. 

Além disso, a gestora acredita que o nível de consumo deverá continuar a sustentar a indústria doméstica, já que renda real, crédito e nível de emprego demonstram elevação na margem. Assim, na opinião da Modal Asset, a acomodação da atividade foi temporária e não indica tendência. 

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“A interrupção do processo de aperto monetário na reunião do Copom de setembro é, na nossa opinião, uma cartada de risco-retorno bastante duvidosa para o Banco Central, elevando o risco do não atingimento da meta em 2011 (mesmo com elevações de juros no começo do ano que vem)”, indica a Modal Asset. Por isso, o Copom deveria realizar novo aumento de 50 pontos-base da Selic em sua próxima reunião, conclui a gestora.