Crise

Europa se questiona se Grécia pode enfrentar default sem abandonar o euro

Em um mundo onde as negociações cambiais são realizadas em frações de segundo, gerenciar duas moedas diferentes traria muitos desafios

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Sem acordo à vista entre a Grécia e seus credores, alguns formuladores de política na Europa estão avaliando uma nova ideia: poderia o governo de Atenas decretar default em seus empréstimos de resgate e ainda assim manter o euro como sua moeda?

A linha de pensamento rompe com a visão tradicional de mais de cinco anos de crise da dívida, onde o choque de um default era visto como responsável por mandar a Grécia a uma rota inexorável de corridas aos bancos, controles de capital e, por fim, à saída da zona do euro.

Ainda assim, com o risco de um calote mais alto do que nunca, encontrar um caminho para evitar o caos de uma mudança de moeda na Grécia parece mais atraente. Isso poderia poupar a União Europeia do embaraço de ver um de seus membros sair da zona do euro e diminuir um pouco do pânico nos mercados que provavelmente se seguiria a um default.

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A ideia de manter a Grécia na zona do euro apesar de um default foi brevemente discutida por graduadas autoridades de Ministérios das Finanças da zona do euro na semana passada, ainda que a maioria delas tenha mostrado sérias dúvidas sobre se isso poderia funcionar, segundo pessoas familiarizadas com as conversas. “Não é exatamente um plano, mas uma evolução no pensamento”, afirmou uma fonte ligada às discussões com os credores gregos.

Os defensores do cenário de um default sem saída do euro em geral se dividem em dois campos: aqueles que acreditam que o choque de um default temporário poderia forçar o primeiro-ministro Alexis Tsipras a finalmente fechar um acordo com os credores; e aqueles que acreditam que uma saída imediata do euro motivaria o caos na Grécia e também para além do país.

“A Grécia não tem a capacidade de lançar uma nova moeda e organizar um Grexit”, afirmou um funcionário familiarizado com as discussões da semana passada, usando um termo popular para descrever a possível saída da Grécia da zona do euro.

Qualquer cenário onde a Grécia não consiga assegurar novos fundos de seus credores internacionais provavelmente resultaria no governo emitindo alguma espécie de moeda paralela para pagar salários e contratos do governo por algum tempo, mesmo que isso mantenha o euro como a baliza legal, segundo especialistas.

“É a resposta simples quando você fica sem dinheiro”, afirmou Harold James, professor de Princeton especializado na história financeira da Europa.

As moedas paralelas têm sido utilizadas há séculos. Na Idade Média, mercadores na Florença e na Holanda pagavam funcionários locais e fornecedores em moedas de prata, enquanto realizavam as transações maiores em ouro – sem uma taxa de câmbio fixa entre as duas moedas.

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Em um mundo onde as negociações cambiais são realizadas em frações de segundo, gerenciar duas moedas diferentes traria muitos desafios.

Como na Califórnia, onde foram emitidos documentos informais reconhecendo uma dívida (conhecidos pela sigla em inglês IOU), em 2009, quando um impasse orçamentário deixou o Estado dos EUA incapaz de pagar restituições de impostos, fornecedores e governos locais, a moeda paralela da Grécia tomaria provavelmente a forma de uma dívida emitida por seus próprios cidadãos.

O governo grego enfrentaria, porém, dúvidas imediatas sobre se a nova moeda seria em algum momento convertida em euros. O caso poderia então se parecer menos com a Califórnia e mais com o da Argentina, que decretou default de sua dívida soberana em 2002.

As entidade públicas enfrentando problemas orçamentários emitiram uma série de IOUs, que caíram para abaixo do valor de face por causa de dúvidas sobre sua capacidade de crédito e se a taxa de câmbio em relação ao dólar seria mantida – a taxa em relação ao dólar não era mantida.

Complicando mais a questão, Atenas também dependeria do Banco Central Europeu (BCE) – um dos primeiros credores que devem sentir a ruptura de um default – para prover pelo menos algum financiamento emergencial para ajudar os bancos gregos a sobreviver em meio à aceleração na retirada de depósitos.

Esse tipo de incerteza provavelmente levaria a uma imediata depreciação da nova moeda ante o euro, com um mercado paralelo onde euros em papel seriam negociados a um preço muito mais alto que o estabelecido pelo governo.

Se o governo ao mesmo tempo recorresse a controles de capital e impedisse os correntistas de retirar suas economias em euro, uma terceira taxa de câmbio poderia surgir, com diferentes preços para notas e moedas mantidas em depósitos bancários.

“É muito, muito disruptivo. As pessoas não farão transações que normalmente seriam feitas. Então a atividade econômica recuaria muito rapidamente”, disse James.

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As companhias estrangeiras também poderiam ser céticas quanto a fazer negócios com a nova moeda, levando à falta de produtos como remédios ou partes de carros e maquinário.

Talvez mais importante, manter uma moeda paralela digna de crédito forçaria o governo grego a fazer justamente a coisa que vem relutando: cortar gastos públicos. “A única maneira em que isso realmente funcionaria é se viesse com um programa fiscal rigoroso”, afirmou James.

Por isso a maioria dos economistas e muitos formuladores de política acreditam que, se a Grécia fosse por esse caminho, iria no fim ter de desistir do euro e a moeda paralela assumiria o controle. Em economia, o fenômeno é descrito como lei de Gresham: “O dinheiro ruim afasta o bom.”

“Nós não teremos o benefício de sair da zona do euro e ter nossa própria política monetária”, afirmou um funcionário envolvido nas negociações sobre as finanças gregas. Fonte: Dow Jones Newswires.