EUA: incerteza ainda envolve o PIB, mas inflação elevada preocupa membros do Fed

Declarações de autoridades monetárias apontam para a mesma direção cautelosa quando o assunto é inflação

Por  Camila Schoti

SÃO PAULO – A próxima reunião da autoridade monetária norte-americana acontecerá apenas no dia 18 de março, mas membros votantes do Federal Open Market Committee, o Fomc, têm feito declarações freqüentes sobre seu prognóstico para o cenário econômico dos EUA.

Embora a maioria concorde que a velocidade com que os cortes na Fed Funds Rate foram implementados é necessária para tentar evitar um deslize ainda maior da economia norte-americana, de maneira geral, as declarações sugerem que a inflação, ainda que agora com menor peso nas decisões da autoridade monetária, ainda é fonte de preocupação do colegiado.

A percepção é de que tanto a inflação corrente quanto às expectativas inflacionárias seguem em patamar elevado e podem mostrar resistência mesmo frente a um quadro de desaquecimento da atividade econômica, situação que requer cautela adicional na condução da política monetária.

Pedra no sapato

Até o dia 18 de março, diversos indicadores serão divulgados, algum deles de expressiva relevância, como o Relatório de Emprego referente ao mês de fevereiro. Obviamente, não será só o mercado que olhará para os números da economia norte-americana.

Pelas declarações, não há um consenso estrito quanto ao comportamento futuro do PIB do país, – quadro que atribui importância ainda maior aos indicadores de atividade econômica agendados até a reunião – mas a preocupação com a inflação, que há menos de um ano era o tema central do Fed, parece continuar a incomodar a autoridade monetária.

O não arrefecimento dos preços diante de um quadro recessivo, – que tem na redução do juro básico uma forma de estímulo econômico – é, essencialmente, conflitante, já que a flexibilização da política monetária tende a dificultar a desaceleração da inflação no país.

Enfraquecimento da credibilidade do Fed

Charles Plosser, presidente do Federal Reserve da Filadélfia, reforçou na última semana a necessidade dos cortes na Fed Funds Rate, que levaram a taxa a 3,0% ao ano, mas não deixou de mencionar que a desaceleração do crescimento econômico não irá, por si só, contribuir para o arrefecimento da inflação.

Mais do que temores quanto aos preços correntes, Plosser mostrou-se preocupado com as expectativas para a inflação do país. Segundo o chairman do Fed da Filadélfia, já existem sinais de que as expectativas inflacionárias estão avançando, evento que considera sinal inicial de enfraquecimento da credibilidade da autoridade monetária dos EUA.

De olho na inflação, Fisher votou contra corte

Responsável pelo Fed de Dallas, Richard Fisher, único membro do colegiado que votou contra o corte de 50 pontos-base na última reunião, julgou que o timming para o corte não era apropriado. Além do elevado nível de preços e das expectativas inflacionárias, para Fisher, a materialização das medidas adotadas anteriormente seria suficiente para mitigar os riscos de recessão.

Ademais, de volta à questão do risco moral a que se referiam os membros do Fed quando não se sabia ainda as dimensões das conseqüências da crise no segmento de crédito subprime, Sandra Pianalto, presidente do Fed de Cleveland, foi incisiva: “deixaram-nos o estrago que tem sido causado por concepções falhas a escolhas ruins.” Pianalto, porém, acrescentou que a regulação adequada do setor deverá permitir que as dificuldades do ajuste do mercado desapareçam.

Prognósticos distintos

Janet Yellen também evidenciou sua percepção sobre o quadro na última semana: não confia na possibilidade da recessão ser evitada nos EUA. Para a presidente do Fed de São Francisco, um prolongado período de crescimento reduzido é o resultado mais provável.

Plosser, por sua vez, não espera queda do PIB norte-americano. Sua expectativa é de um limitado crescimento de 1,0% no primeiro semestre deste ano, seguido por uma aceleração, de 2,7%, no crescimento do PIB a partir de 2009. Já suas expectativas para a inflação estão entre 2,0% e 2,5% ainda neste ano, patamar bem próximo do nível considerado confortável pela autoridade monetária.

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