EUA: ligeira melhora em indicadores é suficiente para uma dose de otimismo?

Não: corretora acredita que a queda abrupta da economia real pode gerar um novo ciclo de deterioração financeira

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SÃO PAULO – “Quando acaba a propagação financeira de choques reais?”. Com esta indagação os analistas do Itaú iniciam sua análise sobre o momento atual da economia dos EUA, que também contempla perspectivas para a mesma em meio aos desdobramentos da crise financeira internacional.

Começando com uma breve recapitulação, a equipe do banco lembra que as perdas no mercado imobiliário colocavam o sistema financeiro em situação de risco até setembro do ano passado, enquanto a economia real mostrava uma surpreendente resistência. Depois da falência do banco Lehman Brothers a situação piorou e ambos os indicadores financeiros e da economia real passaram a sinalizar uma deterioração grave da economia norte-americana.

Nas últimas semanas, porém, novamente o panorama econômico sofreu algumas alterações. A situação real da economia mostra-se crescentemente sombria, no entanto, importantes indicadores de estabilidade financeira esboçam alguma melhora de outubro de 2008 para o início de 2009.

Dentre eles destaca-se o Ted Spread (diferença entre as taxas de juros de três meses interbancárias e as taxas do tesouro americano), amplamente usado como medida de liquidez e risco de crédito no mercado interbancário, que caiu de 4,5% para 1,1%. Na mesma linha, a volatilidade implícita do mercado acionário, medida pelo VIX, caiu de 80% para 45% aproximadamente. Finalmente, as taxas de juros de hipotecas, commercial papers e títulos corporativos caíram significativamente no período.

É o suficiente para uma dose de otimismo?

O principal responsável por transformar a crise setorial imobiliária na atual
crise mundial foi a interrupção do funcionamento normal do mercado financeiro, explicam os analistas. Eles destacam que, segundo Ben Bernanke, a restrição no mercado de crédito teria sido o principal responsável por transformar a crise de 1929 na mais profunda depressão econômica norte-americana.

“Assim, seria essa melhora apontada suficiente para uma boa dose de otimismo?”.
Bernanke não só foi estudioso da grande depressão, como também contribui para esclarecer o papel dos mercados financeiros na propagação de ciclos econômicos, lembram os analistas.

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Explica ainda duas maneiras pelas quais choques reais são amplificados pelo sistema financeiro. A primeira é através da capacidade de financiamento. A capacidade de uma
empresa ou consumidor tomar empréstimos depende da qualidade de sua
posição financeira – medida por patrimônio líquido, liquidez, fluxo de
caixa esperado, entre outros. Assim, choques na economia real diminuem a saúde financeira dos agentes e reduzem o valor dos ativos usados como garantia, impossibilitando novos empréstimos e novos investimentos, o que gera um efeito amplificador.

O segundo modo de propagações de ciclos funciona através do mercado bancário. Os bancos funcionam como intermediários entre credores e devedores, coletando informações, contornando assimetrias de incentivos e monitorando os contratos. Essa relação cria capital em forma de informações. Assim, perdas financeiras e falências bancárias criam ondas de desintermediação do crédito, o que gera ineficiência na alocação interpessoal e intertemporal de recursos em toda a economia.

Não, infelizmente não é

Em outras palavras, a queda abrupta da economia real pode gerar um novo ciclo de deterioração financeira, assim como aquele gerado pelas perdas do
mercado subprime.

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As políticas de estabilização financeira, monetária e fiscal estão numa queda de braço com esse círculo vicioso. “Assim, a melhora parcial dos indicadores financeiros não dá, infelizmente, muita segurança para comemorar”, concluem.