EUA não podem contar muito com juros para voltar a crescer

Conteúdo do Portal InfoMoney - Editoria Mercados

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15h30 – 06/08
Coluna do Tamer
Paris – Afinal, uma sexta-feira calma, sem rumores que tanto agitaram o mercado financeiro nos últimos dias. Ninguém mais falava em “agonia argentina” e tinha-se como quase certo que neste fim de semana haverá alguma decisão positiva, em Washington, a respeito de um desembolso imediato de US$ 1,2 bilhão para sustentar as reservas argentinas e que o FMI não tardará a confirmar um novo socorro ao governo De la Rúa. Ninguém também levou a serio o rebaixamento da dívida externa brasileira, anunciado pela Standard&Poor’s. Alguns bancos, na sexta-feira, chegaram mesmo a recomendar aos seus clientes que a compra de mais títulos da divida brasileira, que subiram de cotação.
Curiosamente, o que preocupou neste fim de semana foi o considerável recuo da inflação nos Estados Unidos, que a médio prazo pode ter efeitos adversos na produção industrial, no ganho as empresas e, conseqüentemente, no nível de emprego e na própria demanda futura. Esta pode ser classificada como uma “preocupação precipitada ou até mesmo exagerada”, mas estava na mente dos principais economistas e analistas de Londres e Nova York neste fim de semana.
Irracional?

O mercado financeiro internacional tem às vezes atitudes pouco racionais, mas com muita freqüência acerta nas suas previsões. O anuncio de uma redução de 0,9% dos preços ao consumidor, em julho, antecedida de outra queda, de 0,4%, no mês anterior, deu margem a interpretações de duas ordens: uma, que a demanda ainda está muito desaquecida, o que poderá levar a reduções maiores nos preços num caminho perigoso para o desempenho das empresas e no nível de emprego. O índice Nasdaq da bolsa americana caiu pelo sexto dia consecutivo, indicando que as empresas esperam ganhos menores e, conseqüentemente, menor distribuição de lucros aos seus acionistas – futuros compradores. Em julho, os preços ao consumidor registraram a maior queda, nesse mês, dos ultimo oito anos, e provavelmente deverão recuar ainda mais, “reforçando a percepção de que a economia não chegou ainda o fundo do poço”. “Isso é mau para o mercado acionário”, registra Dan Potanova, da Groupama Asset Management, empresa que administra um fundo de US $ 4,5 bilhões. Ou sejam, para as empresas, pode piorar antes de melhorar.
Juros no limite…

A segunda interpretação é que, a partir de agora, o Federal Reserve deverá administrar com maior cuidado a redução dos juros, temendo efeitos colaterais negativos sobre o mercado acionário. “O aperto dos lucros das empresas levará a um aumento do desemprego (com mais cortes além dos já anunciados) e finalmente a uma redução do consumo”, declara o economista Ian Morris, da Nomura Securities, que figura no quadro dos pessimistas, ou, como dizem, “mais cautelosos”. Pode ser contraditório a curto prazo, mas é algo que está sendo visto com cuidado a médio prazo.
…recuam, mas param

O Fed deverá reduzir novamente as taxas de juros, de 3,75% para 3,50%, na reunião do próximo dia 21, poderá ainda cortar mais 0,25 ponto na de 2 de outubro, mas provavelmente irá parar por aí. Esta era a opinião da maioria dos economistas não só da City, como de Wall Street também. Carol Stone, da Nomura Securities, acredita que o banco central americano “poderá reduzir os juros em até 3%,” e poucos admitem que ele chegue a 2,75%. O argumento é que as empresas americanas não podem contar nem neste ano nem no primeiro trimestre do próximo com um aumento da demanda externa em conseqüência da forte desaceleração da economia mundial e terão que continuar gerando dividendos no próprio mercado americano, que representa mais de dois terços do PIB.
No limite

Para todos, não há duvida de que o Fed está chegando ao limite de sua margem de uso da taxa de juros para estimular a economia interna. Alguns lembram que o próprio Greenspan chegou a falar, no Congresso, que juros de 3% continuaria sendo atrativo para os investidores externos, mas revelou também preocupação com um desaquecimento muito brusco da bolsa. Nenhum dos economistas dos principais bancos ouvidos pela agencia Bloomberg, desde o ABN Amro, o Bank of America até UBS Warburg, acredita que os juros baixem para menos de 3,25%. Na verdade, a maioria estima 3,50%.
“Eu, pessoalmente, até acredito que o Fed antecipe sua decisão de reduzi-lo em 0,25 ponto percentual, não esperando o dia 21, pois já tem todos os dados necessários nas mãos: economia crescendo menos, inflação criando mais, demanda ainda retraída, sinais de desemprego e dispensas provocadas pela redução das margens de lucros”, diz um analista de Londres. Mas acha difícil que ele chegue a 3%.
Buscando mercados

Em meio a essas discordâncias quanto à margem de manobra do Fed para reduzir os juros e estimular a economia, sem afetar o lucro das empresas, o efeito riqueza (gastos dos acionistas com os ganhos na bolsa) havia apenas um consenso: o Fed está no limite. A economia americana precisa buscar novos mercados para alcançar e sustentar nos próximos meses uma taxa de crescimento superior a 2%. Só que esses “novos mercados” – Europa, Ásia, América Latina – simplesmente não existem. Isso leva a maioria dos institutos de pesquisa e o próprio FMI acreditar num crescimento econômico pouco animador no próximo ano. Podem ser “elucubrações extemporâneas” de um mercado sem outro motivo de preocupação, mas é algo que já começa a ser visto com muita atenção. As empresas americanas continuam demitindo, e não parece algo mais além da redução dos juros para reativar a economia americana.
Sem Japão nem Ásia

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E falando em “novos mercados,” o Banco Central Europeu admitiu pela primeira vez que a desaceleração econômica européia é mais forte que ele imaginava (ora, ora…) e o governo japonês admitiu oficialmente, neste fim de semana que “em agosto a economia se deteriorou ainda mais…a produção industrial declinou substancialmente, (menos 0,7% em junho) e as exportações em doze meses já caíram 14%. A economia cresceu só 0,8% no primeiro trimestre, 0,1 em um ano, e não deve Ter nem sequer chegado a isso no segundo.
E os últimos índices de nível de crescimento anualizados do PIB nas principais economias asiáticas vão atrás do desaquecimento americano e a recessão japonesa: Coréia do Sul, 3,7%, Taiwan, 1,1%, Tailândia, 1,8%, Cingapura menos 0,8% e só a China se agüenta em 7,8%.
S&P só disse o que já se sabia…

Pesou pouco no mercado financeiro de Londres o anuncio da agencia Standard&Poor’s (S&P) reduzindo o rating da dívida brasileira de estável para negativa. Os títulos da divida, que haviam recuado na quinta-feira, chegaram até a recuperar-se neste fim de semana, com o C-bonds fechando no fim da tarde de sexta cotados a 72,75%.
“A explicação é simples: a S&P não divulgou nada de novo. Baseou-se para sua decisão em dados já conhecidos e absorvidos pelo mercado financeiro,” dizem os analistas. Para eles, mais importantes foram os sinais de abertura de um novo caminho para a crise argentina e a renovação do acordo do Brasil com o FMI.
“Vir agora falar que vai haver déficit, que a economia brasileira vai crescer menos em 2002 é repetir tudo o que está mais do que conhecido”, diz um analista. Para ele, o mais importante mesmo é que o governo brasileiro continue intensificando as medidas internas e externas para atenuar os efeitos superdimensionados do choque argentino e mostrar sinais de maior agressividade no comércio mundial.

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